Juliano Merlotto, sócio-fundador da consultoria, defende o peso da cogeração no caixa das usinas; produtores preferem investir nesta fonte a realizar operações de fusão e aquisição
Preços em queda, ciclos de baixa e companhias sem qualquer atratividade de capital – seja ele interno ou de fora do país. O atual panorama para as usinas de açúcar e etanol não é nada favorável, mas ainda há companhias conseguindo rentabilidade e geração de caixa.
A visão da FG/A, exposta no NovaCana Ethanol Conference 2018 pelo sócio-fundador da empresa, Juliano Merlotto, corrobora com o discurso de outros profissionais presentes no evento, como Manoel Pereira de Queiroz, do Rabobank. Porém, ele traz uma perspectiva um pouco mais otimista.
Durante sua palestra, Merlotto esclarece que, apesar do endividamento crescente, as usinas estão buscando enxugar algumas despesas – e uma das formas de fazer isso é investindo em geração de energia.
“As companhias enxergaram valor na cogeração”, explica. De acordo com ele, em nove anos (entre 2008 e 2017), o setor ampliou a exportação de energia do sistema de 12% para 40% da capacidade – o que se converte em receita. Mesmo assim, o analista aponta que ainda há potencial a ser buscado pelas usinas.
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Preços em queda, ciclos de baixa e companhias sem qualquer atratividade de capital – seja ele interno ou de fora do país. O atual panorama para as usinas de açúcar e etanol não é nada favorável, mas ainda há companhias conseguindo rentabilidade e geração de caixa.
A visão da FG/A, exposta no NovaCana Ethanol Conference 2018 pelo sócio-fundador da empresa, Juliano Merlotto, corrobora com o discurso de outros profissionais presentes no evento, como Manoel Pereira de Queiroz, do Rabobank. Porém, ele traz uma perspectiva um pouco mais otimista.
Durante sua palestra, Merlotto esclarece que, apesar do endividamento crescente, as usinas estão buscando enxugar algumas despesas – e uma das formas de fazer isso é investindo em geração de energia. Segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) analisados pela FG/A, em 2017, 209 plantas do setor exportaram energia elétrica para o Sistema Interligado Nacional (SIN).

“As companhias enxergaram valor na cogeração”, explica. De acordo com ele, em nove anos (entre 2008 e 2017), o setor ampliou a exportação de energia do sistema de 4,4 TWh/ano para 21,4 TWh/ano. Com isso, o analista estima que R$ 28 bilhões foram consumidos de capex de investimento, cifras relevantes frente à dívida do setor de R$ 90 bilhões.

Mesmo com valores de capex elevado, ainda há potencial a ser buscado pelas usinas. Para Merlotto, apesar da exportação de energia pelas usinas ter aumentado de 12% para 40% da capacidade, o setor poderia estar exportando até 50 TWh ao ano.
Também conforme o analista, a média de exportação do Centro-Sul é de 36 kWh por tonelada de cana moída. Já em uma amostra de 36 usinas formada pelos principais players do setor, que representam 58% da moagem do Centro-Sul, uma planta média gera 43 kWh por tonelada. Ou seja, entre as companhias com maior capital para investir, a cogeração teve uma maior prioridade em relação à média do setor.
Ainda assim, Merlotto acredita que há espaço para uma maior produção de eletricidade: “Uma surpresa é que mesmo os grupos maiores e mais capitalizados, como Raízen e São Martinho, cogeram e exportam [energia, em índices] próximos à média. Por outro lado, vemos a Cerradinho destoando e gerando 93 KWh por tonelada de cana”.
A partir dessa disparidade entre os grupos, a FG/A enxerga a cogeração como uma alternativa mais rentável e atrativa do que operações de fusão e aquisição, por exemplo. “Quem tem capacidade de investir vai preferir a cogeração do que fazer a aquisição de um vizinho. Esse vai ser o direcionamento do capex nos próximos anos”, projeta.

Transformando energia em caixa
Para verificar a rentabilidade desses investimentos, a consultoria analisou uma usina hipotética que processa 2 milhões de toneladas de cana por ano, valor médio para uma companhia do setor no Centro-Sul.
De acordo com a FG/A, se 70% da energia gerada por essa usina no ano passado tivesse sido exportada e vendida em leilão a R$ 200/MWh e os outros 30% fossem negociados a R$ 300/MWh no mercado livre ou spot, o preço médio por megawatt-hora seria de R$ 230. Considerando a exportação média de 36 MWh/t, a usina em questão produziria 72 GWh por safra – neste caso, cada tonelada de cana geraria uma receita de R$ 8,28.

“Olhando a Cerradinho como referência de cogeração, se o grupo tivesse uma planta de 2 milhões de toneladas [e mantivesse o atual índice de energia por tonelada de cana moída], conseguiria R$ 22 por tonelada de cana só com a cogeração”, exemplifica.
No ano passado, a usina hipotética teve fluxo de caixa líquido de R$ 4,00, além da receita de R$ 8,28 por tonelada com a energia. Assim, caso não tivesse cogerado, a unidade teria registrado um fluxo de caixa negativo. Por sua vez, com uma geração de energia mais eficiente, o fluxo de caixa seria ainda mais elevado.
“São números médios, pois é óbvio que cada companhia tem suas características. Mas eles servem para mostrar a importância que os grandes grupos já estão enxergando [na cogeração] e será uma direcionadora de capex para os próximos anos”, acrescenta Merlotto, que complementa: “Achamos que hoje, no setor, quem não tiver cogeração – e uma boa cogeração, com eficiência – pode ficar de fora do jogo. Ainda mais em um mundo em que o etanol é uma dúvida e depende do governo, e o açúcar continua subsidiado fora do Brasil”.
Comprar usinas ou gerar energia?
Durante sua palestra, o profissional esclarece que o setor está investindo em movimentos internos e se distanciando das fusões e aquisições (M&As) que ocorrem pontualmente. “Mais recentemente, houve aquisições por leilões judiciais, o que é um M&A forçado. É o limite, quando o ativo já está muito estressado”, relata.
Merlotto lembra que as usinas mineiras do grupo João Lyra foram arrematadas em leilões judiciais pela CMAA e pela Japungu Agroindustrial, e pontua que cada um dos grupos comprou o ativo a preços “relativamente bons”. O analista também acrescenta que irão existir outros leilões no futuro do setor, bem como pedidos de recuperação judicial, principalmente se os preços permanecerem em uma perspectiva baixista.

Outra movimentação é a de aquisição de canaviais – por exemplo, Raízen e São Martinho dividiram os ativos biológicos da Usina Furlan este ano. Além disso, grandes grupos também suspenderam as atividades de algumas plantas, a fim de concentrar a cana em outras unidades. Merlotto cita, neste caso, duas usinas da Raízen, uma da Biosev, uma da Santa Terezinha e uma da Renuka. Todas fecharam as portas em prol dessa estratégia.
“O usineiro olha o cluster, desativa uma unidade e enche a capacidade das outras plantas, pois, economicamente, isso é mais inteligente do que operar com todas elas”, esclarece.

Por outro lado, há mais uma peça no jogo que precisa ser levada em conta pelo produtor: no momento em que se suspende a atividade de uma planta, é preciso ponderar em fazer ou não o capex de manutenção para depois reativá-la. Além disso, uma caldeira tem depreciação menor funcionando do que quando é desativada.
“O que temos visto não é um movimento de consolidação, mas sim de deterioração do setor. Temos uma deterioração de ativos que vai afetar a capacidade no futuro, mesmo se houver recuperação de preço e disponibilidade de cana”, analisa Merlotto, que continua: “A consolidação ainda vai demorar a acontecer e a busca será por rentabilidade dentro do próprio negócio com ações menores e olhando o mercado”.
Outros investimentos
Em um setor altamente volátil, Merlotto expressa que, para investir, os produtores têm que analisar o cenário de preços e fazer movimentos internos para capturar valor. Há dois anos, quando o açúcar estava remunerando 40% mais que o etanol, as usinas tiveram que direcionar os investimentos para a commodity, seja nas fábricas ou nos armazéns.
Agora, a invertida nos preços direciona o capital para o etanol: “Vários grupos ampliam as destilarias e tancagens prevendo um futuro crescimento, colocando esse spread para dentro do balanço”.
Além disso, segundo o analista, a expectativa é que os produtores priorizem a capacidade plena de moagem, o que reduz custos. Eles também devem alocar recursos para novas variedades de cana-de-açúcar e tecnologias que aumentem a longevidade do canavial.
Na outra ponta, Merlotto relata que alguns usineiros estão refazendo os balanços técnicos e adotando iniciativas “que não são tão caras” para melhorar a exportação de energia. Entre elas estão ações que ajudam a exportar mais energia, como o isolamento térmico e a eletrificação de motores para economizar vapor.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana