Há um ano, a safra 2019/20 registrava um volume inferior de etanol nos estoques das usinas do Centro-Sul, especialmente em comparação com a temporada anterior. A produção do renovável em abril e maio de 2019 foi menor devido ao clima úmido e, como a demanda seguia normalmente, os estoques registraram níveis mais baixos.
O cenário observado neste ano é o oposto. Ao mesmo tempo em que a seca no início da safra favoreceu a colheita – a moagem acumulada até o final de maio está 12,29% acima da observada no ano passado, de acordo com a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) –, a queda na demanda devido às medidas de isolamento trazidas pelo coronavírus fez com que a concentração de etanol nos estoques aumentasse.
De acordo com os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 1º de junho, o volume do renovável armazenado pelas usinas atingiu 4,46 bilhões de litros. Na comparação com o valor registrado ao final quinzena anterior, o crescimento é de 20,47%. Além disso, o volume é o maior para o período desde 2010.
O número também é 87,32% maior que o registrado em 1º de junho de 2019, quando os estoques somavam em 2,38 bilhões. Em 2019, aliás, a marca de 4 bilhões de litros só foi ultrapassado na metade de julho, o que é considerado natural em um cenário de produção e demanda normais.
A partir destes valores é possível observar que, mesmo que a cada quinzena os estoques tenham atingido novos recordes, o crescimento mês a mês e a diferença entre os anos têm sido menores. Em 16 de maio, por exemplo, o acréscimo foi de 25,78% na comparação com o início do mês e de 94,25% na relação ano a ano.
A análise da especialista sênior de preços da S&P Global Platts, Nicolle Monteiro de Castro, corrobora com essa visão: “Enquanto os números ainda apontam para um aumento ano a ano, o aumento percentual já é menor do que nas últimas três quinzenas”.
Dos 4,46 bilhões de litros de etanol estocados atualmente no Centro-Sul, 2,89 bilhões são de hidratado. O montante representa um crescimento de 104,77% em relação aos 1,41 bilhões de litros do mesmo período em 2019 e de 23,44% em relação a 16 de maio.
Estas variações indicam que, por mais que na comparação ano a ano o crescimento seja anormal – entre 2018/19 e 2019/20, o registrado no período foi uma queda de 42,68% –, na análise mês a mês o aumento é natural. No ano passado, ele foi de 26,82%.
Já o anidro concentra os 1,57 bilhões de litros restantes, o que representa um aumento de 61,96% em relação a 2019.
A explicação para essa diferença entre os estoques dos tipos de etanol vem das variações na demanda nos postos, conforme Castro. “O consumo de gasolina em abril diminuiu, em média, 28,77% no Centro-Sul, enquanto a demanda por hidratado diminuiu quase 32%; assim, a demanda por anidro foi menos afetada”, relata.
A principal concentração dos estoques está em São Paulo, maior produtor e consumidor de etanol no país. No total, são 2,99 bilhões de litros, que representam um crescimento de 90,4% em relação à safra anterior e de 22,04% ante a quinzena anterior.
Deste volume, 1,8 bilhão de litros são de hidratado – um crescimento de 108,97% em relação a 2019/20 – e 1,18 bilhão são de anidro, apresentando uma variação de 67,65% na mesma comparação.
Dos principais estados produtores, Minas Gerais foi o que apresentou a maior variação safra a safra nos estoques totais de etanol: 114,89%, chegando a 364 milhões de litros. Do outro lado está o Paraná, com um aumento entre os dois anos de 23,77%, chegando a 156 milhões de litros do renovável.
Castro, da Platts, afirma que a pressão nos estoques pode ser um motivo para os produtores abaixarem suas ofertas para atrair demanda. “Em um ano de crise no consumo de combustível, é difícil prever quando essa pressão de venda será acionada”, pondera.






Rafaella Coury – novaCana.com
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