Em levantamento abrangente sobre as variedades que dominam os canaviais brasileiros, o IAC levantou as opções escolhidas por 217 usinas sucroalcooleiras da região Centro-Sul durante a safra 2016/17
Renovação dos canaviais no Brasil atinge o segundo pior índice da história, pior só em 1999.
Região de Ribeirão Preto está com um dos canaviais mais velhos do Brasil.
Variedade de cana mais plantada no Brasil tem baixa performance com a mecanização, mas segue dominando.
NovaCana — 06/12/2016
Em um dos levantamentos mais abrangentes sobre as variedades que dominam os canaviais brasileiros, o Instituto Agronômico (IAC) levantou as opções escolhidas por 217 usinas sucroalcooleiras da região Centro-Sul durante a safra 2016/17.
O estudo é resultado do mapeamento de uma área plantada com cana alcançando 6,1 milhões de hectares. Essa área pesquisada corresponde a 76% do total estimado de toda a área cultivada na maior região produtora de cana do país, de 8 milhões de hectares. Além disso, a pesquisa coletou informações sobre a intenção de plantio para os próximos anos de 124 unidades, somando 517,8 mil hectares recenseados.
O resultado é o quadro mais completo sobre como as usinas nacionais estão adotando diferentes variedades de cana-de-açúcar e como os canaviais vão evoluir no próximo ciclo da cultura.
Mesmo com os números médios mostrando uma deterioração dos canaviais, há mudanças em alguns estados que trazem perspectiva de melhora pela frente.
Para aqueles interessados no médio prazo, a expectativa de melhora traz um bom horizonte. No entanto, para a próxima temporada, a situação média dos canaviais é ruim e entre as causas principais estão os efeitos tanto da baixa renovação dos canaviais, como da falta de investimento no campo, que devem ser fortemente sentidos e afetar a produtividade agrícola em 2017/18.
O portal NovaCana apresenta a seguir o resultado desta compilação e os principais insights obtidos pelos analistas. E mais: 16 gráficos com os principais indicadores de uso varietal no Centro-Sul, nos estados da região e nas principais cidades paulistas:
- Relação Plantio e Cultivo
- O que foi plantado X O que as usinas planejam plantar
- Participação das variedades na área cultivada e relação colheita e plantio por tipo de cana
- Ranking do uso de variedades de cana por Estado
- Ranking do uso de variedades de cana por cidade paulista produtora
- Índice de Atualização Varietal
- Índice de Concentração Varietal
- Índice de Maturação Varietal
- Índice de Estágio Médio de Corte
- Relação Estágio Médio de Corte: EMC X TCH
Renovação dos canaviais no Brasil atinge o segundo pior índice da história, pior só em 1999.
Região de Ribeirão Preto está com um dos canaviais mais velhos do Brasil.
Variedade de cana mais plantada no Brasil tem baixa performance com a mecanização, mas segue dominando.
NovaCana — 06/12/2016
Existe um certo consenso de que as usinas nacionais, na média, demoram para usar novas variedades de canas-de-açúcar e não se beneficiam das atualizações de pesquisa. Sob essa concepção, os canaviais brasileiros de uma maneira geral estariam defasados tecnologicamente.
Além de tudo, a questão não seria exatamente uma novidade para o setor, que, para agravar a situação, pouco consegue fazer para reverter o quadro.
O assunto foi levantado com maior profundidade em 2013, quando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) concluiu que o setor tem um problema estrutural. A conclusão foi realizada sob à luz da avaliação dos canaviais, cujos os complicadores já iriam além da influência negativa do clima, do fim das queimadas e a acelerada mecanização.
O banco conduziu dezenas de entrevistas com especialistas e, depois de revisar a literatura, detalhou que existe um obstáculo estrutural nos canaviais, que advém da falta de investimentos em desenvolvimento tecnológico. A saída para esse problema seria a adoção de novas variedades pelas usinas, ação que não estaria sendo realizada a contento. Os dados deixam claro que as mudanças nas regras do ProRenova para estimular o plantio de novas variedades lá em 2013 não foram suficientes para amenizar o problema.
Três anos após a pesquisa do banco, olhando os resultados do Censo Varietal, realizado pelo Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é possível perceber que a situação dos canaviais do setor é ainda pior.
Quando se considera a média dos indicadores que denotam essa transformação no campo, a inovação tecnológica e adoção de novas práticas agronômicas continuam aquém do desejável no setor.
