Dados da consultoria FG/A demonstram que companhias com melhor performance agrícola geram mais caixa; as que produzem mais ATR detêm dívida menor
O fato de as usinas do setor sucroenergético performarem de maneira muito díspar não é recente e tampouco desconhecido. Porém, analisá-lo sob a perspectiva de números extraídos do campo – por vezes em relação a indicadores financeiros – oferece uma nova dimensão de para onde a indústria de açúcar e etanol caminha.
Para isso, a consultoria FG/A realizou um levantamento com 45 players do setor, apresentando diferentes indicadores de campo, indústria e cogeração durante a temporada 2018/19. A amostra corresponde a 60% da moagem do Centro-Sul; segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2018/19, foram moídas 572,7 milhões de toneladas na região, enquanto a amostra correspondeu a 345,73 milhões de toneladas.
No período, a produtividade média das usinas do Centro-Sul foi de 73 toneladas de cana por hectare, enquanto a amostra da FG/A registrou 75 t/ha. Ainda que o valor seja superior, há uma dispersão de 79,55% entre o melhor e o pior player analisado pela consultoria – o segundo rendeu 57,7 t/ha e o primeiro, 103,6 t/ha.
Durante a NovaCana Ethanol Conference 2019, o sócio-fundador da FG/A, Juliano Merlotto, expressou alguns comentários sobre os dados, deixando claro que, por meio deles, é possível constatar “o quão diferente é a performance dentro do setor”.
Confira, na versão completa, gráficos e análises sobre:
- Moagem
- Produtividade
- ATR
- Toneladas de açúcar por hectare
- Eficiência industrial
- Performance agrícola x alavancagem
- Performance agrícola x geração de caixa
- Performance industrial x alavancagem
- Performance industrial x geração de caixa
O fato de as usinas do setor sucroenergético performarem de maneira muito díspar não é recente e tampouco desconhecido. Porém, analisá-lo sob a perspectiva de números extraídos do campo – por vezes em relação a indicadores financeiros – oferece uma nova dimensão de para onde a indústria de açúcar e etanol caminha.
Para isso, a consultoria FG/A realizou um levantamento com 45 players do setor, apresentando diferentes indicadores de campo, indústria e cogeração durante a temporada 2018/19. A amostra corresponde a 60% da moagem do Centro-Sul; segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em 2018/19, foram moídas 572,7 milhões de toneladas na região, enquanto a amostra correspondeu a 345,73 milhões de toneladas.
No estudo da FG/A, o grupo com menor moagem esmagou 890 mil toneladas de cana e o de maior, 59,72 milhões, o que rendeu uma disparidade de 6.610% entre eles. Porém, o segundo grupo que mais moeu tem um resultado bem distante do primeiro: 29,16 milhões de toneladas de cana – assim, ignorando o primeiro grupo, a disparidade entre todos os grupos seria de 3.176%.

Diferentemente do estudo feito na safra anterior, a empresa optou por não divulgar os nomes das companhias que fizeram parte da amostra de 2018/19.
Disparidade nos dados
A produtividade média das usinas do Centro-Sul em 2018/19 foi de 73 toneladas de cana por hectare e da amostra da FG/A, de 75 t/ha. Ainda que o valor seja superior, há uma dispersão de 79,55% entre o melhor e o pior player analisado pela consultoria – o segundo rendeu 57,7 t/ha e o primeiro, 103,6 t/ha.
Durante a NovaCana Ethanol Conference, o sócio-fundador da FG/A, Juliano Merlotto, expressou alguns comentários sobre os dados, deixando claro que, por meio deles, é possível constatar “o quão diferente é a performance dentro do setor”.

Nos dados referentes ao açúcar total recuperável (ATR), a disparidade é menor, mas ainda assim significativa. Tanto no Centro-Sul quanto na amostra da FG/A, a média foi de 133 quilogramas por tonelada de cana, com uma variação de 17,45% entre o pior e o melhor desempenhos. O com melhor rendeu 142,2 kg/t, enquanto o pior ficou com 121,07 kg/t.

