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[Opinião] A demanda que não depende de Brasília: Biocombustíveis e mandatos globais

Existe uma categoria de demanda se formando para os biocombustíveis com uma característica que o setor não está acostumado: não depende de decreto

NovaCana 3 min de leitura

Por Miguel Angelo Vedana*

Existe uma categoria nova de demanda se formando para os biocombustíveis brasileiros e ela tem uma característica que o setor não está acostumado a ver: não depende de decreto nacional.

A aviação corre atrás do combustível sustentável (SAF) para cumprir metas internacionais de descarbonização. A navegação, pressionada pela regulação da Organização Marítima Internacional (IMO), começa a contratar biobunker. E, aqui dentro, a lei do Combustível do Futuro criou o mandato do biometano, cujo gatilho – a emissão do primeiro Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) – é aguardado para os próximos meses.

Pela primeira vez, a pergunta não é se haverá comprador; é se o Brasil vai se organizar para vender.

Os números do biogás dão a dimensão do que está parado na mesa. O país tem potencial para produzir 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia e usa menos de 2% disso, segundo a presidente da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás), Josiani Napolitano, em entrevista ao NovaCana.

Atualmente, 21 plantas estão em operação e 48 em processo de autorização na ANP, sendo sete delas com matéria-prima sucroenergética. Para Napolitano, o biometano deixou de ser potencial e virou indústria em crescimento, capaz de dar ao país mais segurança e, nas palavras dela, soberania energética.

O que me chama atenção no diagnóstico da Abiogás é o método, que vale para todos os biocombustíveis avançados: ninguém investe sem saber a alocação do produto. Por isso, a entidade trabalha em quatro frentes de criação de mercado: substituição do diesel no transporte pesado; geração de energia despachável; produção de fertilizantes; e insumo para combustíveis avançados.

É o oposto da nossa tradição de construir oferta primeiro e torcer pela demanda depois. No SAF e no biobunker, o desafio é o mesmo: as rotas tecnológicas ainda estão em disputa, os investimentos exigem contratos de longo prazo, e o prêmio verde – a diferença de custo em relação ao fóssil – ainda procura quem o pague.

Mas a janela de investimentos e adoção representa um risco. A demanda global tem prazo definido fora do Brasil e o mercado será de quem se estruturar primeiro. Nossa vantagem de matéria-prima é real e é enorme; ela só não é, sozinha, um plano de negócio. Para completar, entre fornecer o combustível ou o insumo para quem faz o combustível, há uma diferença de margem que vai definir o tamanho do setor na próxima década.

Os protagonistas desta corrida estarão no mesmo palco nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP). Na Conferência NovaCana 2026, Napolitano divide o painel “Além do etanol: SAF, biobunker e a nova era dos biocombustíveis” com o coordenador de temas ambientais para assuntos da IMO, Flavio Haruo Mathuiy, o presidente da Airbus Brasil, Gilberto Peralta, e o líder para a América Latina da BloombergNEF, Rafael Rabioglio.

Quem quer saber onde o prêmio verde vai parar, precisa acompanhar essa conversa. Programação e inscrições em NovaCana/conferencia2026.

* Miguel Angelo Vedana é diretor executivo do NovaCana

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