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A crise no setor sucroenergético na visão da presidente da Unica

Apresentação de Elizabeth Farina, presidente da UnicaA opinião de Elizabeth Farina sobre as usinas que estão fechando, as recentes ações do governo, a posição da Petrobras e o mercado de combustíveis em 2020.
NovaCana 8 min de leitura
Apresentação de Elizabeth Farina, presidente da Unica
Pela primeira vez falando publicamente no Brasil, a presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, apresentou na semana passada, durante a conferência Sugar and Ethanol Brazil 2013, sua opinião sobre a atual situação do etanol no Brasil.

O setor teve a oportunidade de conferir também um pouco do seu papel como agente político, já que ela fez questão de se posicionar num polarizado debate entre o governo e os críticos da atual política para o setor.

Confira a seguir:
- A opinião de Elizabeth Farina sobre as usinas que estão fechando;
- Como devem ser encaradas as recentes ações do governo;
- O que precisa ser feito para o etanol brasileiro aproveitar os espaços potenciais no mercado nacional e internacional;
- As oportunidades e o potencial do mercado interno;
- A participação do etanol e da gasolina no consumo brasileiro em 2020;
- A posição da Petrobras em relação aos interesses da Unica.

Apresentação de Elizabeth Farina, presidente da Unica
Pela primeira vez falando publicamente no Brasil, a presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Elizabeth Farina, apresentou na semana passada, durante a conferência Sugar and Ethanol Brazil 2013, sua opinião sobre a atual situação do etanol no Brasil.

O setor teve a oportunidade de conferir também um pouco do seu papel como agente político, já que ela fez questão de se posicionar num polarizado debate entre o governo e os críticos da atual política para o setor.

A presidente da Unica abriu sua palestra exaltando a importância da indústria da cana-de-açúcar, que, na safra 2012/2013, teve uma receita de US$ 36 bilhões, 53% vindo do açúcar, 43% do etanol e 3% da bioeletricidade. Do total arrecadado, 60% acabou indo para a área agrícola, seja para a cana própria das usinas ou para os 70 mil agricultores independentes.

Oportunidade no mercado interno

Ao elencar os principais fatores que estimulam o crescimento potencial da demanda, ela citou o crescimento da frota de veículos flex no país. Essa possibilidade de opção entre o combustível fóssil e renovável, exclusiva dos brasileiros, é um "patrimônio" para o setor. "Isso não quer dizer que o proprietário do carro flex vá usar etanol, mas ele pode usar etanol se as condições econômicas forem razoáveis ou se ele tiver uma consciência ambiental independente do preço relativo". A frota de motos bicombustível também abre uma perspectiva importante. Farina estimou que a participação em 2020 deve saltar para 61%, contra os atuais 15%.

Traduzindo este potencial em consumo, hoje a frota flex demanda 29,7 bilhões de litros de combustível equivalente à gasolina, dos quais 15,7 bilhões de litros são de etanol. Dentro de sete anos, o volume total de combustível equivalente à gasolina deve ir para 75 bilhões de litros.

Este forte crescimento no consumo abrirá uma janela importante para o mercado de etanol ampliar sua participação, especialmente com a informação trazida pela presidente da Unica sobre a produção futura de gasolina no país. De acordo com ela, as novas refinarias que estão sendo construídas foram projetadas tendo como produto principal o diesel, assim, o país não aumentará significativamente a produção de gasolina no período e a tendência é o etanol atender este crescimento de forma mais significativa.

Processo de restruturação produtiva

Farina lembrou que 40 usinas fecharam nos últimos anos e existe a expectativa de que outras dez deixem de funcionar neste ano. Para ela, as dificuldades que o setor sucroalcooleiro tem enfrentado nos últimos anos são fruto de um processo de reestruturação produtiva e não podem ser encaradas com pessimismo. "A minha interpretação é de que a gente não pode só olhar para as usinas fechando e achar 'puxa, vamos desaparecer'. Estamos no meio de uma tremenda transformação econômica deste setor, o que muitas indústrias e agroindústrias brasileiras passaram anteriormente", avaliou.

Mas a dirigente da maior entidade representativa do setor fez um alerta. Dentro de duas safras o Brasil pode vivenciar o esgotamento da capacidade atual. Por volta de 2015, a capacidade de expansão produtiva estará condicionada à necessidade de investimentos em novas usinas. "Investimentos são necessários para que a gente preserve a nossa capacidade de crescer e de, portanto, aproveitar este potencial da demanda interna e externa", avisou.

Espaço para duplicar a produção

A líder da Unica informou que há espaços potenciais no mercado nacional e internacional que, até 2020, podem ser ocupados pela produção de etanol brasileiro. Mas, para isso acontecer, será necessário "dobrar a nossa produção entre 2012/13 e 2020/21 e ter aproximadamente cem novas usinas. Isso é uma tremenda oportunidade, sem dúvida, e pode ser visto também como um tremendo desafio que nós temos a superar".

Áreas viáveis à expansão dos canaviais existem, assim como tecnologia disponível. "Observando este 7,1 mil litros por hectare [de produtividade atual], há uma confiança de que podemos passar, em 2025, para 24,5 mil por hectare". Este ganho de produtividade seria viabilizado com melhoria de processos e tecnologias na lavoura e na indústria, mas especialmente a partir do etanol de segunda geração.

A questão que se coloca para que o setor sucroalcooleiro possa atingir este patamar é a estabilidade, condição para que investidores arrisquem em greenfields. "De fato temos algumas decisões importantes não só do ponto de vista privado, observando este crescimento potencial de consumo como oportunidade de investimento, mas também da política pública, porque nós sabemos que em nenhum país do mundo combustíveis renováveis deixam de depender de política pública", enfatizou Farina.

Açúcar e bioeletricidade

Em projeção conservadora, a dirigente da Unica considerou que o mercado brasileiro de açúcar tem oportunidades de ampliar a produção em 15,7 milhões de toneladas, além da capacidade atual, até 2020.

Na área de bioleletricidade, o setor também pode ter ganhos significativos nos próximos anos. "Temos expectativa de responder de 18 a 20% da oferta potencial que o Brasil necessita", projetou.

Exportação incerta

Levando em consideração os países que contam com mandatos de consumo mínimo de biocombustíveis avançados, a exportação de etanol pode aumentar cinco vezes nos próximos sete anos. "Isso é uma potencialidade, mas está sujeito a chuvas e trovoadas", ponderou, citando as pressões sobre o padrão de combustíveis renováveis norte-americano (RFS2).

Da mesma forma, a política da União Europeia para o uso de 10% de combustíveis renováveis no setor de transporte em 2020, está igualmente ameaçada, cenário que gera dúvidas sobre a manutenção do atual bom momento vivido pelas exportações de etanol do Brasil.

Atuação política

A presidente Elizabeth Farina deixou claro o seu papel de agente político no painel seguinte do evento. Mais do que apontar as diretrizes do que considera fundamental ao desenvolvimento do setor, Farina se posicionou no polarizado debate entre o governo e os produtores de etanol. Debatendo as políticas públicas para o setor, estavam Maurilio Biagi Filho, Presidente do Grupo Maubisa, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Presidente da ABAG - Associação Brasileira do Agronegócio, Ismael Perina Júnior, Diretor Presidente da Orplana - Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil, Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV e, representando o governo, a ANP.

Ao mesmo tempo em que se colocou de maneira propositiva, ela foi otimista em suas expectativas, mas fez questão de definir a condição para o desenvolvimento. "Para termos a potencialidade de produzir mais de fato, precisamos transformar externalidade em incentivos para o investimento, o que só se faz com regras muito claras daqui para o futuro", disse.

Mesmo tendo enfatizado a necessidade de se estabelecer políticas públicas para abrir o horizonte de médio e longo prazo, Farina equilibrou o debate sobre o tema, polarizado nos ataques às políticas do governo.

A presidente da entidade afirmou que a interlocução entre o setor e o governo existe e que há perspectiva positiva para o atendimento de demandas. "A gente tem levado propostas e tem ouvido uma resposta positiva. A minha sensação é de que vamos ter medidas concretas", opinou.

Do lado da Petrobras

"Estamos do mesmo lado do barco que a Petrobras, e isso ajuda muito. Prefiro estar do mesmo lado do que contra. Os problemas que a estatal está enfrentando são favoráveis a nós. Temos gente de muito bom nível [em Brasília] e tem uma hora que alguém tem que decidir fazer", ponderou.

Economista com sólida carreira na USP, a presidente afirmou que este é o momento de dar crédito para a o governo federal e lembrou que há algumas semanas a presidente Dilma Rousseff afirmou que o etanol é estratégico para o governo.

Farina finalizou sua participação e colocou fim ao debate com otimismo. "Com a nossa incessante, irritante e impossível de abalar vontade de fazer este trabalho de formiga que tem que ser feito, a gente pode terminar este painel com uma visão positiva".

Amanda SchArr – NovaCana
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