Unindo esses dois indicadores, é possível também comparar a quantidade de ATR por hectare. Neste caso, a média do Centro-Sul foi de 9.660 kg/ha e a da amostra, 9.967 kg/ha. Porém a disparidade segue e, conforme Merlotto, algumas companhias chegaram a apresentar resultados 40% acima da média. “Enquanto tiveram usinas performando entre 12.000 kg/ha e 13.000 kg/ha, alguns players operaram a 8.800 kg/ha”, detalha.
Para analisar estes indicadores, a FG/A dividiu a amostra em quatro grupos com números similares de empresas. No grupo que reúne as com melhor rendimento, a moagem combinada foi de 50,8 milhões de toneladas, com tamanho médio das companhias comportando uma moagem de 4,2 milhões de toneladas por safra. Neste grupo, a quantidade média de ATR foi de 11.995 kg/ha.
Mas isso não significa que essas usinas concentram a maior produção, uma vez que elas possuem uma menor capacidade de moagem. Aliás, segundo os dados apresentados, a relação parece clara: quanto maior a capacidade de produção da companhia, menor a concentração de açúcar no campo.
Conforme Merlotto, as maiores moagens ficaram justamente nos terceiro e quarto grupos que, juntos, somaram 224,9 milhões de toneladas – mais da metade da amostra.
A capacidade média das usinas é de 8,4 milhões de toneladas por safra no terceiro grupo e de 12,3 milhões de toneladas no quarto. Já o rendimento médio foi de 9.900 kg/ha e 8.840 kg/ha, respectivamente.

Enquanto isso acontece nos canaviais, a diferença nas indústrias é menos evidente, segundo Merlotto. “Entendemos que o domínio tecnológico faz com que a dispersão seja menor e a gente não encontre o mesmo resultado”, explica. Conforme o analista, o campo é mais difícil de controlar, o que explicaria o pior resultado entre empresas de maior porte.
O indicador industrial utilizado pela consultoria é dado em porcentagem, sendo referente ao processo que analisa desde quando a cana entra na moenda até o produto final.
Assim, a média da eficiência industrial do Centro-Sul foi de 87,7%, enquanto a da amostra é de 87,8%. Conforme Merlotto, existem players operando entre 82,7 e 91,2% – ou seja, a variação entre eles é de 10,28%.
“Não vemos tanto diferencial em termos de tamanho neste caso, mas também não vemos a maior escala sendo o principal driver desse fator. Na verdade, o grupo mais eficiente continua sendo o com usinas menores, com tamanho médio de 4 milhões de toneladas por safra”, afirma.
Porém, existe um grupo de usinas maiores, com capacidade média de 11,8 milhões de toneladas, que também estão acima da média setorial.

Para além do mercado e do clima
Um dos esforços da FG/A foi olhar com atenção para os indicadores operacionais, vendo se existe uma relação deles com os financeiros. A partir disso, a consultoria fez correlações da performance agrícola e industrial das companhias com a alavancagem e com a geração de caixa.
“Na nossa visão, ao avaliar somente o indicador financeiro, não vemos toda a gestão da companhia, que acaba tomando decisões de liquidez, de estrutura de capital, de investimentos, de fixação de açúcar, de estocagem de etanol e de venda de energia”, explica. “Dentro da companhia ainda tem toda a gestão agrícola, industrial e de cogeração, que provavelmente impactam o que vemos adiante, no resultado financeiro”.
Merlotto ainda destaca que as condições agronômicas e de clima de cada local também influenciam nos resultados.
Assim, a FG/A cruzou os dados de quantidade de açúcar por hectare e de alavancagem, ou seja, a dívida e o Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização). “Quanto maior a quantidade de açúcar por hectare, menor a dívida por Ebitda. Usinas que performam melhor na área agrícola tendem a ter uma alavancagem menor”, explica o analista.

De acordo com ele, na média, a correlação negativa entre os dados é de 25,7%. Isso significa que os dois indicadores tendem a se mover em direções opostas, ou seja, quanto maior a concentração de açúcar nos canaviais, menor a alavancagem da companhia. O resultado, ainda que não seja inesperado, demonstra o quanto a produtividade do campo está relacionada à saúde financeira das companhias.
Uma situação semelhante ocorre na comparação da eficiência global da planta (performance industrial) com a alavancagem – quanto melhor a primeira, menor a segunda. Neste caso, a correlação negativa foi ainda maior, sendo calculada em 31,1%.

Além disso, a FG/A também relacionou a eficiência das companhias – tanto no campo quanto na indústria – com a geração de caixa. Este índice, por sua vez, é calculado pela relação entre o Ebitda e a moagem.
De acordo com a consultoria, entre a geração de caixa e a performance agrícola há uma correlação positiva. “Quanto melhor a performance agrícola, maior o Ebitda por tonelada. Os players com mais de 11.000 kg de ATR/ha costumam ter geração de caixa superior”, detalha Merlotto.

Assim, na comparação com a concentração de açúcar nos canaviais, a relação foi positiva em 20,7%. Já em relação à performance industrial, a correlação foi calculada em 16,6%.

Desta forma, por mais que seja menor – o que não deixa de ressaltar a relevância do campo para o setor –, a eficiência operacional dentro das usinas também influencia diretamente nos resultados financeiros. Ou seja, quanto melhor é o rendimento industrial, maior é a geração de caixa da companhia.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana