Diretor agrícola e gerente de manutenção automotiva da empresa destacam os desafios no uso de biocombustíveis e biofertilizantes na unidade de Narandiba (SP)
Desde outubro de 2021, a planta do grupo Cocal localizada em Narandiba (SP) produz biogás e biometano a partir da vinhaça e da torta de filtro, por meio de um projeto feito em parceria com a Geo Biogás e Tech.
Além disso, a unidade também emprega a vinhaça para aplicação localizada na lavoura, devolvendo nutrientes à terra; realiza compostagem; faz rotação de culturas para não deixar o solo descoberto; e trabalha com biofertilizante para se tornar mais produtiva.
Este processo – desde a “produção” de microrganismos até a purificação do biogás para a fabricação de biometano – foi detalhado pelo diretor agrícola da Cocal, Jurandir de Oliveira Júnior, e pelo gerente de manutenção automotiva, Luis Claudio Alves Gomes, durante a primeira edição do Geo Day, ocorrida em Londrina (PR), no início do mês.
Segundo Gomes, um dos principais motivos que levou a Cocal a investir na produção de biogás e biometano foi o alto consumo de diesel da companhia: cerca de 30 milhões de litros por safra.
Na unidade de Narandiba, que moe 5,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por temporada, a geração de biogás é de 33,1 milhões de metros cúbicos por ano. Deste volume, uma parte é destinada para geração distribuída, ou seja, vira energia elétrica despachada na rede, e a outra é transformada em biometano.
Com isso, cerca de 4,4 milhões de m³ do biometano são distribuídos pela Gás Brasiliano, com destino aos municípios paulistas de Narandiba, Pirapora e Presidente Prudente. Outra fatia é vendida envasada para fornecedores.
Por fim, uma terceira parcela do gás é usada na própria frota da Cocal. “Nós começamos a planejar o uso de biometano na frota a partir de pesquisa e desenvolvimento, em parcerias com outras usinas. Temos o grupo de trabalho Etanol Carbono Zero: além da Cocal, outras usinas desenvolvem planos de biometano e têm interesse de trocar o diesel pelo biocombustível”, detalha Gomes.
Outras frentes em que a Cocal atua incluem o desenvolvimento e a capacitação, por meio de consultorias especializadas, para avançar com ecossistemas envolvendo frota, equipe e operação, além de realizar a adequação de estruturas físicas e operacionais. “Temos uma base de compressão em operação na usina e um posto de abastecimento, operando e abastecendo a frota de Narandiba”, explica o gerente.
A meta inicial da Cocal é consumir 3 mil metros cúbicos por dia de biometano; atualmente a demanda está em 1,14 mil m³. Para conseguir isso, é necessário fazer a renovação de equipamentos e apostar em outras soluções como, por exemplo, tornar os veículos duo fuel, ou seja, aptos a rodar tanto com gás quanto com diesel.
“São feitos alguns testes controlados, depois são feitas análises de resultados para concluir a viabilidade econômica, operacional e técnica”, complementa Gomes.
Confira na versão completa, restrita aos assinantes do NovaCana, os principais resultados e desafios da Cocal em relação a biogás, biometano e, também, biofertilizantes.
Desde outubro de 2021, a planta do grupo Cocal localizada em Narandiba (SP) produz biogás e biometano a partir da vinhaça e da torta de filtro, por meio de um projeto feito em parceria com a Geo Biogás e Tech.
Além disso, a unidade também emprega a vinhaça para aplicação localizada na lavoura, devolvendo nutrientes à terra; realiza compostagem; faz rotação de culturas para não deixar o solo descoberto; e trabalha com biofertilizante para se tornar mais produtiva.
Este processo – desde a “produção” de microrganismos até a purificação do biogás para a fabricação de biometano – foi detalhado pelo diretor agrícola da Cocal, Jurandir de Oliveira Júnior, e pelo gerente de manutenção automotiva, Luis Claudio Alves Gomes, durante a primeira edição do Geo Day, ocorrida em Londrina (PR), no início do mês.
Segundo Gomes, um dos principais motivos que levou a Cocal a investir na produção de biogás e biometano foi o alto consumo de diesel da companhia: cerca de 30 milhões de litros por safra.
Na unidade de Narandiba, que moe 5,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por temporada, a geração de biogás é de 33,1 milhões de metros cúbicos por ano. Deste volume, uma parte é destinada para geração distribuída, ou seja, vira energia elétrica despachada na rede, e a outra é transformada em biometano.
Com isso, cerca de 4,4 milhões de m³ do biometano são distribuídos pela Gás Brasiliano, com destino aos municípios paulistas de Narandiba, Pirapora e Presidente Prudente. Outra fatia é vendida envasada para fornecedores.
Por fim, uma terceira parcela do gás é usada na própria frota da Cocal. “Nós começamos a planejar o uso de biometano na frota a partir de pesquisa e desenvolvimento, em parcerias com outras usinas. Temos o grupo de trabalho Etanol Carbono Zero: além da Cocal, outras usinas desenvolvem planos de biometano e têm interesse de trocar o diesel pelo biocombustível”, detalha Gomes.
Outras frentes em que a Cocal atua incluem o desenvolvimento e a capacitação, por meio de consultorias especializadas, para avançar com ecossistemas envolvendo frota, equipe e operação, além de realizar a adequação de estruturas físicas e operacionais. “Temos uma base de compressão em operação na usina e um posto de abastecimento, operando e abastecendo a frota de Narandiba”, explica o gerente.
A meta inicial da Cocal é consumir 3 mil metros cúbicos por dia de biometano; atualmente a demanda está em 1,14 mil m³. Para conseguir isso, é necessário fazer a renovação de equipamentos e apostar em outras soluções como, por exemplo, tornar os veículos duo fuel, ou seja, aptos a rodar tanto com gás quanto com diesel.
“São feitos alguns testes controlados, depois são feitas análises de resultados para concluir a viabilidade econômica, operacional e técnica”, complementa Gomes.
Alguns resultados já estão no campo. A Cocal possui duas motobombas em operação que foram testadas e tiveram resultados satisfatórios. Além disso, a empresa emprestou um trator da New Holland que também passa por testes; para completar, caminhões e veículos leves estão sendo implantados na unidade.
“A substituição do diesel pelo biometano deve ser feita de forma escalonada. Os veículos que passam pela usina são substituídos primeiro e depois vem os equipamentos que ficam no campo”, Luis Claudio Alves Gomes (Cocal)
Os próximos passos da Cocal incluem um projeto para substituir 100% das motobombas a biometano, que está em andamento e em fase de aprovação pela diretoria. Com isso, o consumo de biometano aumentará, de acordo com Gomes.
Além disso, a empresa irá receber outro caminhão, no final do primeiro semestre, e está negociando com a MWM para substituir mais uma motobomba e um caminhão. “Vamos receber mais um trator que está em fase de desenvolvimento e estamos desenvolvendo um comboio para levar este gás para o campo”, complementa o gerente.
Todas essas novidades prometem atingir uma demanda de biometano 3,61 mil m³ por dia, superando a meta estabelecida.
O papel do biofertilizante
A Cocal também vem desenvolvendo novos produtos, como levedura e CO2. Eles fazem parte de iniciativas para melhorar a nota da companhia em relação ao programa RenovaBio e para o reforço das práticas ESG (sigla em inglês para uma agenda de ações nas áreas de meio-ambiente, social e governança), conforme explica o diretor agrícola Jurandir de Oliveira Júnior.

“No RenovaBio, os insumos que mais penalizam a nota são combustível, adubo e fertilizantes. Olhando para esse novo cenário, o que poderíamos fazer para levar agentes que contribuam com a nossa jornada de nutrição, reduzindo o uso de fertilizantes?” questiona.
Ele pontua que a região onde as usinas se localizam é relativamente nova no cultivo da cana, com um ambiente de produção que não beneficia a cultura e que mais de 70% das áreas são consideradas desfavoráveis, com baixo nível de matéria orgânica, solos leves e arenosos.
Com isso, o uso de biofertilizante, por exemplo, tornou-se ainda mais importante para o cultivo. Oliveira Júnior relembra que, dentro do processo de biodigestão – que dá origem ao biogás e ao biometano –, também existe a rota de fertilizantes, de nutrição e vida no solo.
“Temos panelas de pressão de produção de microrganismos. Isso começou a despertar o nosso interesse: como usar essa estrutura para levar vida para o campo?”, Jurandir de Oliveira Júnior (Cocal)
“Não tínhamos dúvidas de que a vinhaça e a torta de filtro são fontes nutricionais, não é novidade. Mas precisávamos entender como os biodigestores poderiam impactar nesses produtos com uma visão agrícola: quanto entra e quanto se devolve para o campo. Foram feitas várias conversas para entender o papel do biodigestor, o quanto poderia comprometer a nossa jornada”, destaca o diretor.
O objetivo da empresa era não abrir mão da prática de retornar esses insumos para o campo, entendendo quais oportunidades eles teriam na área de fertilização e redução de químicos com os novos processos.
Virada tecnológica
Em um passado recente, o uso do fogo para facilitar a colheita da cana-de-açúcar era comum. A migração para uma colheita totalmente mecanizada, embora considerada melhor para o meio ambiente, não aconteceu sem consequências.
“Ela deixa um volume de palha no campo, de 15 a 18 toneladas por hectare, cobrindo o solo, e isso muda o ambiente. Quando tinha a queimada, nesse assunto de vida no solo, o que a gente mais ouvia é que não funcionava, não dava certo”, recorda o diretor agrícola.
De fato, no cenário de queima, as chances de os microrganismos sobreviverem e apresentarem resultados era quase nula. Sem conhecimentos profundos de manejo e sem as propriedades adequadas, os canaviais eram frequentemente implantados apenas tirando pastagens e entrando com a cana, sem correção de solo, construção de perfil ou rotação de culturas. Mas com a colheita da cana crua, a situação é diferente.
“Passamos a adotar práticas que também contribuem com os microrganismos no solo, não deixando o solo descoberto em nenhum momento com rotação de cultura, usando soja, amendoim, milheto, crotalária, nabo, braquiária; isso faz um trabalho importantíssimo de aprofundamento de raiz, levando os corretivos em profundidade”, relata Oliveira Júnior.
Além disso, a Cocal aplica a vinhaça localizada, o que gera condições de desenvolvimento e permanência de vida no solo.
Mas, para que este processo funcione, o diretor agrícola pontua que é necessário trabalhar com qualidade operacional no campo: não ter o plantio falhado, plantar em momento adequado, e trabalhar com variedades novas que perfilham e cobrem o solo.
“Nenhum microrganismo vai fazer milagre. Vamos mudando as práticas, aumentando a qualidade operacional, tendo mais controle e gestão – é uma somatória de fatores. Isso que chamamos de ecossistema”, explica.
A rotação de culturas é usada para complementar a parte nutricional da cana, por meio de plantas que são fixadoras de nitrogênio, potássio e fósforo.
Ainda assim, esta jornada é recente para a Cocal, que entrou no quarto ano com uso de vinhaça localizada, por exemplo. Dos 90 mil hectares de área de tratos culturais, 70 mil são fertilizados com vinhaça localizada, linha por linha, conforme destaca Oliveira Júnior.
“O biodigestor entra como uma prática que vamos usar para fechar a conta dos nutrientes, trabalhando com microrganismos de fixação. A ideia é trabalhar com outras fontes de matéria orgânica para enriquecer nossos produtos originais: a vinhaça e a torta”, relata e segue: “Se eu jogar esterco bovino no biodigestor, além da produção do gás, vamos enriquecer essa torta e essa vinhaça com nitrogênio, com micronutrientes”.
Ele complementa que as características físicas dos produtos não mudam: a torta de filtro tem 68% de umidade e, quando o biogás é produzido, ela o mantém. Com isso, não há mudanças relevantes nas características nutricionais dos resíduos, pois as bactérias não consomem nutrientes e sim matéria orgânica.
O diretor complementa que alguns momentos de dificuldade foram aceleradores do desenvolvimento da Cocal, como a crise provocada pela pandemia de covid-19, que escasseou o acesso às matérias-primas e dificultou a logística. Já a guerra entre Rússia e Ucrânia escancarou a relação de dependência por fertilizantes químicos.
“A facilidade que tínhamos de acesso a fertilizantes nos deixava em uma zona de conforto. Tínhamos conhecimento, os equipamentos estavam prontos para isso e aprendemos a trabalhar com outros produtos que foram entrando em nosso manejo e portfólio”, conta.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana