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[Especial] Alexandre Figliolino, de saída do Itaú BBA, fala sobre seu futuro e o do setor sucroenergético

Alexandre Figliolino de saída do Itaú BBAUma das principais referências do setor sucroenergético se despede do cargo que ocupou por 23 anos, no momento em que as usinas entram em uma curva de recuperação

NovaCana 23 min de leitura

Convidado para atuar como membro de conselho consultivo e administrativo de várias empresas, o executivo agora prepara uma nova etapa da carreira. Ele garante manter o relacionamento com o setor e seu próximo passo será ingressar numa empresa de consultoria.

Em entrevista exclusiva ao portal NovaCana, Figliolino faz o balanço da safra que está terminando, revela qual o patamar de custo das usinas que já estão lucrando e como será o comportamento de retomada do setor no próximo ano.

“Nas nossas contas, metade do setor está bem e em total condição de recuperação já com esse nível de preço atual. São empresas que irão rapidamente se desalavancar, baixar dívidas e, no futuro, realizar novos investimentos”, adianta.

Mas nem todos podem comemorar porque existe uma tendência de “seleção natural”. Esse processo darwiniano deve significar o fim de alguns players e aquisição de ativos pelos grupos melhor posicionados.

Engenheiro agrônomo por formação, Figliolino começou a atuar no setor financeiro em 1984, no extinto Banco Nacional. A parceria com as usinas se iniciou em 1996, no BBA, e desde então ele viu o setor submergir e se reerguer por inúmeras vezes, acumulando conhecimento de quem detém um ponto de vista privilegiado: responde pela maior carteira de sucroenergéticas em um banco privado.

Durante uma conversa de mais de uma hora, Figliolino contou ao NovaCana a tendência de operação das usinas na próxima safra, teceu críticas pesadas ao governo e previu quais são os limitadores e as possibilidade do setor para o futuro próximo.

O diretor também falou sobre sua trajetória com o mercado de cana-de-açúcar, revelou detalhes sobre a saída do Itaú BBA e quem será o seu sucessor no banco.

Agora o executivo prepara uma nova etapa da carreira e garante manter o relacionamento com o setor, trabalhando junto às empresas sucroenergéticas. “Já recebi convite para atuar como membro de conselho consultivo, administrativo, e estou analisando”. Além disso, ele conta que está ingressando em uma empresa de consultoria.

Em entrevista exclusiva ao portal NovaCana, Figliolino faz o balanço da safra que está terminando, revela qual o patamar de custo das usinas que já estão lucrando e como será o comportamento de retomada do setor no próximo ano.

“Nas nossas contas, metade do setor está bem e em total condição de recuperação já com esse nível de preço atual. São empresas que irão rapidamente se desalavancar, baixar dívidas e, no futuro, realizar novos investimentos”, adianta.

“Metade do setor vai rapidamente se desalavancar, baixar dívidas e, no futuro, realizar novos investimentos.”

Mas nem todos podem comemorar porque existe uma tendência de “seleção natural”. Esse processo darwiniano deve significar o fim de alguns players e aquisição de ativos pelos grupos melhor posicionados.

Engenheiro agrônomo por formação, Figliolino começou a atuar no setor financeiro em 1984, no extinto Banco Nacional. A parceria com o as usinas se iniciou em 1996, no BBA, e desde então ele viu o setor submergir e se reerguer inúmeras vezes, acumulando conhecimento de quem detém um ponto de vista privilegiado: responde pela maior carteira de sucroenergéticas em um banco privado.

A diretoria de agronegócios do banco ficará por conta de Antonio Carlos Ortiz, ex-diretor de agronegócios do Rabobank e diretor de clientes rurais do Itaú BBA desde o ano passado. Segundo Figliolino, a expectativa é de que o banco mantenha a mesma política de relacionamento com o setor, atuando de forma anticíclica.

