Resolução vai definir sistemática de redução das metas individuais das distribuidoras quando estas firmarem contratos de longo prazo para aquisição de biocombustíveis
Uma audiência pública na Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) nesta quarta-feira, 17, discutiu com o mercado como colocar de pé a sistemática de redução das metas individuais das distribuidoras de combustíveis no RenovaBio, quando estas firmarem contratos de longo prazo para aquisição de biocombustíveis.
A possibilidade está prevista em uma resolução de 2020 do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), mas depende de regulação da agência. O texto em consulta na ANP altera a Resolução ANP nº 791, de 2019.
A minuta de resolução da ANP passou por um período de consulta pública e recebeu 76 contribuições do setor de combustíveis, a maior parte delas relativas às penalizações para quem descumprir os contratos e o momento em que a meta de aquisição dos créditos de descarbonização (CBios) será abatida.
A proposta prevê que o desconto nas metas das distribuidoras seja dado a partir da homologação dos contratos. Mas o setor de biocombustíveis teme distorções no mercado, caso os contratos não sejam cumpridos.
Durante a audiência, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) defendeu que o desconto só ocorra após o cumprimento do contrato, para a meta do ano seguinte da distribuidora. Já a Raízen, que atua tanto na produção de etanol quanto na distribuição de combustíveis, propôs que o abatimento ocorra após a execução de pelo menos um ano de contrato.
Em suma, a minuta da ANP propõe:
- Fixação de prazos mínimos contratuais diferentes para cada biocombustível: um ano para o biodiesel, três para o etanol (anidro ou hidratado). A Unica é contra, pois defende que o prazo mínimo de três anos seja para qualquer biocombustível.
- Descontos progressivos conforme a duração dos contratos: as distribuidoras poderão ter 50% das suas metas de CBios abatidas a partir de volumes de biocombustível contratados e retirados em contratos com o prazo mínimo; 75% em contratos com duração de um ano além do mínimo; e 100% com dois anos além do mínimo.
- Os descontos incidem sobre a quantidade de CBios equivalente ao volume contratado e retirado pela distribuidora.
- A redução da meta é limitada a 20% da obrigação de compra de CBios das distribuidoras.
- Quem rescindir o contrato terá os CBios abatidos somados à meta anual. O mesmo vale se o contrato chegar ao fim sem ter sido cumprido por total.
Turbulências
O RenovaBio começou a funcionar no Brasil em 2020, em meio à pandemia de covid-19, e, de lá para cá, não teve um minuto de descanso.
A mais recente manobra do governo de Jair Bolsonaro para favorecer distribuidoras jogou um balde de água fria no setor de biocombustíveis ao postergar o prazo para a comprovação de metas, com impacto direto no preço do título verde.
Por um lado, atingiu o objetivo – conter a valorização do CBio. O título, que encerrou o mês de junho com cotação recorde de R$ 202, é hoje negociado a R$ 90, em média.
Por outro lado, a medida estabeleceu um cenário de insegurança em relação ao comprometimento do governo com a política de descarbonização.
Volatilidade atípica dos CBios
O ano de 2022 foi atípico no mercado de CBios, que são comercializados na B3.
Dados da ANP mostram que, nos anos de 2020 e 2021, os títulos só apresentaram grandes variações de valor a partir de setembro. Naqueles anos, os preços médios ficaram em R$ 43,41 e R$ 39,31, respectivamente.
Até o início de setembro de 2020, o CBio teve um valor médio de R$ 20, chegou à máxima anual de R$ 62 no final de outubro e fechou o ano a R$ 30. Os produtores de biocombustíveis tiveram uma receita estimada de R$ 650 milhões no ano.
Em 2021, o valor do CBios variou entre R$ 25 e R$ 32 até o início de setembro, chegou à máxima de R$ 62 em meados de dezembro, e fechou o ano em R$ 59. A receita estimada dos produtores de biocombustíveis com a negociação dos CBios foi de aproximadamente R$ 1 bilhão.
Em 2022, a valorização começou já em janeiro, com o crédito fechando mês a R$ 70 e batendo R$ 99, no final de fevereiro. Em maio, houve nova valorização, chegando a R$ 119, até bater o recorde de R$ 202 no final de junho.
Apesar da significativa valorização do CBio em 2022, a ANP garante que não há previsão de escassez do ativo para o cumprimento da meta anual das distribuidoras. Somados, os CBios em estoque e os já aposentados no primeiro semestre equivalem a 71% da meta de 35,98 milhões.
Nayara Machado