Economista do Pecege aponta que, apesar de não ser possível antecipar a intensidade das queimadas, as usinas têm aprendido a lidar melhor com o problema
Os incêndios nas lavouras de cana-de-açúcar podem causar prejuízos às sucroenergéticas. Impactos na produtividade, mudanças no planejamento de plantio e colheita e elevação dos custos de produção são apenas alguns dos fatores que os produtores precisam encarar.
Somente em São Paulo, estado que mais produz cana, foram detectados via satélite 292 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 27 de abril. No mesmo período do ano passado, este número era de 268. Os dados são do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Considerando este quadro, o NovaCana conversou com o economista do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres. Ele explicou como as sucroenergéticas estão sendo impactadas pelas queimadas e quais são as consequências para o ciclo 2022/23, além de expor as medidas que vêm sendo tomadas para redução dos danos.
A entrevista – publicada originalmente na newsletter NC+, exclusiva para assinantes do portal – está disponível a seguir (faça login para acessar).
Os incêndios nas lavouras de cana-de-açúcar podem causar prejuízos às sucroenergéticas. Impactos na produtividade, mudanças no planejamento de plantio e colheita e elevação dos custos de produção são apenas alguns dos fatores que os produtores precisam encarar.
Somente em São Paulo, estado que mais produz cana, foram detectados via satélite 292 focos de incêndio entre 1º de janeiro e 27 de abril. No mesmo período do ano passado, este número era de 268. Os dados são do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Considerando este quadro, o NovaCana conversou com o economista do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), Haroldo Torres. Ele explicou sobre como as sucroenergéticas estão sendo impactadas pelas queimadas e quais são as consequências para o ciclo 2022/23, além de expor as medidas que vêm sendo tomadas para redução dos danos.
A entrevista – publicada originalmente na newsletter NC+, exclusiva para assinantes do portal – pode se lida a seguir.
O estado de São Paulo registrou um maior número de queimadas no início deste ano em comparação com o mesmo período de 2021. Essa tendência deve se manter? Por quê?
O ápice de queimadas e incêndios tende a acontecer nos períodos mais secos, em momentos de baixa umidade relativa do ar e que coincidem com o pico de safra, ou seja, os incêndios estão mais concentrados durante o inverno, principalmente nos meses de julho a agosto e até mesmo em setembro. A minha visão para 2022, considerando que estamos vindo de um período, desde outubro, com um nível de pluviometria relativamente melhor, é que tendemos a ter impactos menores vindos de incêndios. Mas dados do NOOA [Administração Oceânica e Atmosférica Nacional] mostram que não teremos uma antecipação tão rápida do La Niña, levando a um inverno mais seco no Centro-Sul. Se isso se confirmar, poderemos ter uma pressão maior de incêndios. O que é pior, se tivermos geadas semelhantes às do ano passado – o que contribuiu mais ainda para a seca –, eu diria que podemos ter um cenário similar. Mas, neste momento, eu acredito que veremos um número menor para o setor, ainda concentrado no pico de safra.
Na safra 2021/22, os produtores de cana-de-açúcar foram bastante prejudicados pelos incêndios nos canaviais. Há perspectiva de que isso se repita em 2022/23?
Os episódios de incêndios sempre nos levam a uma curva de aprendizado. Se não tirarmos uma lição, é sinal de que não aprendemos e estamos cometendo um erro. Os focos de incêndio continuam aparecendo, mas os impactos tendem a diminuir pela aprendizagem, porém nem tudo pode ser controlado e planejado. Ainda assim, acredito que é cedo para termos um direcionamento bastante pragmático, pois vai depender do clima do meio do ano.
No ano passado, as áreas afetadas por geadas tiveram um papel importante na propagação de incêndios. Isso pode se repetir neste ano? Há alguma forma de prevenir?
O setor está se tornando especialista no combate a incêndios, com planejamento e ações, pois o incêndio é um desastre econômico para o produtor. Dando um exemplo: vemos usinas e produtores rurais com instalação de estação meteorológica nas fazendas para monitorar chuva e água no solo. Ou seja, é uma ação simples e uma ferramenta para ações preventivas. Dados sobre a umidade relativa do ar, temperatura, velocidade do vento, tudo isso contribui para indicar as chances de ocorrência dos incêndios. As usinas estão utilizando a tecnologia como forma de prevenção. Também temos visto muitas empresas usarem câmeras de alta resolução e cobertura via satélite, que acabam pegando os focos de incêndio com precisão e isso possibilita a ação rápida dos brigadistas em canaviais. Estes são os pontos mais importantes em relação aos incêndios. Ano a ano, vejo que estamos evoluindo. O setor começou com torres de observação, com pessoas olhando. Hoje, isso é feito por satélites, por estações meteorológicas.