“Atuei sempre segurando um pouco na hora da animação e não sendo tão arredio nas horas de crise. Acho que é exatamente o papel que o banco tem agora, enquanto algumas instituições financeiras simplesmente fecharam a porta para o setor, como se todo mundo fosse igual. Temos empresas de rating A a H”.

Durante uma conversa de mais de uma hora, Figliolino contou ao NovaCana a tendência de operação das usinas na próxima safra, teceu críticas pesadas ao governo e previu quais são os limitadores e as possibilidade do setor para o futuro próximo.

As expectativas para os próximos meses já são um sinalizador. “Tem gente que nem parar vai, apenas para manutenção e vai varar a entressafra moendo, em função da bisada de cana e dos preços muito bons no final da entressafra”, comenta.

Estamos entrando em um momento de mudança de patamar. Há previsão de déficit de açúcar e o etanol, mesmo mais caro, tem consumo acelerado e boa remuneração. Como o senhor enxerga estas mudanças?

Uma série de situações mudaram o patamar do açúcar e etanol: o retorno da Cide, Pis/Cofins, o ICMS de Minas Gerais – que triplicou o consumo no estado –, e o aumento da mistura na gasolina, incrementando a demanda de anidro em 8%. A gente vê o consumo de etanol crescendo até em estados com paridade acima dos 70%. A pessoa vê o tanque encher com menos dinheiro. Isso tem mantido o consumo muito aquecido. Agora deve acontecer um movimento de desaquecimento porque o etanol subiu bastante e a imagino que, em função da crise, de toda restrição de vendas que o brasileiro está sofrendo, existe uma expectativa de queda de consumo de ciclo Otto muito forte agora, após o fim do ano.

A demanda do hidratado só vai encontrar oferta com aumento substancial dos preços. Isso vai provocar uma redução de consumo em função do aumento do custo. Apesar do efeito psicológico, está caro encher o tanque. A pessoa vai gastar R$ 200 abastecer. Compare isso com o salário mínimo. Não é um valor acessível à maior parte da população, ainda mais em uma época de queda de renda brutal e desemprego.

Qual é a sua expectativa em relação ao preço do etanol? Os valores devem subir mais?

Na medida em que muita usina vai retomar – tem gente que nem parar vai, apenas para manutenção e vai varar a entressafra moendo –, e em função da bisada de cana e dos preços muito bons no final da entressafra, existe uma tendência muito grande de todo mundo começar mais cedo.

No início da próxima safra, há evidentemente um movimento, uma ‘barriguinha’ no preço do etanol vai acabar acontecendo. E depois, a medida em que o consumo aumente, lá do meio para o fim da próxima safra, vai se ver novamente um movimento de retomada.

"A retomada nos preços do açúcar, somada à desvalorização do real produziu um efeito fantástico de poder fixar muito acima dos custos de produção."

E o açúcar?

Saímos de quatro anos de superávit e vamos ter um de déficit na safra 15/16 do hemisfério norte. Tenho certeza que o fundo do poço do açúcar aconteceu em um nível um pouco abaixo de 11 cents/libra-peso e evidentemente há tendência de uma valorização. Já mudou de patamar, agora em 14, 15, que a gente sabe que não é remunerador para muitos países que são produtores importantes, então, como o mundo está razoavelmente estocado de açúcar e tem muita gente conseguindo fixar em reais para o ano que vem em níveis bastante atrativos, o açúcar deve operar a prêmio sobre o etanol, estimulando uma safra menos alcooleira do que foi essa [2015/16]. Fazia tempo que não lembrava dos produtores brasileiros entrando tão fixados em uma safra. O motivo é exatamente esse. Com custos de produção em torno de R$ 900, R$ 950 para a tonelada de VHP e uma fixação de R$ 1.350, são margens que há muito tempo o setor não via.

