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Para Fitch Ratings, cana própria deixa usinas mais suscetíveis a problemas financeiros

Agência de classificação de risco detalha fatores que levam sucroenergéticas à recuperação judicial


novaCana.com - 17 set 2019 - 10:47

O rating de crédito é um dos principais indicadores que demonstra a chance das empresas de cumprirem com suas obrigações financeiras. Com notas que vão de AAA até D, ou default, existem diversos graus entre a melhor e a pior nota.

Para chegar nestas classificações, diversas nuances são consideradas pelas agências de classificação de risco. Conforme o diretor da Fitch Ratings, Claudio Miori, os resultados demonstram que uma maior quantidade de cana própria tende a deixar as usinas mais expostas a riscos – como os baixos preços do açúcar –, por conta da exposição ao efeito da precificação da cana.

Esta afirmação foi feita durante palestra no segundo dia da NovaCana Ethanol Conference 2019, na manhã desta terça-feira (17).

De acordo com o profissional, os ratings de crédito podem demonstrar as possibilidades relativas de uma empresa entrar em default, ou seja, deixar de realizar algum pagamento a seus credores. Porém, as notas não trazem uma medida absoluta.

Ainda segundo ele, entre empresas altamente endividadas existe uma grande tendência para os ratings serem cada vez mais baixos. Além disso, ele afirma que as companhias que já reestruturaram suas dívidas tendem a repetir o processo mais vezes.

A queda nas notas também é o caso das empresas em recuperação judicial, tema do painel no qual Miori participou. Ele explica que a recuperação judicial é um processo moroso e que não costuma durar menos de oito anos.

Quanto mais próximo se está do pedido de recuperação judicial, Miori explica, menor fica a liquidez e maior fica a alavancagem da empresa, além da geração do fluxo de caixa ser negativa.

Ele também expressa que há uma tendência maior das usinas menores entrarem em recuperação judicial, na comparação com as maiores – uma das possibilidades é dos bancos buscarem "salvar" estas em detrimento daquelas.

As usinas em estresse financeiro de acordo com a classificação da Fitch Ratings possuem características comuns, como o fato de serem fortemente afetadas por condições climáticas ruins, e por rendimentos agrícolas baixos aliados à capacidade ociosa em suas usinas. Além disso, elas têm dificuldade de alterar o mix de um produto para o outro, estão muito expostas ao dólar, não dispõem de cogeração para geração de renda, bem como não possuem terras próprias.

Ratings de crédito

Miori afirma que a resiliência de ratings das empresas tende a ser maior quanto melhor for a sua nota. Na outra ponta, ao observar o risco de crédito das usinas, estas são classificadas com CCC quando o risco é substancial, CC quando é provável e C quando é iminente. "Há uma granularidade entre as categorias B e C, ficando difícil estabelecer onde a companhia está", expressa o diretor.

Para chegar à nota, os profissionais olham para diversos pontos, os chamados fundamentos do rating. Alguns deles são o risco ao setor e ao país, além de estratégias de management e governança, estrutura do grupo e perfil de negócios. No perfil financeiro das empresas, são observados fluxo de caixa e lucratividade, além de estrutura de capital e flexibilidade financeira.

Aspectos operacionais como qualidade dos ativos, eficiência agrícola e industrial, uso da capacidade instalada, diversificação de produtos e uso de terras próprias ou arrendadas são alguns dos pontos analisados pela empresa de classificação de risco.

As empresas com menor custo-caixa de produção, maior robustez do fluxo de caixa operacional e maior liquidez tendem a ter melhor situação financeira e maior liquidez.

Miori conclui afirmando que a deterioração das usinas é rápida, e a classificação de risco precisa justamente acompanhar essa deterioração para que os ratings estejam colados à realidade.

Gabrielle Rumor Koster - novaCana.com