Sob o crivo dos fundamentos globais para o comércio internacional de açúcar, o banco holandês Rabobank publicou suas perspectivas de preço para o mercado futuro
Sob o crivo dos fundamentos globais para o comércio internacional de açúcar, o banco holandês Rabobank publicou suas perspectivas de preço para o mercado futuro.
Com uma temporada mundial suscetível a flutuações, a instituição analisa quais são os fatores que podem levar as cotações desse produto para alto ou para baixo no decorrer da safra global. As perspectivas de déficit mundial de açúcar mantêm as projeções favoráveis aos bons preços para o mercado internacional da commodity.
Além disso, o banco analisa os cenários que podem influenciar a safra no Brasil. Além das questões climáticas, o adoçante nacional pode sofrer impacto das condições de infraestrutura do país, variação do câmbio, assim como da vulnerabilidade das companhias ao cenário macroeconômico.
Confira a seguir as principais análises do Rabobank para esse mercado.
Sob o crivo dos fundamentos globais para o mercado de açúcar, o banco holandês Rabobank considera o valor de 18 centavos de dólar por libra-peso como “perfeitamente razoável” para os futuros do adoçante. O principal argumento é a previsão de déficit de 8,5 milhões de toneladas na safra global de 2015/16 (outubro a setembro), seguido por outro saldo negativo de 5,5 milhões de toneladas da commodity na temporada mundial de 2016/17.
Na análise, o banco não ignora o fato de que, no início de junho, os preços já chegaram a se aproximar dos 20 cents/lb. Embora admita a possibilidade de que o modelo de cálculo adotado esteja errado ou incompleto, a instituição parece convencida de que a especulação é a responsável pelo pico nos preços. “Outra alternativa é que o sentimento esteja a frente dos fundamentos, tanto se antecipando a eles quanto se sobrepondo – e isso não seria a primeira vez”, afirma o Rabobank no seu último relatório trimestral sobre o mercado de açúcar.
O banco ainda ressalta que a expectativa de déficit para a temporada mundial de 2016/17 está suscetível a flutuações. “Nossa atual projeção global de produção é de 180,6 milhões de toneladas. Assim, se revisarmos nossa projeção de produção em 3% para cima, o déficit projetado iria desaparecer; mas se revisarmos em 3% para baixo, o déficit iria dobrar”, completa.

Isso se torna ainda mais relevante quando é observado que a safra do Centro-Sul do Brasil ainda tem seis meses pela frente, enquanto a temporada 2016/17 ainda não se iniciou a nível global. Para importantes produtores, como Índia, Tailândia e China, a próxima temporada só irá começar em outubro desse ano.
Fatores de alta e baixa dos preços
Segundo o Rabobank, a influência do clima no desenvolvimento das lavouras será observada atentamente pelo mercado nos próximos meses. Caso as chuvas continuem na região Centro-Sul, atrapalhando a colheita, os preços do açúcar podem subir ainda mais.
Outro fator com efeito altista está relacionado com o alto volume de grãos para a exportação no Brasil, que está sendo encorajado recentemente pela alta dos preços. Existe a preocupação de que isso pode atrapalhar a logística das estradas, ferrovias e portos, prejudicando o envio de açúcar e impactando ainda mais na cotação da commodity.
Ao mesmo tempo, o banco alerta para a posição delicada de muitas empresas em relação às volatilidades do mercado. “Acreditamos que os atuais valores recordes dos fundos no longo prazo deixem o mercado de açúcar mais vulnerável para qualquer tipo de choque macroeconômico que pode amargar o sentimento geral com relação às commodities”, argumenta. Ou seja, os preços podem não responder bem a possíveis pressões para a venda.
Além disso, mudanças cambiais também podem ter um efeito baixista. O Rabobank prevê um aumento das taxas nos Estados Unidos no terceiro trimestre de 2016, o que pode fortalecer a moeda e afetar as commodities cujo preço depende do impacto do dólar sobre outras moedas – justamente o caso do açúcar.
Perspectivas para a produção brasileira de açúcar
Com relação aos resultados da safra 2016/17 no Centro-Sul, o Rabobank analisa de forma positiva os dados quinzenais apresentados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).
O banco destaca que a produção de açúcar até a primeira quinzena de maio foi de 5,3 milhões de toneladas, o dobro das 2,7 milhões de toneladas produzidas no mesmo período da safra passada. “Essa grande diferença na performance foi possível por uma combinação do começo adiantado da temporada somado ao clima seco em abril e nos primeiros dias de maio”, explica.

A partir dos dados atuais e das expectativas de valores para açúcar e etanol, além das taxas de câmbio, a instituição reafirma que a produção de açúcar é mais atrativa do que a de etanol para as usinas. Assim, a expectativa é que as companhias maximizem a fabricação de açúcar nessa temporada.
“O que isso irá significar em termos de produção varia dependendo das estimativas de cana moída, da qualidade da cana, da extensão de quantos produtores menores ainda precisarão se focar no etanol para manter a liquidez financeira e da capacidade instalada da indústria”, enumera o Rabobank.

Consciente de que as atuais projeções para a produção de açúcar variam entre 34 milhões de toneladas e 36,4 milhões de toneladas, o Rabobank estima que a produção de açúcar em 2016/17 no Centro-Sul atinja 34,6 milhões de toneladas – um valor levemente acima da média de 34,4 milhões de toneladas, calculada com base em um levantamento de projeções feito pelo NovaCana.

“Acreditamos que as condições apertadas de crédito dos últimos anos, associadas à deterioração da economia brasileira, devem prevenir que usinas mais fracas maximizem suas produções de açúcar, mesmo com a vantagem na comparação com o etanol”, justifica o banco, que continua: “Como foi o caso no ano passado, a manutenção da liquidez financeira é a prioridade para essas companhias”.
O relatório do banco acrescenta que o bom começo da safra foi freado por influência do clima. A segunda metade de maio e os primeiros dias de junho trouxeram chuvas acima da média em muitas importantes regiões produtoras de cana-de-açúcar. “No curto prazo, isso desacelerou o progresso das operações no campo, na produção e na exportação, dando um combustível adicional para a propulsão dos preços em Nova York com base em julho”, argumenta.
Ao mesmo tempo, as chuvas trouxeram consequências para as perspectivas de longo prazo. De acordo com o Rabobank, existia a preocupação de que o tempo seco fosse resultante do fenômeno La Niña, o que poderia reduzir a produção de cana na safra 2016/17 e limitar o potencial para a colheita em 2017/18. “Por enquanto, essas preocupações foram acalmadas”, assegura.
Renata Bossle – NovaCana