Então uma forçadinha de mão para o açúcar é previsível, o que deve deixar o mercado de etanol mais enxuto ano que vem. Agora vamos ver como é que se comporta a demanda, porque se depender da crise econômica que o Brasil está passando, há uma queda de PIB muito forte este ano, e ano que vem também deve ser igual. Isso com certeza deve refletir no consumo dos combustíveis do ciclo Otto.

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O fator cambial tem sido um bom aliado nas negociações do setor.

Para o agronegócio brasileiro como um todo. No caso do açúcar houve a combinação feliz de uma retomada nos preços, que somada a toda desvalorização do real produziu um efeito fantástico de poder fixar muito acima dos custos de produção. Sempre do ponto de vista da cana própria, que é onde faz sentido fixar com mais agressividade. A conta boa de fazer é: cana própria menos as obrigações com arrendamento.

No caso da fixação em dólar, [a conta é cana própria,] menos o que a empresa tem de vencimentos para o ano que vem, que, teoricamente, o câmbio já foi tomado lá atrás em outros patamares e aí não faz sentido fixar o câmbio duas vezes.

Vamos supor que a empresa não tem dívida em dólar e tem um custo de produção já incorrido em torno de R$ 900, R$ 950 [por tonelada de VHP]. A boa usina tem custos nesse nível. Conseguindo travar em reais com um preço que vai garantir uma margem boa, é prudente que faça. As grandes empresas, com gestão de risco mais bem-feita, não estão dando colher de sopa para o azar e, se esse nível de trava permite um retorno mais que satisfatório aos olhos dos acionistas, o pessoal está mandando bala.

O que pode acontecer é os preços eventualmente terem movimento de mais alta ou, eventualmente, como estamos em uma situação político-econômica instável, desdobramentos absolutamente inusitados, agitando demais os mercados e elevando o dólar a níveis ainda mais altos. Não estamos livres desse risco, não é um cenário que tenhamos como provável, mas é possível. Então, muito cuidado nessa hora. É ano para trabalhar muito bem casadinho.

Isso pode prejudicar o mercado interno de alguma maneira? Há expectativa de crescimento?

O problema é o seguinte: o setor está investindo muito abaixo do que seria o necessário para acompanhar uma expansão de demanda futura. Projetos novos estão absolutamente descartados. Vai precisar de muito tempo de preço bom para voltar a animar alguma empresa, principalmente em greenfield, que é um investimento de maturação super longa e de retorno absolutamente incerto.

O que assistiremos nos próximos tempos é um movimento que começa a ganhar uma certa intensidade no ano que vem. Acho que na medida em que existe uma simetria muito grande da situação de performance operacional das empresas e na questão da situação financeira, existe uma tendência de seleção natural e uma tendência forte das empresas que estão melhor posicionadas buscarem oportunidades de crescimento em ativos que eventualmente possam trazer um ganho de escala com sinergia muito grande. As empresas vão olhar pequenas expansões, algo em termos de crescimento vertical, acabar com gargalos. São investimentos de custo baixo e retorno mais rápido. São tipos de investimentos que deixam suas vantagens extremamente evidentes se a empresa não tiver restrição financeira para tanto.

"Existe uma tendência de seleção natural e uma tendência forte das empresas que estão melhor posicionadas buscarem oportunidades de crescimento em ativos que eventualmente possam trazer um ganho de escala com sinergia muito grande."

Vamos começar a assistir todo mundo olhar para dentro de suas indústrias e as oportunidades de expansão de lavouras e ver onde há chances de crescimento com baixo custo, alto retorno e viabilidade econômica absolutamente inquestionável. É um movimento de ação limitada que não vai, de forma alguma, trazer grandes choques de oferta futura. Não é um negócio que vai inundar. Muito diferente de anos atrás, de inaugurar 20 e tantos greenfields em um ano. São crescimentos bastante tímidos, quase vegetativos, que acompanhem o crescimento vegetativo da demanda.

Mas em função do déficit de oferta interna de combustíveis, o que é necessário para que haja crescimento maior?

Um movimento mais robusto só em um novo governo, após 2018, na medida em que houver vontade política de se criar regras absolutamente claras e confiáveis. As maiores variáveis, sem dúvida, são perguntas que não querem calar: qual o papel do etanol hidratado na matriz de combustíveis líquidos brasileiros daqui para a frente? Qual será o critério que vai direcionar os reajustes de preços dos combustíveis no futuro? Qual o papel da bioeletricidade no futuro? Quais outras alternativas tecnológicas em termos de produtos não convencionais podem eventualmente surgir?

Em janeiro inicia a operação da planta de etanol de milho da Cargill e todo mundo está aguardando para ver como será, porque parece muito promissor. Ao contrário do etanol 2G que até agora não se viabilizou em escala comercial. Então, é isso que a gente tem no horizonte próximo.

"Em janeiro inicia a operação da planta de etanol de milho da Cargill e todo mundo está aguardando para ver como será, porque parece muito promissor. Ao contrário do etanol 2G que até agora não se viabilizou em escala comercial."

Como o governo deve trabalhar para fomentar os biocombustíveis?

Também é uma decisão da sociedade, se está disposta a pagar um pouco mais para consumir combustível limpo, produzido no Brasil, renovável, que gera emprego, que gera renda. Assim como nos EUA se tomou uma decisão em relação ao mandato de mistura do etanol na gasolina, é preciso fazer algo para criar condições que deixem todo mundo confiante.

O nível de proteção para estimular a indústria de etanol no Brasil é infinitamente mais baixo que qualquer outro programa de energia renovável do mundo. Mas tem de ter vontade política de dar esse mínimo suficiente para deixar os agentes razoavelmente confortáveis de que o jogo vai ter uma regra, que será mantida e funcionará, e que nunca mais na vida aparecerá um governo que contrariando toda a lógica econômica destrua a empresa mais importante do país e um setor que tem sido tão importante nos últimos tempos.

Algumas consultorias vêm analisando grandes riscos no Brasil levando em conta, principalmente, necessidade de refinanciamento. O senhor acredita que mesmo em um momento melhor para o setor, usinas continuarão operando no vermelho ou partindo para recuperação judicial?

Nas nossas contas, metade do setor está bem e em total condição de recuperação já com esse nível de preço atual.São empresas que irão rapidamente se desalavancar, baixar dívidas e, no futuro, realizar novos investimentos.

Os outros 50% estão em situação que torna esse aumento insuficiente para sair do buraco. Isso fica muito claro para os bancos. Dá para saber quem é ganhador e quem é derrotado. Estamos em um momento na economia e no mercado financeiro com muitos acontecimentos. Primeiro, um clima de aversão ao risco como poucas vezes vi acontecer. Nesses momentos existe um movimento chamado flight to quality, que é todo mundo procurando as melhores empresas para emprestar dinheiro. Quem está do lado mais confortável, pouco alavancado, não tem dificuldade de encontrar recursos.

"Tem muita empresa que deve mais do que vale, que teria de pagar para sair do negócio."

Agora, as empresas que estão em maior dificuldade e têm um risco grande de refinanciamento pela frente, terão dificuldade enorme de obter, principalmente, recurso novo. O recurso velho, quando o setor hoje já opera com margens bem positivas, não é interesse para nenhum credor matar a galinha dos ovos de ouro. Agora, vai renovando o que vai vencendo, mas não bota dinheiro novo. Muitas empresas estão na situação de diminuir dívida, porque quando vê a necessidade de capex, investimento de manutenção, o recurso necessário para fazer o serviço da dívida, tem uma quantidade grande para rolar. Fica naquela situação de que quem está dentro não sai e quem está fora não entra.

É uma situação irreversível para muita gente?

Em condições de mercado, é. Isso olhando a situação como está posta hoje. Amanhã os preços podem ter uma melhora ainda maior, outros capitais começarem a entrar no setor, acontecer novamente uma valorização dos ativos e as coisas começarem a mudar um pouco de figura.

Agora, com certeza, hoje, dependendo das características de cada um, tem muita empresa que deve mais do que vale, o que é uma situação complicada, porque teria de pagar para sair do negócio.

E o que podemos esperar para o ano que vem?

Vai ser um ano mais positivo. Isso já se vê atualmente. O humor mudou. Muita gente já está mais animada. A gente viveu um período de muita descrença, desânimo. Nesse mar de crise que estamos vivendo, o setor com certeza vai ser uma ilha de prosperidade porque produz coisas que são absolutamente essenciais. Então a tendência é que o consumo de açúcar e etanol mantenha a elasticidade de outros tipos de bens. Com o câmbio ajudando e o setor exportando uma boa quantidade do ATR que produz, acho que será bastante positivo.

Como sua relação com o setor teve início?

É muito antiga. Estou em banco desde 1984. Foi naquela época que surgiram as primeiras tentativas de geração de energia com bagaço. Inclusive, fiz várias visitas ao BNDES e dei a ideia de melhorar a eficiência energética das usinas, de forma que tivessem disponibilidade maior de vapor para produção de energia e energia para exportação. Mas a atuação mais intensa começou em 1996 quando fui alçado ao cargo de diretor para o interior de São Paulo do banco BBA.

Por ser engenheiro agrônomo de formação, procurei dar uma enviesada na atuação do banco voltando para o setor de açúcar e etanol e de frigoríficos, que estava crescendo bastante. Depois de 2003 com o advento do carro flex, o setor passou a apresentar um crescimento muito vigoroso e a gente centrou bastante nossa atuação nesse segmento.

Nesse tempo o senhor deve ter visto grandes mudanças. Na sua opinião, quais foram as que mais impactaram o setor?

No final dos anos 1990, o setor estava em uma situação bastante complicada. O carro a álcool estava completamente desacreditado, o setor carregava um estoque monstruoso de etanol e o açúcar experimentou seu ponto mais baixo. Lembro que no dia 30 de abril de 2000, o açúcar estava cotado em Nova Iorque a 3,92 cents/lb. A gente não via fundo do poço. No mesmo ano, houve uma seca forte em SP e uma geada que atingiu algumas regiões produtoras. Então no segundo semestre de 2000, pelo menos o açúcar passou a ter preços mais remuneradores. Lembro que rapidamente começou a subir e foi bater quase 12 cents/lb.

Em 2003, o carro flex foi seguramente uma quebra de paradigmas. Marcou para valer o setor e mudou completamente a perspectiva, porque se tinha um etanol extremamente competitivo em relação à gasolina. O etanol custava cerca de R$ 1 por litro na usina, e o custo de produção era abaixo de R$ 0,45. Foi aí que o setor experimentou um ciclo vigoroso de crescimento. E nós participamos de vários projetos. Foi um período bastante rico.

Quando houve a crise, em 2008, e pegou o setor em um momento e um ritmo de investimento bastante acelerado, não virou uma crise sistêmica, porque havia quantidades enormes de capitais de fora do setor e de excelente qualidade querendo entrar. Mas aí, veio esse governo e destruiu o setor. Manteve o preço da gasolina congelada por quatro anos. Zerou a Cide em uma puxada de tapete fenomenal.

"Se aparecesse um louco que quisesse banir o setor de açúcar e etanol do planeta por algum motivo, não teria conseguido ser tão competente como esse governo foi, que é realmente uma máquina de destruição."

O petróleo é uma commodity que tem seus ciclos e passa por momentos de preço muito baixo, como agora, e o setor precisa de proteção para pode conviver com esses momentos, se não o etanol perde completamente a competitividade. Se há combinação de petróleo baixo com real valorizado, cria uma situação que pode, de repente, inviabilizar o setor como um todo. Uma proteção tem que acontecer. Mas, além de não ter protegido, tirou a proteção que tinha, que eram os R$ 0,28 da Cide, e manteve o preço da gasolina congelado por 4 anos.

Eu costumo dizer que se aparecesse um louco que quisesse banir o setor de açúcar e etanol do planeta por algum motivo, não teria conseguido ser tão competente como esse governo foi, que é realmente uma máquina de destruição.

E como o segmento e a relação com os bancos evoluíram nesse tempo?

Os bancos, de forma geral, estão sempre buscando boas oportunidades. Uma das principais fontes de sobrevivência dos bancos é o spread que cobram para emprestar dinheiro. Então, buscar bons ativos de crédito é a obrigação de toda instituição financeira. O setor, nos últimos 20 anos, tem evoluído muito nas questões de formalização, transparência. Hoje quase a totalidade das empresas são auditadas por auditorias de primeira linha, se apresentam melhor, têm controles. Hoje o agronegócio está muito bem estruturado do ponto de vista formal. Não é amplo, geral e irrestrito, mas grande parte das empresas já criou as bases para crescer de forma sustentável, têm uma boa gestão de risco.

Acho que o setor hoje tem uma cara perante às instituições financeiras infinitamente melhor do que no passado, quando o usineiro era até algo pejorativo dada a imagem que o setor tinha diante da opinião pública. Usina lembrava queimada, tomada de recursos subsidiados em bancos estatais, calotes, e essa imagem está muito longe. Lembrava condições de trabalho impensáveis. Hoje o setor está avançado, mecanização entrou com tudo, automação, tecnologia, e realmente, em muitos aspectos, o setor dá um show de competência, sustentabilidade, uma série de coisas. Acho que a imagem do setor mudou bastante de vários anos para cá.

Qual foi seu principal feito junto ao setor?

De forma geral, o que me deixou mais feliz foram aquelas passagens que mostraram o quanto eu gosto do setor. Mesmo nos momentos de maior vigilância do governo em relação a qualquer tipo de declaração. As críticas não eram bem recebidas e até mal-entendidas, não se imaginava que se apontávamos certos movimentos era porque existiam e tinham de ser solucionados.

Eu sempre tive coragem de falar o que penso no intuito de construir. Essa honestidade de pensamento nem sempre é o que querem ouvir, mas nunca me preocupei com o que queriam ouvir e sim em falar a verdade. Essa é seguramente minha maior qualidade e contribuição ao setor nos últimos anos.

Uma situação que me marcou muito foi a crise de 2008, que refletiu em 2009 com muitas usinas em situação muito difícil porque estavam em ciclo de crescimento acelerado e tomaram a pancada do dólar. Algumas até se prejudicaram bastante com derivativos tóxicos que o sistema financeiro impôs goela abaixo. Acabou a saída acontecendo com entrada de capitais novos no setor, algumas empresas com reestruturação de dívidas e, à medida em que o mercado de açúcar melhorou, acabaram gerando caixa e saindo da situação de dificuldade rapidamente.

“Atuei sempre de forma anticíclica, segurando um pouco na hora da animação e não sendo tão arredio nas horas de crise.”

Naquele momento – e acho que o BNDES teve uma atuação de coordenador muito importante – procurei ajudar bastante. Vários outros bancos que também tinham grande significância no setor participaram das reuniões. Foi uma atuação coordenada que evitou muita coisa ruim, deu tempo às operações de fusões e aquisições, de as empresas que estavam apertadas se desapertarem. Ficou muito pouco prejuízo para o sistema financeiro e pouca empresa fechada naquele momento.

Como o senhor analisa sua atuação nos anos de Itaú BBA?

Meu poder de atuação é muito limitado. Quisera eu ter a caneta da presidente da república ou do presidente do Congresso. Minha atuação foi marcada muito por uma somatória de pequenas coisas e que no conjunto da obra acabou tendo um certo destaque dado o comprometimento e cumplicidade que sempre demonstrei para o setor.

Nas vacas gordas, até sendo um pouco contra ciclo, pedindo calma e, nas vacas magras, realmente tendo uma certa parceria de não agir de uma forma destemperada e tentando sair dos créditos de uma forma atabalhoada. Atuei sempre de forma anticíclica, segurando um pouco na hora da animação e pisando um pouco mais, não sendo tão arredio nas horas de crise. Acho que é exatamente o papel que o banco tem agora, enquanto umas instituições financeiras simplesmente fecharam a porta para o setor, como se todo mundo fosse igual. Temos empresas de rating A a H.

A gente tem o papel de saber quais são aquelas empresas suficientemente resilientes para atravessar os ciclos de altos e baixos, que são absolutamente normais em qualquer área da economia. Muita gente que considerávamos resiliente à crise chegou a passar razoavelmente apertada esses tempos. Errar, sempre vai errar, mas é errar o menos possível.

Com spread por volta de 2%, 3% ao ano, tem de acertar no mínimo umas 35 vezes mais do que erra para empatar. É um jogo um pouco perigoso. Um crédito que se perca R$ 100, com spread de 3%, precisa de mais de 33 créditos iguais para recuperar o prejuízo de um que emprestou errado. É uma atividade que exige muito cuidado, muita análise, muito aprofundamento.

Como está sendo esse momento de transição com a saída do banco?

Estou com 56 anos, inclusive, por tempo de serviço já estou apto a me aposentar. Mas minha intenção, ao contrário disso é, agora fora do banco, passar a ter uma atuação ainda mais forte no agronegócio como um todo e principalmente no sucroenergético, que é uma relação de paixão minha com o setor. Vou desenvolver diversas atividades fora do Itaú BBA que vão me fazer estar em permanentemente contato com todos os agentes. Então estarei mais ativo que nunca e pretendo continuar tendo uma atuação, se possível, ainda mais relevante.

"Não vou inventar a roda. Vou atuar com uma empresa que já está no mercado."

Vou trabalhar em uma empresa de consultoria sem o peso do nome Itaú. Por outro lado, se eu já era desprendido para abordar uma série de temas, mas às vezes, como estava identificado como Alexandre do Itaú, não queria expor o banco a alguma situação de desconforto por causa de algo que falei. Se eu tinha alguma papinha na língua, agora posso abordar com toda liberdade porque não existe mais esse medo de prejudicar a instituição por algum comentário que seja mal visto por algum poderoso de plantão não muito aberto às críticas.

O senhor vai atuar com uma empresa própria ou em alguma já existente?

Não vou inventar a roda, não. Vou atuar com uma empresa que já está no mercado. Apenas como ainda não fechamos todos os detalhes, prefiro manter em reserva.

E o que o levou a deixar o Itaú?

Acho que o banco está fazendo alguns movimentos importantes, até para adaptar a instituição aos tempos e, dentro disso, acabou coincidindo o interesse de eu sair e o deles de não mais me manter, pelo menos em tempo integral.

Estão sendo feitas várias reduções. Em nível de diretoria eu não fui o único que saiu, o banco está indo para um modelo mais enxuto na diretoria de atacado. Tenho muito orgulho e não me arrependo de nenhum tempo que trabalhei aqui. Se contar o tempo de BBA mais Itaú BBA, são 23 anos muito felizes, que me satisfizeram demais da conta.

O senhor recebeu algum convite para atuar em algum grupo?

Como executivo não, mas como membro de conselho consultivo, administrativo, já recebi, estou analisando, e é uma das coisas que eu realmente vou me ocupar em fazer durante os próximos anos; poder estar ajudando de forma individual algumas empresas que tenham interesse em me ter como conselheiro, seja em conselho consultivo, de administração, ou apenas como consultor. É o tipo de trabalho ao qual eu estou me propondo daqui para frente.

Reportagem: Jorge Mariano

Edição: Amanda SchArr

Design: Paola Soto

Programação: Juliano Rossetto

Coordenação: Julio Cesar Vedana

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