Lideranças do setor atacaram o fim da escala 6x1, aprovado pelo Congresso Nacional
A reeleição do presidente Lula foi recebida com “apreensão” por representantes da cadeia de cana-de-açúcar. Líderes do setor que estiveram presentes nesta segunda-feira, 26, na 26ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol, em São Paulo, afirmaram à reportagem que esperam agora que o novo governo promova um ajuste fiscal, ao mesmo tempo em que também esperam subsídio do governo para o setor.
“Estamos apreensivos”, afirmou o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, à Globo Rural. Segundo ele, o receio é que o novo governo não realize um corte nos gastos públicos, o que segundo ele pode provocar inflação e manter os juros elevados. “Nosso receio é com o macro”, afirmou.
Questionado sobre o impacto da reeleição do petista para o setor de biocombustíveis, ele criticou o subsídio dado à gasolina quando estourou a guerra no Oriente Médio. Embora o governo tenha, em setembro, aprovado uma subvenção de R$ 0,2519 o litro do etanol hidratado, Nogueira defendeu que o benefício deveria ter sido igual ao concedido à gasolina A, de R$ 0,44 por litro.
O presidente da União Nacional de Bioenergia (Udop), Hugo Cagno, também criticou os gastos públicos anunciados por Lula durante a campanha eleitoral, além da própria subvenção dada à gasolina, e defendeu que agora o governo precisa atender os produtores rurais, diante do nível de endividamento recorde no campo. “O produtor não aguenta taxa de juros de 14% a 15% ao ano”, disse.
Ele defendeu que o governo amplie no Plano Safra linhas com taxas subsidiadas com foco nos produtores das principais commodities de exportação do Brasil, como é o caso do açúcar. “Não pode dar taxa subsidiada só para quem produz arroz e feijão”, disparou.
Cagno também defendeu que o governo incentive, com subsídios, o transporte de etanol do Centro-Sul para o Nordeste para evitar importações de etanol.
Produtor de cana-de-açúcar e presidente do conselho da Orplana, Roberto Cestari disse no palco durante apresentação no evento que “poderíamos ter amanhecido mais animados, mas nossa vida tem que continuar”.
À reportagem, ele demonstrou ceticismo com o próximo governo e criticou veementemente a aprovação do fim da escala 6x1, que se deu no Senado pouco mais de uma semana antes do segundo turno. “Está incentivando vagabundos, criminosos”, afirmou.
A aprovação das mudanças na jornada de trabalho também foi atacada no decorrer da própria apresentação, no evento, por Mário Campos, presidente da Bioenergia Brasil, que reúne usinas do Centro-Sul, Nordeste e Norte.
Em sua fala, Campos disse que “é um crime o que ocorreu”, ao tratar da aprovação da PEC no Senado, e defendeu que o setor faça pressão para reverter a medida.
Camila Souza Ramos