“Etanol” e “combustível de cana-de-açúcar” podem deixar de ser termos praticamente sinônimos no Brasil. Em cinco anos, a produção do renovável feito de milho pode saltar de entre 600 e 700 milhões de litros para algo entre 3 e 3,5 bilhões de litros ao ano.
Essa projeção é do presidente da União Nacional de Etanol de Milho (Unem), Ricardo Tomczyk. Mas o governo corrobora com a perspectiva de ascensão, ainda que de forma mais moderada. Segundo estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), a produção nacional a partir do cereal pode alcançar até 3,4 bilhões de litros em 2030.
Dada a quantidade de anúncios de investimentos em ampliação e em novas usinas que utilizem essa matéria-prima, o NovaCana Ethanol Conference 2018, que acontecerá em São Paulo (SP) nos dias 03 e 04 de setembro, terá um painel específico para o etanol de milho. Para abordar o tema com a propriedade de um especialista em açúcar e etanol, o evento convidou o estrategista do Rabobank, Andy Duff, que falará sobre os desafios e as perspectivas para o renovável de milho.
Duff é formado pela Universidade de Cambridge e atua como gerente do departamento de pesquisa e análise setorial do banco holandês, além de ser o especialista em açúcar e etanol da instituição.
Também estão confirmados para o painel o diretor executivo da FS Bioenergia, Henrique Ubrig, e o sócio da Agroícone, Marcelo Moreira.
Em maio deste ano, o Rabobank publicou um relatório sobre a produção agrícola de Mato Grosso, estado que mais produz milho atualmente no Brasil.
Dentre as análises de Andy Duff no documento, ele estima que, considerando projetos já anunciados, a produção de etanol de milho da região deva triplicar ao longo dos próximos três anos, chegando a 2 bilhões de litros.
Este aumento já pode ser percebido. Informações da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) mostram que, de 1º de abril a 16 de julho deste ano, a produção de etanol de milho chegou ao acumulado de 187,80 milhões de litros, ou seja, 163% a mais em relação ao volume em igual período de 2017.

O etanol de milho é um produto ainda recente no Brasil – a primeira usina chamada flex, que atua com cana e milho, data de 2011. Ela foi erguida em Mato Grosso, anexa a uma unidade já existente de cana-de-açúcar, a fim de aproveitar a mesma destilaria para produção do etanol de milho na entressafra de cana. Hoje, há mais duas usinas flex no estado.
No ano passado, a primeira usina que produz etanol apenas de milho começou a funcionar em Lucas do Rio Verde (MT).
Segundo o Rabobank, o interesse pelo etanol de milho no estado cresce pela combinação de fatores como preços baixos do cereal, valor agregado do DDG (grãos secos de destilaria, coproduto de etanol) e perspectivas de aumento da demanda de milho tanto para ração animal quanto para o biocombustível.
Em contrapartida a esses fatores, além da dificuldade logística, estão os preços internacionais do petróleo (que influenciam no valor da gasolina nacional), impostos como ICMS, PIS/Cofins e Cide e a alta competitividade do etanol importado dos Estado Unidos – que, aliás, também é produzido com milho.
Além disso, conforme o setor cresce, maiores serão as vendas para fora do estado – o retorno financeiro dependerá da comercialização para locais com preços mais elevados, como nas regiões Norte e Nordeste, sem que os custos com o transporte deteriorem a receita. Em termos, isso já ocorre: em 2017, 60% da produção do anidro de milho foi vendida principalmente para Rondônia e Amazonas.
O Rabobank, no entanto, alerta que os mercados de etanol e de milho não andam juntos, afinal, o primeiro é majoritariamente influenciado pelo preço da gasolina e da oferta do renovável de cana. Assim, os projetos relacionados ao biocombustível de milho devem estar preparados para quando os mercados se descolam.
Na safra 2016/17, a produção de milho em Mato Grosso atingiu a marca de 28,9 milhões de toneladas, o que corresponde a 30% da produção nacional. Há seis safras, a quantia não chegava a 2 milhões de toneladas, representando módicos 4% da produção nacional.
No estudo, o banco faz a analogia de que, se Mato Grosso fosse um país, ele seria o quinto maior produtor mundial considerando o cultivo da temporada 2016/17. Ficaria atrás apenas de Estados Unidos, China, Argentina e Brasil. Um verdadeiro “mar de milho”, como descreve o documento.
O motivo dessa ampliação vertiginosa é, principalmente, o aumento da produção do milho safrinha, uma segunda colheita feita após a da soja. Logo, o incremento da área plantada de milho está atrelado ao de soja. A região destinada para a dupla safra no Mato Grosso, que era de 10% da área de soja no início dos anos 2000, passou para 50% na temporada 2016/17, gerando um salto de 300 mil hectares para 4,6 milhões de hectares de milho safrinha.

No documento, o especialista também destaca o papel do desenvolvimento de variedades que permitem um ciclo precoce de soja, o que aumenta a cultura de milho dentro de um plantio com boas condições de clima. "A evolução de técnicas de manejo com adaptabilidade de híbridos, definição de espaçamento ideal e ajuste da adubação também tem resultado em ganhos de produtividade, que passou de 2,9 toneladas/hectare na safra 2000/01 para 6,2 toneladas no ciclo 2016/17 em Mato Grosso", expressa.
Por outro lado, a rentabilidade do cereal sofre reveses com preços elevados delineados pela dificuldade logística do transporte, sendo que, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), no ciclo 2016/17, somente 15% da produção do estado foi utilizada internamente, enquanto 25% foi para outros estados e 60% foi exportada.

Conforme o Rabobank, para desviar das pressões logísticas e seguir um caminho mais rentável, os produtores do estado buscam atalhos para conseguir um incremento na renda: verticalização e intensificação produtiva são dois deles. Neste cenário, as usinas de etanol também estão cada vez mais de olho no cereal comercializado em Mato Grosso a preços inferiores do que em outras regiões do Brasil.
A programação completa do NovaCana Ethanol Conference 2018 está disponível aqui e o cadastro para participar do evento pode ser feito aqui.
novaCana.com