Apesar de liderarem a iniciativa, os estudos e a perspectiva de desenvolvimento do novo etanol da GranBio e do CTC são significativamente diferentesA GranBio (ex-GraaBbio) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) estão posicionados como as empresas mais importantes na pesquisa com o etanol celulósico no Brasil. Apesar de liderarem a iniciativa, os estudos e a perspectiva de desenvolvimento do novo etanol das duas empresas são significativamente diferentes.
O portal NovaCana ouviu a Granbio e o CTC para entender mais sobre as tecnologias e a visão de mercado delas. Confira a seguir:
- Segundo a Granbio, o setor de etanol celulósico vive uma "corrida por parcerias"
- Alan Hiltner, vice-presidente executivo da Granbio, avalia o perigo das escolhas dos fornecedores
- O estágio atual da tecnologia: preço projetado do etanol celulósico, área plantada necessária e o rendimento do bagaço e da palha
- A matéria-prima será o grande nome do jogo
- Jaime Finguerut, do CTC: "Não vamos começar o processo pela parte mais complexa"
- O etanol celulósico faz parte da segunda revolução industrial
- Os 3 desafios da indústria
- CTC: "Existem riscos e uma grande dificuldade de financiamento para se colocar na prática estas inovações"
A Granbio (ex-Graalbio) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) estão posicionados como as empresas mais importantes na pesquisa com o etanol celulósico no Brasil. Apesar de liderarem a iniciativa, os estudos e a perspectiva de desenvolvimento do novo etanol das duas empresas são significativamente diferentes.
A GranBio aposta na instalação de novas unidades pensadas desde o nascimento no etanol de segunda geração (E2G) e na cana com alta celulose, além de focar em parcerias nacionais e internacionais para se dedicar exclusivamente à produção do E2G. Já o CTC aposta na mitigação dos riscos com a produção integrada de primeira e segunda geração.
O portal NovaCana ouviu mais detalhes sobre as tecnologias e a visão de mercado da GranBio e do CTC durante o Sugar and Ethanol 2013.
O vice-presidente executivo da GranBio, Alan Hiltner, afirma que em alguns meses a indústria do etanol de segunda geração deixará de ser uma promessa para virar realidade. "Este não é mais um potencial para o futuro, esta é uma indústria do presente. No ano de 2013 nós já teremos, pelo menos, sete indústrias comerciais fazendo etanol celulósico no mundo". Entre as pioneiras globais estão Abengoa, Fiberight e Chemtex, esta última afiliada ao grupo italiano Mossi&Ghisolf que é parceiro da GranBio.
Embora os Estados Unidos tenham maior número de iniciativas e em fases mais avançadas, quem está apostando no etanol a partir da biomassa tem convicção que o Brasil pode liderar. O gerente de desenvolvimento estratégico industrial do CTC, Jaime Finguerut, considera a eficiência e a consolidação da indústria nacional como base para o desenvolvimento. "A nossa indústria sucroalcooleira hoje é madura, a gente tem níveis de eficiência e produtividade que são os melhores do mundo, sem a menor dúvida, não existe nada mais sustentável do que o biocombustível de cana". No Brasil, as plantas da empresa começam a operação no próximo ano.
Para Hiltner, a produção do etanol celulósico faz parte de uma segunda revolução industrial. "Se na primeira a gente aprendeu a colocar as máquinas a trabalharem para os homens, agora a gente está domesticando os microrganismos e os colocando para trabalharem para os homens". Com diferentes processos disponíveis para o processamento da celulose, o executivo avalia que o desafio para os empreendimentos do gênero não é conseguir produzir o novo etanol, mas fazê-lo a preços competitivos.
Esta necessidade tem levado "a uma corrida por parcerias no setor" de forma a reunir os ingredientes necessários: capital, tecnologia e matéria-prima, fatores que geralmente estão em mãos diferentes. O alerta de Hiltner é para que os investidores sejam cautelosos ao eleger seus parceiros. Atualmente existem mais de 200 empresas oferecendo tecnologia para o processamento de biomassa, o que, na opinião do executivo, significa "empresas demais para recursos de menos". "A maior parte das empresas começou em laboratório, que é a parte mais sexy da biotecnologia, mas esta é uma indústria que tem ganhos de escala e questões logísticas para serem resolvidas", salienta.