Quais são as outras formas de prevenção que as usinas vêm adotando, para além da tecnologia?
Temos os planos de auxílio mútuo, que são uma forma de integração da comunidade, das usinas e do corpo de bombeiros para combate dos incêndios florestais. Estamos criando planos de prevenção a incêndios um pouco mais elaborados, com pontos de observação, locais de monitoramento, mapa de pontos críticos. Não só isso: estamos até mudando o planejamento varietal. Quando olhamos para as variedades de cana, em áreas próximas às cidades e onde é recorrente ter fogo, já têm plantio de variedades precoces com o objetivo de antecipar a colheita e reduzir as chances de queima. O incêndio está sendo tão impactante que estamos olhando uma mudança agronômica de planejamento varietal, mudanças tecnológicas e equipes inteiramente focadas nisso, como brigadistas, caminhões tanques, equipes de limpezas de aceiros [áreas que devem ser mantidas sem vegetação ao redor das lavouras], para controle do fogo caso ele ocorra. Falamos de ações preventivas, por isso falamos em redução da intensidade do impacto, e não necessariamente do nível dos incêndios. Sabemos que os incêndios podem continuar a ocorrer e que muitos deles são criminosos ou acidentais, como bitucas de cigarros na rodovia, por exemplo.
Quais áreas estão sob maior risco de incêndio no momento e ao longo de 2022?
Neste momento seco, tem canavial sendo colhido. A suscetibilidade é maior em área que foi colhida, na palhada da cana, e em áreas onde não choveu nos últimos dias. Nelas, há grandes possibilidades de incêndios.
Qual é o impacto de um incêndio para uma área de canavial?
Como economista, os primeiros pontos que penso são custo e planejamento. Quando ocorre o incêndio, precisa colher a cana, não tem jeito. O primeiro impacto que tenho nesta safra é que todo o planejamento de colheita está bagunçado. Terei uma mudança no planejamento de colheita, uma vez que ele foi bagunçado no ano passado; uma área que não estava planejada para ser colhida precisou ser antecipada. Além disso, estamos sentindo outro problema nesta safra: o fogo em lavouras que já tinham sido colhidas gera falha de brotação e atrasa o desenvolvimento fisiológico para a safra seguinte. Em alguns casos, pode comprometer o desenvolvimento que já tinha ocorrido. Então, entramos na safra com planejamento de colheita bagunçado e falhas no canavial por conta do fogo em soqueiras. O incêndio reduz o potencial de produtividade, uma vez que reduz a população de cana no ciclo seguinte. Quando o fogo causa falha no canavial, vai nascer mato nesta área após uma chuva. Isso vai exigir ações de manejo, refletindo em menor produtividade e umidade do canavial. Se o produtor fez alguma operação agrícola, aplicando um produto, grande parte da aplicação é perdida quando ocorre o incêndio, ou seja, há um impacto gigantesco sobre operações já realizadas que leva a quedas de produtividade e longevidade. Nesta safra, o clima está contribuindo desde outubro. Porém estamos vendo os efeitos negativos do ano passado.
Em relação às áreas que foram afetadas na safra passada, em quanto tempo elas devem voltar aos índices de produtividade anteriores?
Onde o fogo implicou em um número de falhas bastante expressivo, a área foi reformada pelas usinas de forma antecipada. Houve um aumento de custo, pois não foi possível diluir em cinco a sete cortes, aumentando a área de plantio prevista. Neste caso, não há impacto de produtividade, mas sim em termos de custos. A segunda situação é que pode ter uma área severamente impactada, mas do ponto de vista econômico não faz sentido reformar. Então, ela ainda terá mais um ou dois cortes. Por isso, tudo depende se a região foi reformada ou se isso será feito um ou dois ciclos à frente. De todo modo, vejo que vamos conseguir reduzir e mitigar os impactos dos incêndios, mas nada garante que eles serão menores ou maiores.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana