Os preços do açúcar permaneceram relativamente estáveis ao longo da semana terminada em 22 de agosto, após recuarem dos níveis mais altos em dois meses na semana anterior.
Segundo a coordenadora de inteligência de mercado da Hedgepoint Global Markets, Lívea Coda, o impulso inicial foi resultado de sinais de fortalecimento da demanda – como licitações no Paquistão, aumento das importações chinesas relatadas pela alfândega e especulações sobre o uso da cana de-açúcar na produção da Coca-Cola nos Estados Unidos.
No entanto, o adoçante perdeu força, pois não se concretizaram mudanças significativas nos fundamentos do mercado. “Embora a atividade dos fundos tenha contribuído para o recente suporte aos preços por meio da realização de lucros, o sentimento geral do mercado permanece mais baixista em comparação com as temporadas anteriores. A produção do Hemisfério Norte para 2025/26 deve, em geral, apresentar bons resultados”, observa Coda.

Ela ainda comenta que, na última semana, alguns participantes do mercado interpretaram dados de produtividade do CTC para a região Centro-Sul do Brasil como altistas por se manterem inferiores aos números de safras passadas.
“No entanto, consideramos o oposto, pois o dado mostra sinais de que os volumes de cana podem exceder a expectativa média do mercado. Nossa estimativa de julho para a produtividade ficou em 80,2 t/ha, bem alinhada com os 81,03 t/ha reportados pela Unica", afirma e completa: “Dada a semelhança, mantivemos nossa previsão de 605 milhões de toneladas de cana para a safra 2025/26, com base em uma produtividade acumulada para o ano em 75,9 t/ha na região”.

A analista destaca que, embora o resultado atual esteja 6% abaixo do mesmo período do ano passado, os picos de produtividade em julho são historicamente incomuns – observados recentemente apenas nas safras 2023/24, 2022/23 e 2012/13.
“As duas últimas apresentaram uma porcentagem maior de moagem ocorrendo após julho. As safras 2022/23 e 2012/13 foram referências importantes, pois foram selecionadas para ajudar a estimar nossa curva de produtividade devido às suas tendências de VHI [índice de saúde da vegetação] muito semelhantes às observadas até agora na temporada 2025/26”, afirma.
Neste contexto, ela espera que a disponibilidade de açúcar no Brasil continue forte, principalmente devido aos elevados níveis de mix açúcar. Segundo Coda, o mais recente relatório da União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) registrou outro recorde histórico, com um mix de 54% durante a segunda quinzena de julho.
Assim, apesar de estar acompanhado de uma produtividade mais baixa, a produção de açúcar de 3,6 milhões de toneladas na quinzena ajudou a reduzir o déficit de produção, de 9,2% para 7,7% com relação à safra 2024/25 entre os últimos dois relatórios liberados pela Unica.
“A pressão adicional sobre os preços vem do aumento da disponibilidade no Hemisfério Norte, particularmente de países como a Índia, onde os volumes de exportação podem aumentar substancialmente dependendo das decisões do governo”, afirma Coda, que segue: “Já foram solicitadas cotas de exportação de 2 milhões de toneladas. Isso reforça que os preços ainda podem permanecer nos níveis atuais por um tempo, recebendo apoio do lado da demanda, especialmente da China”.
Segundo ela, a China deve importar mais açúcar do que o previsto anteriormente, apesar da forte produção doméstica e das perspectivas positivas para 2025/26. O Ministério da Agricultura revisou sua previsão de importação para 2024/25, de 4,75 milhões de toneladas para 5 milhões de toneladas. “Nossa estimativa atual inclui 4,6 milhões de toneladas de açúcar bruto e pelo menos 1 milhão de toneladas de xarope em equivalente de açúcar”, afirma.
Ainda de acordo com Coda, apesar desse aumento nas importações, a oferta ainda é suficiente, com os fluxos comerciais previstos para permanecerem baixistas com um superávit projetado superior a 2,5 milhões de toneladas entre o terceiro trimestre de 2025 e o terceiro trimestre de 2026.
“Embora fatores sazonais, como o período de entressafra no Brasil e os baixos estoques domésticos de etanol, possam oferecer algum suporte aos preços, o excedente previsto entre o terceiro e o quarto trimestre de 2025 provavelmente atenuará qualquer impulso de recuperação significativo que possa ocorrer no início de 2026”, explica.

Para ela, a questão principal gira em torno de se os fundamentos baixistas atuais persistirão ou se eles começarão a enfraquecer, potencialmente abrindo caminho para uma mudança no sentimento do mercado. Vários fatores podem influenciar essa perspectiva.
Dito isso, a coordenadora acredita que esses fatores continuam especulativos e em grande parte não confirmados, tornando-os mais “hipóteses” do que indicadores confiáveis de uma virada altista.