De acordo com Hiltner, os desafios da indústria rumo à produção de E2G atualmente consistem em três pontos: montar um modelo de negócios competitivo com o etanol de primeira geração, fazendo com que todas as variáveis juntas empreguem uma taxa de retorno interessante ao acionista; conseguir o financiamento que viabilize o scale-up, ou seja, passar da escala de laboratório para produção ampliada e estruturar a cadeia para a matéria-prima. O último aspecto é o grande diferencial, diz o executivo da GranBio. "Assim como na petroquímica, a matéria-prima competitiva vai ser o grande nome do jogo", sentencia.
Apesar da planta da GranBio em construção no interior de Alagoas ter um custo elevado, próximo a R$ 300 milhões, Hiltner garante que os custos operacionais são reduzidos quando comparados ao etanol de primeira geração, o que desde já torna o biocombustível celulósico mais competitivo. "A gente fala isso com a legitimidade de quem está construindo uma planta de 82,5 milhões de litros, fazendo conta no detalhe e apostando nisso", assegura.
Cada hectare de cana produz em média 70 toneladas de biomassa, de modo que para suprir a capacidade produtiva da usina, que terá 82 milhões de litros, uma área com seis mil hectares é suficiente considerando apenas material lignocelulósico. A área é metade da requerida para a mesma produção de etanol na primeira geração. Ainda assim, Hiltner não conta com o aproveitamento total da matéria seca, mas afirma que a rentabilidade é certa. "Nas contas que a gente faz, se pudéssemos usar os 20% do bagaço da usina e recolher 50% da palha, a produção de etanol por hectare, com as tecnologias que nós temos, aumenta em torno de 45% a 50%". O executivo considera que o custo final de etanol celulósico fica em torno de 20% mais barato que o etanol de primeira geração.
Os números reforçam a afirmação de que a planta não será para testar tecnologia. "É uma planta para empregar a taxa interna de retorno, porque, no mínimo, a gente vende o etanol [2G] pelo preço do etanol de cana, com a enorme possibilidade de vendê-lo também, com prêmio no mercado internacional". A projeção da GranBio inclui, após a implementação da primeira fábrica, a instalação de duas usinas ao ano até 2020 quando a meta é atingir a produção de 1 bilhão de litros de etanol celulósico.
O negócio tem financiamento do Programa de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (Paiss) e participação do BNDESPar, que adquiriu 15% das ações por R$ 600 milhões. A implementação da tecnologia da Granbio contou com os parceiros estratégicos: Proeza, Novozymes e DSM.
Hoje cada tonelada de cana gera o equivalente a cem quilos de produto, seja açúcar ou álcool. Como 70% da cana é composta por água e apenas 10% viram produto, existe um desperdício de 20% de matéria seca. "Há potencial de outros dois terços que estão inaproveitados", resume Finguerut. E é com esta parcela que o CTC vai produzir seu etanol celulósico através da integração com as usinas atuais.
Apesar das propostas diferentes, os dois empreendimentos convergem sobre o principal fator: matéria-prima. O CTC já busca novas e melhores variedades de cana para as regiões com grande concentração de usinas, com aumentos de produtividade que superem os atuais ganhos incrementais. "Nosso objetivo é dobrar a produtividade da cana em um prazo razoável, até 2020. Para isso, será necessário triplicar a taxa de inovação que temos hoje", projeta. A chave para adoção destas novas variedades está no estabelecimento de alguma segurança para os produtores. Neste sentido, o Prorenova, financiamento para renovação dos canaviais, auxilia na mitigação dos riscos.
Finguerut olha otimista para os desafios que o E2G tem pela frente e relembra que o etanol de primeira geração não era eficiente no início do Proálcool e ainda custava caro. O que viabilizou o produto foi o conjunto de medidas políticas que geraram demanda e impulsionaram a produção. Mas apesar do êxito, o etanol de primeira geração deixou de apresentar incrementos significativos, por isso a necessidade de rompimento tecnológico. "Há necessidade de avanços radicais, no que o Brasil não é um grande exemplo. Existem riscos e uma grande dificuldade de financiamento para se colocar na prática estas inovações". Foi justamente para atrair recursos que o CTC, em 2011, se transformou em empresa de pesquisa.
A produção do CTC inicia em escala de demonstração com capacidade nominal de 2 milhões de litros. O projeto conta também com financiamento da Finep e do BNDES, por meio do Programa de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (Paiss).
Amanda SchArr – NovaCana
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- Segundo a Granbio, o setor de etanol celulósico vive uma "corrida por parcerias"
- Alan Hiltner, vice-presidente executivo da Granbio, avalia o perigo das escolhas dos fornecedores
- O estágio atual da tecnologia: preço projetado do etanol celulósico, área plantada necessária e o rendimento do bagaço e da palha
- A matéria-prima será o grande nome do jogo
- Jaime Finguerut, do CTC: "Não vamos começar o processo pela parte mais complexa"
- O etanol celulósico faz parte da segunda revolução industrial
- Os 3 desafios da indústria
- CTC: "Existem riscos e uma grande dificuldade de financiamento para se colocar na prática estas inovações"
A Granbio (ex-Graalbio) e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) estão posicionados como as empresas mais importantes na pesquisa com o etanol celulósico no Brasil. Apesar de liderarem a iniciativa, os estudos e a perspectiva de desenvolvimento do novo etanol das duas empresas são significativamente diferentes.
A GranBio aposta na instalação de novas unidades pensadas desde o nascimento no etanol de segunda geração (E2G) e na cana com alta celulose, além de focar em parcerias nacionais e internacionais para se dedicar exclusivamente à produção do E2G. Já o CTC aposta na mitigação dos riscos com a produção integrada de primeira e segunda geração.
O portal NovaCana ouviu mais detalhes sobre as tecnologias e a visão de mercado da GranBio e do CTC durante o Sugar and Ethanol 2013.
O vice-presidente executivo da GranBio, Alan Hiltner, afirma que em alguns meses a indústria do etanol de segunda geração deixará de ser uma promessa para virar realidade. "Este não é mais um potencial para o futuro, esta é uma indústria do presente. No ano de 2013 nós já teremos, pelo menos, sete indústrias comerciais fazendo etanol celulósico no mundo". Entre as pioneiras globais estão Abengoa, Fiberight e Chemtex, esta última afiliada ao grupo italiano Mossi&Ghisolf que é parceiro da GranBio.
Embora os Estados Unidos tenham maior número de iniciativas e em fases mais avançadas, quem está apostando no etanol a partir da biomassa tem convicção que o Brasil pode liderar. O gerente de desenvolvimento estratégico industrial do CTC, Jaime Finguerut, considera a eficiência e a consolidação da indústria nacional como base para o desenvolvimento. "A nossa indústria sucroalcooleira hoje é madura, a gente tem níveis de eficiência e produtividade que são os melhores do mundo, sem a menor dúvida, não existe nada mais sustentável do que o biocombustível de cana". No Brasil, as plantas da empresa começam a operação no próximo ano.
Para Hiltner, a produção do etanol celulósico faz parte de uma segunda revolução industrial. "Se na primeira a gente aprendeu a colocar as máquinas a trabalharem para os homens, agora a gente está domesticando os microrganismos e os colocando para trabalharem para os homens". Com diferentes processos disponíveis para o processamento da celulose, o executivo avalia que o desafio para os empreendimentos do gênero não é conseguir produzir o novo etanol, mas fazê-lo a preços competitivos.
Esta necessidade tem levado "a uma corrida por parcerias no setor" de forma a reunir os ingredientes necessários: capital, tecnologia e matéria-prima, fatores que geralmente estão em mãos diferentes. O alerta de Hiltner é para que os investidores sejam cautelosos ao eleger seus parceiros. Atualmente existem mais de 200 empresas oferecendo tecnologia para o processamento de biomassa, o que, na opinião do executivo, significa "empresas demais para recursos de menos". "A maior parte das empresas começou em laboratório, que é a parte mais sexy da biotecnologia, mas esta é uma indústria que tem ganhos de escala e questões logísticas para serem resolvidas", salienta.
De acordo com Hiltner, os desafios da indústria rumo à produção de E2G atualmente consistem em três pontos: montar um modelo de negócios competitivo com o etanol de primeira geração, fazendo com que todas as variáveis juntas empreguem uma taxa de retorno interessante ao acionista; conseguir o financiamento que viabilize o scale-up, ou seja, passar da escala de laboratório para produção ampliada e estruturar a cadeia para a matéria-prima. O último aspecto é o grande diferencial, diz o executivo da GranBio. "Assim como na petroquímica, a matéria-prima competitiva vai ser o grande nome do jogo", sentencia.
GranBio: convicção no resultados
Com a convicção de ter parcerias que a tornam apta para suplantar as barreiras, a GranBio terá como foco exclusivo o processamento de biomassa proveniente de usinas de etanol de primeira geração parceiras. As "sinergias" entre o novo processo e as plantas tradicionais como fornecedoras vão viabilizar o negócio que já parte da produção em escala comercial.Apesar da planta da GranBio em construção no interior de Alagoas ter um custo elevado, próximo a R$ 300 milhões, Hiltner garante que os custos operacionais são reduzidos quando comparados ao etanol de primeira geração, o que desde já torna o biocombustível celulósico mais competitivo. "A gente fala isso com a legitimidade de quem está construindo uma planta de 82,5 milhões de litros, fazendo conta no detalhe e apostando nisso", assegura.