A discussão continua mais atual do que nunca. Na próxima temporada, o cenário é negativo, e, entre as causas principais estão os efeitos tanto da baixa renovação dos canaviais como da falta de investimento no campo, que devem ser fortemente sentidos e afetar a produtividade agrícola na safra 2017/18.
Heterogeneidade
A pesquisa, além disso, traz um avanço à discussão, pela percepção de que esse panorama do setor em relação ao uso de novas variedades de cana-de-açúcar não é assim tão homogêneo. Essa é uma das principais contribuições do novo Censo de acordo com o pesquisador do IAC, Marcos Landell.
Assim como acontece com outros indicadores, o setor polariza-se em usinas de ‘elite’, com as melhores práticas, e outras unidades que acabam ficando para trás, muitas vezes em razão do cenário financeiro. “Algumas empresas possuem uma política de adotar novas variedades, em maior velocidade, com audácia e coragem. Estas estão verticalizando suas produtividades”, afirma.
No entanto, quando se fala em tecnologia do campo, dinheiro não é fator isolado para que algumas companhias fiquem para trás. “Na nossa visão existe uma lentidão na difusão e adoção de novas tecnologias varietais porque o canavieiro tem uma tendência a ser mais tradicionalista e plantar o que já conhece, se arriscando pouco”, afirma Landell.
Os mais tradicionalistas, afirma o pesquisador, estão mantendo suas produtividades ou até derrubando-as, levando a uma estagnação na inclusão de ganhos. “As novas variedades, como os programas de melhoramento indicam, trazem ganhos importantes e significativos a cada ano. Se o produtor não planta novas variedades, ele deixa de incorporar esses ganhos em suas áreas”, explica Landell, sem dar margem para dúvida.
Perfil regional
O estudo também delineia algumas diferenças regionais importantes segundo o pesquisador. Mesmo os números médios mostrando uma deterioração dos canaviais, há mudanças em alguns estados que indicam perspectiva de melhora pela frente.
O viés regional na visão do pesquisador destaca-se também com um possível caminho para o setor avançar em eficiência no campo, por meio da adoção novas variedades. “Não existe variedade ideal, existe variedade adequada para cada região e tipo de manejo, plantio e colheita. Não dá para copiar ”, defende.
Landell cita o estado de Goiás que tem uma ótima atualização varietal por ser uma das fronteiras mais recentes da canavicultura brasileira. “Talvez é o local onde houve um maior crescimento na última década. E eles não puderam importar tecnologia de São Paulo, porque as condições de seca são muito mais prevalecentes. Eles tiveram que usar as informações geradas no próprio estado e o próprio IAC tem uma grande rede experimental naquela região.”
Um agravante de outros estados, afirma, é que empresas se instalaram apenas copiando práticas mais tradicionais em São Paulo. “E se deram muito mal, suas produtividades foram muito baixas e ainda sofrem com um residual dessas práticas importadas”.
Por outro lado, assinala o pesquisador, já foram identificadas variedades com um perfil regional e de melhor performance e isso gera uma perspectiva muito interessante para cana-agricultura na próxima década. “Possivelmente, essas canas regionais vão ganhar espaço e vão dar contribuição grande para o aumento da cana-agricultura nacional”. Um exemplo disso é o Paraná. Se por um lado o estado ainda concentra variedades, aumentou o índice de renovação a partir de iniciativas locais, o que deve melhorar o cenário produtivo no estado a partir dos próximos anos.
Abrangência do estudo
Na primeira fase do Censo Varietal, o IAC levantou dados de uso de variedades de 217 unidades sucroalcooleiras durante a safra 2016/17. Isso representa um mapeamento de 6,1 milhões a partir das respostas à pesquisa. Essa área pesquisada corresponde a 76% do total estimado de toda área cultivada na maior região produtora de cana do país, de 8 milhões de hectares.
Já a pesquisa de Intenção de plantio, levantou informações sobre plantio de variedade entre os meses de abril/16 e março/17 em 124 unidades, somando 517,8 mil hectares recenseados. Nos próximos meses, o IAC dá continuidade aos estudos mapeando o uso de variedades pelos produtores do Nordeste.
Renovação dos canaviais
Segundo os dados do IAC, o índice que mede a área nova plantada com cana-de-açúcar sobre o total cultivado no Centro-Sul do Brasil atingiu apenas 10,6% em 2016. É o segundo pior índice da história, atrás apenas dos 8% de 1999, ante uma média de 15% e um pico de 23% em 2006.
O indicador inclui a ampliação de áreas e a renovação dos canaviais necessária à cultura.


Em tradicionais regiões produtoras de cana de São Paulo, o índice de plantio sobre a área plantada também ficou abaixo dessa média, com 13,4% em Ribeirão Preto e 14,3% na região de Jaú.
Na evolução ano a ano, o pesquisador estatístico e coordenador do censo varietal juntamente com Landell, Rubens Braga Junior, analisa que a queda da proporção de plantio aconteceu em diversos momentos de crise do setor, mas com “motivações” diferentes.
“Em 1998, por exemplo, tivemos a maior produtividade histórica nos últimos 30 anos. O excesso de oferta provocou uma grande derrubada nos preços internacionais acarretando grandes dificuldades para os produtores, que não conseguiam exportar o seu açúcar e, em função disso, ficaram descapitalizados”, afirma.
Por outro lado, as crises de 2008 e 2010 estão associadas à falta de financiamento provocada pela crise financeira mundial. “E, finalmente, a crise atual se deve a política governamental que segurou, artificialmente, os preços da gasolina nos últimos anos”, aponta. Todos esses momentos econômicos influenciaram na capacidade dos produtores de investirem na renovação de seus canaviais.

Na comparação com área plantada entre os meses de abril/15 e março/16 (safra 15/16) com as áreas previstas para plantio entre abril/16 e março/17 (safra 16/17), o cenário apresenta ligeira melhora. “Considerando as mesmas unidades produtoras, existe um acréscimo de 36% nas áreas de plantio. Desse modo, a relação plantio-colheita que foi de 10,6% na safra 16/17 deve passar a ser de 14,4% na safra 17/18”, destaca Braga.


Outro dado do levantamento foi a alta idade média dos canaviais, de 3,6 anos - acima da faixa considerada positiva para produtividade entre 3,1 e 3,5 anos. Na região de Ribeirão Preto, essa idade média chega 4,04 anos. “Como se plantou pouco nesta safra esse número tende de ser ainda maior no próximo ano”, destacou Braga.

Variedades predominantes
Segundo os pesquisadores, recomenda-se que em uma área de produção, uma única variedade de cana-de-açúcar não represente mais do que 15% do total. A diversidade varietal é estratégica para garantir a segurança biológica e evitar que, em caso do ataque de praga ou doença severa, grande parte do canavial seja atingida, segundo Landell.

Os dados mostram que a variedade RB867515, da Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroenergético (Ridesa), está em 27% da área colhida de 6,11 milhões. Essa predominância não é vista com bons olhos pelos pesquisadores. “A variedade foi lançada no final da década de 1990, quando não havia o plantio mecânico. Nessa época, a planta tinha uma performance muito boa. Já, no plantio mecânico, em muitas ocasiões, não tem um bom nascimento e isso prejudica todo o ciclo de produção, não só no primeiro ano como em todos os anos que se seguem”, argumenta Landell.
A razão do setor continuar usando a variedade é que por sua “grande estabilidade”. “Repete resultados bons - não excepcionais - em muitos lugares. Mas não devemos trabalhar com a média. É necessário ver o contexto em que está inserida e usar tecnologia para esse contexto. Falta essa especificação regional”, afirma.
O levantamento do IAC, no entanto, apontou o aumento da diversificação de variedades cultivadas com cana no Centro-Sul, já que a área nova plantada com a RB867515 cai 11% enquanto crescem as com outras cultivares. “Está havendo uma redução da principal variedade cultivada, a RB867515, que na nossa visão, apesar de ser uma grande variedade, tem características que não casam ou não são tão adequadas para mecanização, especialmente em relação à baixa população de colmos”.

