Analistas do Pecege Consultoria e Projetos traçaram um panorama completo do mercado de insumos, incluindo projeções e estratégias de compra
Para garantir uma produção de qualidade no setor sucroenergético, é essencial fazer investimentos no canavial. Os insumos – principalmente fertilizantes, herbicidas e inseticidas – podem fazer uma grande diferença para a produtividade e a qualidade da matéria-prima.
Desta forma, estes itens abrangem uma parcela considerável nos custos das usinas. Pensando nisto, o evento Expedição Custos Cana, organizado pelo Pecege Consultorias e Projetos, teve uma edição focada no panorama do mercado de insumos, que tem passado por oscilações nas últimas temporadas, afetando diretamente as usinas.
Os dados apresentados pelo Pecege têm como base 45 grupos econômicos, que totalizam 89 unidades agroindustriais. Esta amostra corresponde a um processamento médio de 215 milhões de toneladas, cerca de 40% da moagem do Centro-Sul.
Durante o evento, a analista de custos Ana Carolina França falou sobre o histórico do mercado de insumos. Ela afirmou que, no ciclo 2021/22, além dos problemas vistos pelas intempéries climáticas que levaram a uma quebra na produção, foi registrada uma tendência de alta nestes produtos. Segundo a analista, a falta de cana e alguns efeitos da pandemia de covid-19 foram responsáveis pela elevação.
Essa tendência foi agravada na safra seguinte, com um câmbio desvalorizado e o conflito entre Rússia e Ucrânia. “[Esses fatores] fizeram com que os insumos, em especial fertilizantes e diesel, alcançassem patamares [de preço] altíssimos”, relata França.
Na sequência, o analista de insumos Danilo Menegatti trouxe projeções, divididas por classes de insumos, enquanto o analista de custos Gabriel Casarotti apresentou estratégia de aquisição para o mercado de insumos agroindustriais.
Confira no texto completo, exclusivo para assinantes NovaCana, detalhes sobre a participação dos insumos nos custos de produção, assim como perspectivas e projeções para a safra 2023/24.
Para garantir uma produção de qualidade no setor sucroenergético, é essencial fazer investimentos no canavial. Os insumos – principalmente fertilizantes, herbicidas e inseticidas – podem fazer uma grande diferença para a produtividade e a qualidade da matéria-prima.
Desta forma, estes itens abrangem uma parcela considerável nos custos das usinas. Pensando nisto, o evento Expedição Custos Cana, organizado pelo Pecege Consultorias e Projetos, teve uma edição focada no panorama do mercado de insumos, que tem passado por oscilações nas últimas temporadas, afetando diretamente as usinas.
Os dados apresentados pelo Pecege têm como base 45 grupos econômicos, que totalizam 89 unidades agroindustriais. Esta amostra corresponde a um processamento médio de 215 milhões de toneladas, cerca de 40% da moagem do Centro-Sul.
Durante o evento, a analista de custos Ana Carolina França falou sobre o histórico do mercado de insumos. Ela afirmou que, no ciclo 2021/22, além dos problemas vistos pelas intempéries climáticas que levaram a uma quebra na produção, foi registrada uma tendência de alta nestes produtos. Segundo a analista, a falta de cana e alguns efeitos da pandemia de covid-19 foram responsáveis pela elevação.
Essa tendência foi agravada na safra seguinte, com um câmbio desvalorizado e o conflito entre Rússia e Ucrânia. “[Esses fatores] fizeram com que os insumos, em especial fertilizantes e diesel, alcançassem patamares [de preço] altíssimos”, relata França.
Cenário de custos em 2023/24
Em relação ao primeiro trimestre da temporada atual, França aponta que o custo-caixa das sucroenergéticas apresentou um aumento na casa de 3% em reais por hectare em relação a 2022/23. Entretanto, há quedas de 19% quando se observa o resultado em reais por toneladas e de 11% em reais por quilo de Açúcar Total Recuperável (ATR).
Segundo ela, as usinas registraram uma redução de 5% nos gastos com formação do canavial, totalizando R$ 15.832/ha, e ainda um decréscimo de 14% nos tratos de cana soca, para R$ 3.395/ha. O CTT, por sua vez, ficou em R$ 41,60 por tonelada, retração de 11%.
Em contrapartida, os gastos com arrendamentos tiveram uma alta de 9%, para R$ 2.533/ha.

De acordo com as mais recentes projeções do Pecege, o preço da matéria-prima – que também influencia os gastos com arrendamentos – foi de R$ 1,2508 por quilo de ATR, na base do Conselho dos Produtores de Cana-de-açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP). O valor supera em 7% os R$ 1,17/kg vistos na temporada passada.
Um dos fatores que contribuiu para a melhoria dos resultados é a maior produtividade dos canaviais, que subiu 26% entre os dois ciclos, chegando a 95,3 t/ha. Segundo França, isso aconteceu porque o início da safra 2023/24 vivenciou um clima mais favorável, que contribuiu para o bom desenvolvimento da cana, que também está mais jovem.
Até o final do ciclo, o Pecege espera um cenário positivo, com custos em queda, produtividade em alta e a matéria-prima em patamares mais elevados. “Os preços do açúcar, fortalecidos no mercado externo, vem sustentando nossas últimas projeções”, afirma a analista.
Os insumos na safra 2022/23
Dentro dos elementos que compõe o custo-caixa de uma sucroenergética, os insumos são responsáveis por cerca de 30% do total. Ou seja, de R$ 12.734 por hectare de dispêndios da safra 2022/23, R$ 3.764/ha foram gastos nesta categoria.
Deste montante, 49,2%, ou R$ 1.852,20/ha, correspondem aos fertilizantes. Os herbicidas vêm logo atrás, custando R$ 660,20/ha, o que representa 17,5% do total. As mudas, por sua vez, foram responsáveis por 13,2% dos gastos com insumos, totalizando R$ 497,40/ha.
Também foram contabilizados pela consultoria: inseticidas (R$ 323,20/ha); corretivos (R$ 267,40/ha), maturadores (R$ 43,60/ha); nematicidas (R$ 21,90/ha); fungicidas (R$ 22,40/ha); controle biológico (R$ 13,50/ha); inibidores (R$ 9,90/ha); e outros insumos (R$ 52,80/ha).

Analisando a representatividade dos insumos dentro das etapas do sistema produtivo, França aponta que, na formação do canavial, os dispêndios são de R$ 8.479,80/ha. Este valor representa mais da metade do custo total, de R$ 16.742,50/ha.
Dentro destes insumos, 35% correspondem a mudas; 32%, fertilizantes; e 20%, defensivos agrícolas.
Indo além dos insumos, também compõe os gastos na fase de formação do canavial: maquinários (R$ 6.221,30/ha); mão-de-obra (R$ 841,10/ha); administrativo (R$ 766,90/ha); e irrigação ou fertirrigação (R$ 431,50/ha).
Já nos tratos de cana soca, os custos totais de R$ 3.947,50/ha incluem R$ 2.329,70/ha com insumos. Neste caso, 60% do valor é composto por fertilizantes e 32% com defensivos.

Por fim, nos custos relacionados a corte, transbordo e transporte (CTT) – que totalizam R$ 46,90 por tonelada –, o transporte da cana equivale a R$ 15/t, ficando atrás apenas do corte, que totalizou R$ 15,30/t.
Dentro dos gastos com a movimentação da matéria-prima, o diesel representou 35% do total. O combustível fóssil foi um dos integrantes de custo caixa que mais sofreu oscilações de preço na temporada passada, influenciando os dispêndios do setor.
Histórico do mercado de insumos
No evento, o analista de insumos do Pecege, Danilo Menegatti, trouxe um panorama dos últimos três anos no mercado de insumos. Segundo ele, o período trouxe um choque de oferta nos principais itens adquiridos pelo setor sucroenergético, além de condições de mercado atípicas.
Ele aponta que, desde 2012, as importações de fertilizantes seguiam um padrão de sazonalidade bem definida. A partir de 2021, apesar do volume ter permanecido dentro da média, o custo começou a apresentar altas.
Entre os fatores que formam os preços dos insumos, Menegatti cita o câmbio, que subiu no período da pandemia de covid-19 e acabou se estabilizando em R$ 5 por dólar. Outro aspecto foi o encarecimento do processo de produção dos insumos agrícolas, afetados principalmente pelas altas vistas no petróleo e no gás natural.
No caso dos herbicidas, o analista explica que houve uma oscilação nos preços, mas que a safra 2023/24 vem apresentando reduções. O glifosato foi um dos que mais subiu, saindo de uma média de entre R$ 15 e R$ 20 por litro para quase R$ 70/L em meados de 2022.
O defensivo, aliás, representou 57% dos dispêndios financeiros na temporada passada. No início de 2022, a aquisição de 100 litros de glifosato seria equivalente ao processamento de 60 toneladas. Atualmente, o comparativo caiu para 18 toneladas de cana para o mesmo volume do produto.
Além disso, o analista observa que 50% dos herbicidas importados pelo Brasil vieram da China. Ou seja, fatores externos que possam afetar essa cadeia produtiva consequentemente irão atingir as compras brasileiras.
