Fabricantes de colhedoras de cana estudam maneiras de aliar transmissão de dados, gestão e agricultura de precisão
Muito mais que cortar cana, as colhedoras viraram sinônimo de economia nas indústrias. O boom dessa tecnologia é recente no setor. No Brasil, as primeiras começaram a aparecer no início da década de 1990 e hoje, no Centro-Sul, a colheita já é quase totalmente mecanizada.
O maior avanço talvez tenha sido a redução dos custos de produção. E, atualmente, esse é o foco no desenvolvimento de novos equipamentos de colheita. Ganha quem colher mais, gastando menos. Mas, infelizmente, os maquinários não trabalham sozinhos.
Afinal, ao mesmo tempo em que a colheita mecanizada resultou no fim das queimadas e do trabalho manual, ela também levou à redução de produtividade nos canaviais e ao aumento da quantidade de impurezas levadas às usinas. A utilização de tecnologia deve ser pensada estrategicamente pelas empresas, que precisam encarar o panorama produtivo como um todo.
A seguir:
- Os novos sistemas das colhedoras que prometem reduzir os custos em cerca de 15%.
- Consumo de combustível: novidades vem reduzindo a sede das colhedoras.
- Colhendo informações: fabricantes estudam maneiras de aliar transmissão de dados, gestão e agricultura de precisão
- Os fatores que afetam a eficiência
Muito mais que cortar cana, as colhedoras viraram sinônimo de economia nas indústrias. O boom dessa tecnologia é recente no setor. No Brasil, as primeiras começaram a aparecer no início da década de 1990 e hoje, no Centro-Sul, a colheita já é quase 100% mecanizada.
O maior avanço talvez tenha sido a redução dos custos de produção. E, atualmente, esse é o foco no desenvolvimento de novos equipamentos de colheita. Ganha quem colher mais, gastando menos. Mas, infelizmente, os maquinários não trabalham sozinhos e a utilização de tecnologia deve ser pensada estrategicamente pelas empresas, que precisam encarar o panorama produtivo como um todo.
Afinal, ao mesmo tempo em que a colheita mecanizada resultou no fim das queimadas e do trabalho manual, ela também levou à redução de produtividade nos canaviais e ao aumento da quantidade de impurezas levadas às usinas.
Economia aliada à tecnologia e à gestão
Alguns estudos sobre o assunto apontam que a colheita mecanizada é cerca de 26% mais econômica que a manual. Assim, o valor gasto para colher mil hectares de cana manualmente é equivalente aos custos com 1,35 mil hectares quando o produtor se utiliza de máquinas.
A avaliação desses equipamentos leva três pontos em consideração: capacidade de colheita, qualidade da colheita e consumo de combustível. A equação perfeita pode ser resumida pela máquina que colhe a maior quantidade de cana por hora, com a menor quantidade possível de impurezas e falhas no canavial, consumindo pouco combustível por tonelada colhida.
De acordo com fabricantes de equipamentos, a nova geração de colhedoras está cada vez mais especializada em cortar custos. Mas eles também apontam que a maior demanda da indústria sucroenergética é em relação à gestão, tanto produtiva quanto administrativa.
Segundo o gerente de marketing estratégico para cana-de-açúcar da John Deere América Latina, Marco Ripoli, ferramentas presentes no maquinário e softwares possibilitam o acompanhamento completo do panorama produtivo e podem auxiliar nessa necessidade das usinas. “São soluções integradas que somam o aperfeiçoamento dos equipamentos, a otimização do trabalho e o suporte para decisões”, comenta.
A princípio, esse tipo de acompanhamento propicia uma colheita mais precisa e com controle sobre a produtividade de cada área do canavial. No sistema da máquina, por exemplo, é possível registrar quantas toneladas de cana foram colhidas em determinado espaço, possibilitando um detalhamento mais completo de outras etapas do processo, como plantio e correção de solo.
Colhendo informações
Hoje, os fabricantes estudam maneiras de aliar transmissão de dados, gestão e agricultura de precisão. “O desafio é transformar os dados em informação, permitindo tomadas de decisão mais ágeis e eficientes”, analisa o pesquisador do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege), João Rosa.
