PUBLICIDADE
BN novacana 1300x150
Financeiro

[Opinião] Grau de endividamento das usinas versus novos horizontes de preços da cana


Banco Alfa - 06 mai 2022 - 11:39

Por Manoel Pereira de Queiroz*

Após muitos anos sem uma perspectiva promissora, o setor sucroenergético brasileiro experimentou, a partir da safra 2019/20, uma sequência de três bons anos, ao menos em termos de preço. Após um crescimento real da ordem de 14% na safra 2018/19, a dívida total do setor se manteve estável em 2019/20 e caiu cerca de 22% em 2020/21.

Os balanços da safra 2021/22 estão saindo do forno, mas devem apresentar resultados bastante heterogêneos entre as empresas, em função da quebra de safra de cada unidade produtora e da política de hedge adotada por cada grupo econômico.

Em relação à quebra de safra, enquanto os dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) mostram uma queda de 14,69% em açúcar total recuperável (ATR), temos observado unidades com apenas 5%, enquanto outras chegam a apresentar perdas de até 30%. Já no que diz respeito ao hedge, muitas empresas travaram, antecipadamente, seus preços de açúcar em cerca de R$ 1,5 mil por tonelada, mas o preço chegou a bater acima de R$ 2 mil, beneficiando quem não haviam se protegido.

Nesse caso, diga-se, foi pura sorte de quem não fez o que deveria ter sido feito. Isso tudo posto, considerando o aumento de custos dos insumos, que já teve impactos nessa última safra, e o aumento da Selic, a partir de meados de 2021, torna bastante desafiador estimarmos o nível de dívida das empresas e do setor como um todo no atual momento, sem termos acesso aos balanços fechados da safra.

Se já é difícil estabelecermos o presente, pior ainda é traçarmos cenários futuros. Apenas para citar alguns exemplos, o cloreto de potássio saiu de US$ 400 por tonelada, no início de 2021, para cerca de US$ 1,2 mil hoje; a ureia, de US$ 350 para algo próximo de US$ 900; e superfosfato triplo, de US$ 450 para US$ 800 a tonelada. Isso tudo sem contar o preço do óleo diesel, que acumula mais de 55% de aumento desde o início da última safra. Ou seja, o cenário será desafiador, embora a perspectiva seja de preços firmes de açúcar e etanol.

Por outro lado, como tenho insistido há vários anos, o setor é muito heterogêneo em vários aspectos. Apenas para se ter uma ideia, em um levantamento com 162 unidades produtoras, o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) encontrou resultados de produtividade (safra 2020/21) que vão de 16,19 toneladas de ATR por hectare até 4,01 t/ha.

Do ponto de vista financeiro, alguns grupos possuem dívida líquida menor que R$ 50 por tonelada, enquanto outros superam os R$ 250/t. Um cenário desafiador, seja de clima, seja de preço ou de custo, afetará diferentemente cada uma das usinas.

Usando um exemplo do passado, após o período de congelamento de preços da gasolina em meados da última década, várias usinas se tornaram insolventes, algumas sendo inclusive forçadas a pedir recuperação judicial, enquanto outras, além de passarem incólumes, aumentaram sua moagem incorporando o canavial das que estava em dificuldades. É, portanto, mais importante fazer primeiro a lição de casa, independentemente da adversidade do momento.

Essa lição tem dois pilares fundamentais: redução de custos e gestão financeira. Em um setor de commodities, onde não se controla o preço, a redução de custos é a principal forma de se aumentar ou preservar a geração de caixa. Considerando que cerca de 70% dos custos de uma usina estão na área agrícola, é lá que se podem obter os melhores ganhos, seja por aumento de produtividade, seja por diminuição de desperdício.

Nesse campo, as notícias não podiam ser melhores. É profícua a quantidade de soluções que vem sendo gerada nesse sentido, desde técnicas de manejo, como a meiosi, ao uso de tecnologia, algumas delas de adoção relativamente simples e barata, como uso de sistema para monitoramento de frota, com redução impressionante do número de máquinas usadas na operação, ou o uso de drones para controle biológico de pragas.

Já sob o aspecto financeiro, o ponto mais importante é o controle da liquidez, que se faz tomando dívida em prazos condizentes com o ciclo de investimentos da empresa e mantendo um forte colchão de caixa. Em relação ao ciclo de investimentos, vale lembrar que o principal Capex recorrente do setor é a renovação de canavial, que demora, no mínimo, 12 meses para ser colhido e permanece no campo por cinco ou seis anos. Em relação ao caixa, há sempre quem questione o custo de carregar uma posição elevada, recebendo remuneração inferior ao que paga na dívida.

É verdade, carregar caixa realmente custa caro, mas aumenta o poder de barganha e torna a empresa mais fácil de administrar. Não à toa, empresas de primeiríssima linha não veem qualquer incômodo em carregar um caixa expressivo. Veja alguns exemplos de companhias abertas em 31 de dezembro no ano passado: Brasilagro, caixa de R$ 563 milhões, equivalente a 1,13 vez sua dívida financeira de curto prazo; São Martinho, caixa de R$ 1,5 bilhão, 2,23 vezes; Suzano, caixa de R$ 5,2 bilhões, 2,79 vezes.

Alguns fatos nos levam a crer que há novamente um ambiente bastante propício para o setor sucroenergético nos próximos anos: uma retomada forte da “onda” ESG no mundo, dando impulso a uma possível nova tendência de comercialização de créditos de carbono; a admissão por parte de algumas montadoras de automóveis de que a solução para descarbonização de alguns países, como o Brasil, passa pelo biocombustível e não somente pela eletrificação plug-in; o potencial do biogás e do biometano, agregando valor à produção; a possibilidade de viabilização de tecnologias disruptivas, como o plantio de cana via “semente”.

Aquelas empresas que, nos últimos três anos, conseguiram reduzir seu endividamento, ajustar sua liquidez e adequar seu custo de produção vão, com certeza, conseguir surfar nessa nova onda.

* Manoel Pereira de Queiroz é superintendente de agronegócio do Banco Alfa e membro do conselho superior do agronegócio da Fiesp


Textos opinativos não necessariamente traduzem a opinião do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.


Acompanhe as notícias do setor

Assine nosso boletim

account_box
mail

PUBLICIDADE
Card image


x