Para o gerente de engenharia e despacho de voo da Azul, Diogo Bertoldi Youssef, o Brasil tem como grande trunfo o pleno conhecimento e domínio de uma das rotas tecnológicas para produzir combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês): o etanol.
O biocombustível de cana e milho pode ser convertido em SAF a partir de um processo certificado como alcohol-to-jet (ATJ), ainda sem escala no mundo, mas que já começa a atrair investimentos nos Estados Unidos e no Brasil.
“A gente entende que, por conta da capacidade produtiva do Brasil, que é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos EUA, a gente tem todas as condições de torná-lo pronto e soberano na produção e utilização do SAF a partir do álcool”, defende em entrevista à agência EPBR.
Com a rota HEFA, que utiliza óleos vegetais, já no limite pela baixa oferta de matéria-prima e custo da commodity em alta, a aposta da Azul é que a ATJ seja a nova fronteira de produção.
Parte dessa produção brasileira também poderia ser exportada, observa, melhorando a renda de produtores e distribuidores, o que pode ajudar a reduzir custos. Para isso, o combustível precisa ter seus atributos ambientais reconhecidos internacionalmente.
A brasileira Raízen conseguiu a certificação do seu etanol, em agosto deste ano, para produção de SAF atendendo às regras de sustentabilidade do Corsia, emitido pela Organização da Aviação Civil Internacional (Icao).
Com a certificação do biocombustível produzido no parque de bioenergia Costa Pinto, em Piracicaba (SP), a Raízen se torna a primeira produtora de etanol do mundo no Corsia.
“O SAF produzido a partir do álcool no Brasil tem que ter o seu atributo de descarbonização reconhecido internacionalmente. Isso para que a gente possa, lá na frente, fazer uso do Corsia”, explica Youssef.
Corsia é o programa de compensação de carbono da aviação internacional, que estabelece metas de descarbonização obrigatórias, a partir de 2027. Entre as formas reconhecidas de reduzir a pegada de carbono estão a mitigação com uso de SAF e a compensação por meio de créditos de carbono.
O Brasil ainda não produz SAF e está discutindo uma política pública para incentivar oferta e demanda, o que terá impacto também na formação dos preços do novo combustível.
Com a possibilidade do biorrefino nacional cada vez mais palpável, a Azul levanta uma nova preocupação em relação ao desenho do mercado: a disputa do produto renovável com as companhias aéreas europeias, que precisam cumprir mandatos de adição ao querosene fóssil.
“Com uma visão do atributo de compensação alto, a gente tem uma preocupação que as companhias aéreas europeias que operam no Brasil venham fazer uso do nosso SAF para cumprir o mandato da União Europeia”, conta o gerente da Azul.
Isso teria efeitos sobre a disponibilidade e a precificação, pesando na conta dos operadores brasileiros, caso não haja uma proteção, pontua Youssef. “Se a partir do início da operação, quando não acredito que vai ter um volume grande disponível, as europeias consomem esse SAF, ele não estará disponível para nós”, afirma.
Já no caso da precificação, o executivo explica que o custo do renovável é estimado em duas vezes o valor do querosene convencional, de petróleo.
Se as aéreas brasileiras tiverem que arcar com o custo cheio, na disputa com as europeias, que pagam em euro, os operadores domésticos ficarão em desvantagem – e a tendência é que o combustível produzido aqui atenda mandatos de outros países.
Essas são questões que precisam ser trabalhadas na política pública, diz Youssef.
Em setembro, o governo Lula (PT) entregou ao Congresso Nacional o projeto de lei do Combustível do Futuro que, entre outras propostas, prevê um mandato de redução de emissões com uso do SAF.
Na visão do gerente, o PL precisa abordar a necessidade de criar políticas que atendam os problemas a serem enfrentados pelo Brasil e deem condições às companhias aéreas para que cumpram as metas de descarbonização.
Ele conta que a companhia está em conversas com distribuidoras de combustíveis e fabricantes de SAF para encontrar modelos de tributação que ajudem nesse sentido. Também cita o exemplo da Califórnia (EUA), onde o governo concede um crédito de US$ 1,43 por galão comprado, quase 50% do preço atual do combustível de aviação.
“A gente detém as tecnologias para produzir dentro do país, com atributos de sustentabilidade, sem afetar a produção de alimentos. Tem uma série de pontos aqui a serem levados em consideração, só que isso só vai fazer sentido se houver uma proteção e incentivo para a linha aérea nacional utilizar”, completa.
Nesta quarta-feira, 11, Honeywell e GranBio anunciaram que vão combinar suas tecnologias para produzir SAF neutro em carbono, a partir do etanol celulósico.
Com início das operações previsto para 2026, a planta de demonstração da GranBio nos EUA usará resíduos de biomassa como matéria-prima e terá capacidade de produzir cerca de 2 milhões de galões de SAF ao ano.
A escala é de demonstração, mas as empresas veem potencial para que a tecnologia ganhe mercado. Um dos motivos é a alta disponibilidade desse tipo de matéria-prima. A GranBio usará chips de madeira e resíduos de cana-de-açúcar.
Outro motivo é a tecnologia modular da Honeywell, que permite aos produtores construir nova capacidade de SAF mais de um ano mais rápido do que as instalações tradicionais de biorrefino.
Parte do investimento na planta da GranBio está sendo subsidiado pelo governo dos EUA, no programa SAF Grand Challenge Roadmap.
A iniciativa, coordenada pelos Departamentos de Energia (DoE), Transporte (DoT) e Agricultura (USDA), pretende impulsionar projetos que levem à ampliação de novas tecnologias de produção de SAF para a escala comercial.
Nayara Machado