A compra dos inseticidas, por sua vez, se concentra em períodos mais chuvosos e com maiores infestações de pragas. A maior parte destes produtos vêm dos Estados Unidos (28%) e da Índia (26%) e eles representaram 24% dos custos de produção em 2022/23.
Os principais fertilizantes utilizados pelas sucroenergéticas – ureia, fosfato monoamônico (MAP) e cloreto de potássio (KCL) – custaram entre R$ 5 mil e R$ 7 mil por tonelada no início do ano passado.
Menegatti explica que, ainda assim, os produtores preferiram manter as compras, entendendo que a falta destes produtos poderia comprometer a produção. Desta forma, os estoques formados foram essenciais para a queda que esses insumos começaram a vivenciar nos últimos meses.
Os fertilizantes representaram uma fatia de 53% dos dispêndios do setor. No caso do MAP, atualmente são necessárias 21 toneladas de cana para uma tonelada do insumo. A Rússia é o principal fornecedor dos nitrogenados e potássicos, enquanto 33% dos fosfatados vieram do Egito.
Mercado de insumos em 2023/24
A partir de indexadores de preço, como valores de petróleo, câmbio, commodities alimentícias e gás natural, o Pecege Consultoria e Projetos definiu alguns números para o mercado de insumos. “Se conseguimos projetar estas quatro variáveis, conseguimos prever grande parte do comportamento dos insumos”, explica Menegatti.
A consultoria espera que, até o final do ano, aconteça uma redução de 13,8% no preço médio dos insumos. Considerando um médio prazo, entretanto, pode haver um novo crescimento no índice, motivado pelo câmbio e por herbicidas mais representativos, como glifosato e tebuthiuron, que podem puxar a projeção de defensivos para cima. Por outro lado, mesmo com o acréscimo, os valores podem se manter abaixo dos registrados nos últimos anos.
Na classe de fertilizantes, a projeção para a ureia é de que os preços voltem aos patamares vistos em 2020. O Pecege acredita que podem ocorrer alguns aumentos no curto prazo, decorrentes da sazonalidade das matérias-primas, como o gás natural.
O MAP, por sua vez, apresenta um cenário mais estável e pode se estabilizar a um patamar mais elevado. O analista do Pecege, entretanto, afirma que os aumentos recentes em sua cotação não devem se manter devido aos atuais estoques do produto.
Em um movimento contrário, o KCL deve ter, a princípio, uma queda nos preços, mas uma estabilidade a médio prazo. Segundo a consultoria, a retração é motivada pela armazenagem nacional do fertilizante, enquanto fatores externos, como expansão das negociações com a Bielorrússia, corroboram com a tendência de queda.
Por fim, para o diesel é esperada uma queda de 39,2% até o fechamento de 2023. Neste caso, o combustível considerado para a análise do Pecege é livre de impostos, sem levar em conta alterações internas. Desta forma, o insumo deve manter certa estabilidade. Ainda assim, a mudança na política de precificação da Petrobras pode resultar em oscilações artificiais.
Efeitos da falta de insumos no canavial
França observa que boa parte das usinas consultadas pelo Pecege realiza as compras de insumos no período de entressafra. Segundo ela, entre os ciclos 2021/22 e 2022/23, houve uma escalada nos preços dos fertilizantes, em especial o NPK, com o diesel também apresentando uma tendência de alta.
Para evitar um impacto no caixa, a analista aponta que uma das soluções encontradas foi a redução de doses, com algumas empresas adotando até mesmo cortes na aplicação de fertilizantes e herbicidas. Ela ressalta, entretanto, que esta estratégia não é recomendada, explicando que a falta desses nutrientes pode afetar diretamente a qualidade da cana-de-açúcar e sua produtividade.
Com ausência de nitrogênio, há um atraso no desenvolvimento vegetativo. Sem fósforo, a cana pode apresentar colmos menores e ainda reduzir seu perfilhamento. Já uma diminuição no potássio pode ocasionar uma necrose precoce das folhas e um afinamento da nervura da planta.
Além disso, explica França, a falta de defensivos, como os inseticidas, pode aumentar em 1% a intensidade de infestação da broca, o que resultaria em perdas de até 616 quilos de cana por hectare, ou aproximadamente 28 kg de açúcar e 16 litros de etanol, em um canavial com uma produtividade média de 80 toneladas por hectare, segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Uma infestação de cigarrinha, aponta a analista, poderia causar uma perda de 11% na produtividade agrícola do canavial, o equivalente a uma diminuição de 1,5% na fabricação do adoçante e do biocombustível. Além disso, França também destaca que a falta de herbicidas pode acarretar perdas de produtividade de entre 20% e 30% na cana soca e de 15% a 20% na cana planta.
Por esta razão, a analista do Pecege enfatiza que custos de produção não devem ser cortados, mas sim gerenciados.
Estratégias de compra de insumos
Para os herbicidas, o analista de custos do Pecege Consultoria e Projetos, Gabriel Casarotti, define que este é um momento de ampla concorrência, com projeção de leves aumentos de preço até o final deste ano, embora ainda que os valores sigam mais baixos do que os vistos anteriormente. “Este é um momento para aproveitar as vendas diretas, com menores preços e melhores prazos de negociação”, enfatiza.
No caso dos fertilizantes, ele aponta que o pico de comercialização deve se formar ao final do ano. O KCL tem uma tendência de queda nos preços, enquanto a ureia deve ter uma alta nos últimos meses de 2023.
“Só puxamos 30% do volume de ureia visto em 2021 e estamos com estoques comprometidos às vésperas de um aumento”, alerta o analista, que completa: “A guerra no leste europeu e outras interferências internacionais fazem com que os estoques e o fornecimento de nitrogenados venha sendo prejudicado”.
Casarotti também afirma que, como estratégia de aquisição, é interessante que os produtores pesquisem contratos para 2024.
Já os preços do diesel ainda têm muita imprevisibilidade. O analista cita os cortes de exportação da Rússia, os reajustes da Petrobras e a defasagem do preço do combustível entre os mercados interno e externo. Ele afirma que, para este insumo, é importante contar com estratégias de antecipação de compras, na tentativa de evitar as flutuações.
Com a alta do petróleo brent, Casarotti afirma que é muito provável que a Petrobras volte a reajustar os preços do diesel: “Se possível, seria interessante trazer mais produto”. Ele aponta ainda que não é viável fazer estoques do combustível por muito tempo, mas que seria importante aumentar o volume adquirido antes da provável alta.
Em caso contrário, de tendência de queda nos valores do brent, ele afirma que a melhor opção seria postergar as compras, aproveitando o momento de redução nos preços do diesel.
Fundamentos dos preços
O analista de custos do Pecege também apresentou alguns fatores que podem levar a oscilações nos preços dos insumos. O primeiro deles é a diferença entre o real e o dólar.
A variação no câmbio, explica, interfere no preço final, afinal, quase todos os insumos são importados e precificados na moeda estrangeira. De acordo com as projeções da consultoria, o dólar – que, em setembro deste ano, chegou a R$ 4,91 – poderá alcançar R$ 4,99 ao final da safra, em março de 2024.
Este seria, segundo o analista, um período crítico por conta dos términos de contratos vinculados a 2023 e do fechamento de orçamentos para 2024. Assim, há uma margem para aumento de custos de insumos nos próximos contratos.
Em relação ao volume comercializado, os herbicidas costumavam manter um nível de sazonalidade, mas essa tendência foi quebrada a partir de 2021, com os produtores aumentando os níveis de estoques. Entre novembro de 2022 e junho de 2023, conforme explica o analista, a quantia importada ficou abaixo da média. Com isso, o prazo de pagamento destes insumos está sendo alongado e taxas de juros ficaram mais em conta, afirma o analista.
Observando os níveis adquiridos, Casarotti ressalta que as sucroenergéticas mais que dobraram suas compras entre 2021 e 2022. Até agosto de 2023, entretanto, apenas o equivalente a 70% do total visto em 2021 foi adquirido.
“Foi uma queda generalizada, então, um mercado inteiro terá que voltar a comprar herbicidas em algum momento”, aponta Casarotti, que completa: “E, com uma alta demanda, normalmente temos um aumento dos preços”.
De acordo com o analista, os fertilizantes vivenciaram um movimento semelhante aos herbicidas. Ou seja, mesmo com valores elevados, as usinas continuaram adquirindo o produto por medo de ocorrer um desabastecimento. Ele lembra que, em 2022, realmente houve uma falta de fertilizantes no mercado; quando as compras retornam, em 2023, os preços já estão mais baixos.
Também usando como base o volume de fertilizantes importados em 2021, até agosto deste ano já foram adquiridos: 35% dos nitrogenados; 66% do MAP; e 68% dos potássicos.
Assim, o analista do Pecege alerta que, em algum momento, o volume de nitrogenados deverá aumentar: “Terá que ser uma grande quantidade e em um momento conjunto, fazendo com que haja uma alta concorrência no mercado”.
Isso já reflete, segundo Casarotti, os prazos de pagamentos para os fertilizantes, que estão atualmente sendo negociados à vista ou em até trinta dias. Segundo ele, em 2022, os prazos eram mais longos pela garantia dos estoques.
Giully Regina – NovaCana