Cada hectare de cana produz em média 70 toneladas de biomassa, de modo que para suprir a capacidade produtiva da usina, que terá 82 milhões de litros, uma área com seis mil hectares é suficiente considerando apenas material lignocelulósico. A área é metade da requerida para a mesma produção de etanol na primeira geração. Ainda assim, Hiltner não conta com o aproveitamento total da matéria seca, mas afirma que a rentabilidade é certa. "Nas contas que a gente faz, se pudéssemos usar os 20% do bagaço da usina e recolher 50% da palha, a produção de etanol por hectare, com as tecnologias que nós temos, aumenta em torno de 45% a 50%". O executivo considera que o custo final de etanol celulósico fica em torno de 20% mais barato que o etanol de primeira geração.
Os números reforçam a afirmação de que a planta não será para testar tecnologia. "É uma planta para empregar a taxa interna de retorno, porque, no mínimo, a gente vende o etanol [2G] pelo preço do etanol de cana, com a enorme possibilidade de vendê-lo também, com prêmio no mercado internacional". A projeção da GranBio inclui, após a implementação da primeira fábrica, a instalação de duas usinas ao ano até 2020 quando a meta é atingir a produção de 1 bilhão de litros de etanol celulósico.
O negócio tem financiamento do Programa de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (Paiss) e participação do BNDESPar, que adquiriu 15% das ações por R$ 600 milhões. A implementação da tecnologia da Granbio contou com os parceiros estratégicos: Proeza, Novozymes e DSM.
CTC: mitigação de riscos
O projeto do CTC é mais conservador, porém mais abrangente, e busca minimizar os riscos. "Pretendemos implantar o etanol celulósico em qualquer usina que tenha etanol de primeira geração. A nossa ideia é trazer de forma econômica e sustentável a biomassa que hoje não é utilizada, converter esta biomassa em açúcares e [fazer] estes açúcares serem fermentados na fermentação atual", explica o gerente de desenvolvimento estratégico industrial do CTC. Jaime Finguerut considera que existe um enorme potencial desperdiçado e é esta oportunidade que está na mira da instituição. "Não vamos começar o processo pela parte mais complexa, que é usar leveduras geneticamente modificadas", completa.Hoje cada tonelada de cana gera o equivalente a cem quilos de produto, seja açúcar ou álcool. Como 70% da cana é composta por água e apenas 10% viram produto, existe um desperdício de 20% de matéria seca. "Há potencial de outros dois terços que estão inaproveitados", resume Finguerut. E é com esta parcela que o CTC vai produzir seu etanol celulósico através da integração com as usinas atuais.
Apesar das propostas diferentes, os dois empreendimentos convergem sobre o principal fator: matéria-prima. O CTC já busca novas e melhores variedades de cana para as regiões com grande concentração de usinas, com aumentos de produtividade que superem os atuais ganhos incrementais. "Nosso objetivo é dobrar a produtividade da cana em um prazo razoável, até 2020. Para isso, será necessário triplicar a taxa de inovação que temos hoje", projeta. A chave para adoção destas novas variedades está no estabelecimento de alguma segurança para os produtores. Neste sentido, o Prorenova, financiamento para renovação dos canaviais, auxilia na mitigação dos riscos.
Finguerut olha otimista para os desafios que o E2G tem pela frente e relembra que o etanol de primeira geração não era eficiente no início do Proálcool e ainda custava caro. O que viabilizou o produto foi o conjunto de medidas políticas que geraram demanda e impulsionaram a produção. Mas apesar do êxito, o etanol de primeira geração deixou de apresentar incrementos significativos, por isso a necessidade de rompimento tecnológico. "Há necessidade de avanços radicais, no que o Brasil não é um grande exemplo. Existem riscos e uma grande dificuldade de financiamento para se colocar na prática estas inovações". Foi justamente para atrair recursos que o CTC, em 2011, se transformou em empresa de pesquisa.
A produção do CTC inicia em escala de demonstração com capacidade nominal de 2 milhões de litros. O projeto conta também com financiamento da Finep e do BNDES, por meio do Programa de Apoio à Inovação dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (Paiss).
Amanda SchArr – NovaCana