Equipamentos modernos ainda são capazes de gerar mapas de produtividade em tempo real, prática que já existe no trabalho com grãos há algum tempo. Outro aspecto importante é a automação do corte base, que regula a altura do corte da cana de acordo com o terreno e a pressão exercida no mecanismo. A automatização desse processo garante tempos de resposta mais rápidos na colheita, diminuindo a quantidade de cortes errados e o consumo de combustível, além de minimizar o desgaste das facas e danos nas soqueiras.
Os mapas gerados também permitem calcular melhor as manobras realizadas no canavial, diminuindo o tempo em que a máquina não está colhendo e prevendo situações futuras para melhoria das áreas, ajustando a lavoura de acordo com os equipamentos utilizados, o que pode levar a aproveitamentos ainda melhores.
Mas João Rosa aponta que um dos grandes gargalos é a falta de infraestrutura de comunicação no Brasil, o que impede a transmissão de dados a partir de áreas rurais onde não há sinal de telefonia. Segundo o pesquisador, há trabalhos sendo desenvolvidos por fabricantes para tentar diminuir essa distância, mas essa sincronização tecnológica ainda deve levar algum tempo para ser eficiente por aqui.
Manutenção e combustível
Custos com manutenção também são demandas constantes de quem trabalha com colhedoras. A ideia é que seja possível utilizar a máquina com o menor tempo de parada.
Conforme fabricantes, melhorias em sistemas de filtros, lubrificação e rolamentos reduziram os tempos de parada em mais de 80%, o que significa mais horas com os equipamentos no campo. Além disso, também já foram pensadas soluções em sistemas de iluminação que auxiliam na necessidade de reparos noturnos.
“Novos sistemas de filtragem aumentam o intervalo de troca, reduzindo a quantidade de filtros por safra de 48 para 6. Os rolamentos que levavam 15 horas para serem trocados agora levam duas; a lubrificação pode ser realizada em 30 minutos”, detalha o especialista em marketing de produto da Case IH, Fábio Balaban.
Estima-se que já seja possível reduzir os custos em cerca de 15% com os novos sistemas que vem sendo empregados nas máquinas.
No caso do consumo de combustível, novidades também vem reduzindo a sede das colhedoras. Para Ripoli, da John Deere, melhorias nos mecanismos de alimentação, limpeza e hidráulico garantem ganhos de até 8% na eficiência, aumentando a capacidade de colheita e reduzindo o consumo de diesel. Ele lembra que as contas com combustíveis correspondem a cerca de um terço do valor da colheita. Avaliações realizadas pela empresa em diferentes áreas de colheita chegaram a uma média de economia de combustível de 25,8%.
Colhedoras também exigem condições de trabalho adequadas
Dados coletados pela John Deere apontam que uma máquina com capacidade efetiva de colheita de 2.040 toneladas diárias de cana pode apresentar, ao longo da safra, médias de colheita inferiores à sua capacidade em até 71,2%. Essa queda brusca é ocasionada por limitações do campo, paradas não planejadas e operadores mal capacitados.
“A máquina, por si só, não determina a qualidade da operação já que outros fatores importantes impactam diretamente a colheita. A colheita deve ser avaliada e realizada de forma sistêmica”, explica João Rosa. Há tempos ele acompanha a questão do desenvolvimento das colhedoras de cana.
A colheita começa muito antes da máquina chegar ao campo. Como enfatiza João Rosa: “A colheita começa no preparo do solo”. Isso significa que canaviais bem cuidados e preparados para a rotina das máquinas devem apresentar resultados bem melhores durante o manejo. “De nada adiantam colhedoras cada vez mais modernas se as condições em que vão atuar estão aquém das condições ideais”, alerta o pesquisador.
Ele também lembra que o desenvolvimento de variedades de cana ainda não está totalmente adaptado à colheita mecanizada. Hoje, plantam-se variedades de cana criadas nas décadas de 1980 e 1990, as quais, em sua maioria, foram pensadas quando grande parte do trabalho ainda era manual.
Mas o passo inicial para perceber que o trabalho deve ultrapassar as barreiras físicas da rotina já foi dado. O consenso no setor é de que quanto mais informação estiver disponível, melhor o trabalho pode ser realizado. As máquinas já estão sendo preparadas para exercer essa função, mas, enquanto ainda houver falta de atenção aos canaviais e de capacitação adequada, os números não serão muito melhores.
Jorge Mariano – NovaCana