A segunda mais cultivada e colhida, a RB966928, também da Ridesa, com 9% da área no Centro-Sul, teve 4% do aumento do plantio de acordo com o levantamento, feito entre maio e novembro deste ano. A variedade com maior aumento de plantio, com 7%, é a CTC 4, do Centro de Tecnologia Canavieira, tem 4% da área.
Os dados revelam, ainda, que Mato Grosso, com 134 mil hectares avaliados, é a região com maior concentração de cultivo, com 49,8% dessa área plantada, com a RB867515. Já no Estado de São Paulo, com 3,58 milhões de hectares apurados, a RB867515 tem a menor concentração, com 22,4% da área. A região de Ribeirão Preto, com 651 mil hectares, tem a mais baixa concentração dessa variedade entre todas as avaliadas, com 11,5% de cultivo, pouco acima da RB966928, que tem 10,9% da área.


Evolução regional
O quadro geral regional pode ser avaliado pela evolução do chamado Índice de Concentração Varietal (ICV). Outro parâmetro considerado é o Índice de Atualização Varietal (IAV), que aponta se a variedade plantada é mais ou menos moderna.
No caso do IAV, quanto menor o indicador, maior o uso de variedade mais modernas, pois é um indicador que cruza o número de variedades predominantes, com sua data de criação e a porcentagem da área em que está concentrada. Esse índice, que estava caindo até o início dos anos 2000, apresentou crescimento nos últimos 15 anos.

Segundo os pesquisadores, isso foi provocado por vários fatores. Um deles, a grande expansão dos canaviais para o cerrado brasileiro, que provocou uma acelerada multiplicação de variedades sem estudos detalhados da interação genótipo com o ambiente. “Como era necessário plantar muita cana usava-se como muda as variedades mais acessíveis como a SP81-3250. Esse período coincidiu, também, com o lançamento da variedade RB867515, com excelentes resultados no cerrado e que teve acelerado crescimento nesses anos. O uso contínuo e intensivo dessas variedades provocou um menor uso de variedades mais modernas”, afirma Braga.

Já o ICVA mede a concentração em poucas variedades, quanto maior o indicador, maior o risco biológico, uma vez que uma nova enfermidade pode atacar esses poucos cultivares provocando grandes perdas para os produtores. “A explicação para o histórico dos últimos anos é similar ao IAV: uso intensivo de poucas variedades. Felizmente, essa tendência se inverteu nos últimos dois anos, com a redução das áreas de plantio das duas variedades citadas”.


Índice de maturação
O IMV mede o uso de variedades precoces ou tardias, com uma média ponderada da área dessas variedades e a sua classificação em termos de maturação. Esse índice mostra que os produtores estão usando variedades mais precoces nos últimos anos. Isso se deve a mudança de perfil da safra ocorrida na última década.
“Em função da mecanização, a safra passou a iniciar mais cedo, fazendo necessário o uso de variedades que apresentassem valores de ATR suficientes para colheita nos meses de abril e até março. Isso está provocando o uso de variedades mais precoces”, explica Braga.


Cruzando esses dois dados, o NovaCana elaborou sob os critérios avaliados pelo IAC – menor Índice de Atualização Varietal (IAV) e menor Índice de Concentração Varietal Ajustado (ICVA) - os rankings por estado e cidades pesquisadas pelo levantamento para averiguar quem faz o melhor uso das variedades e a disparidade entre os indicadores.


Marina Gallucci – NovaCana