FCStone, Agroconsult e Bioagência analisam os números da temporada 2018/19, arriscam primeiros palpites e discutem a situação da cana-de-açúcar no Centro-Sul
O investimento em inovação é uma das saídas mais importantes para a crise do setor sucroenergético. Olhando para a situação da safra atual, as possibilidades para a próxima temporada ficam largamente limitadas e alguns parâmetros essenciais da safra já estão praticamente determinados.
Com a safra 2018/19 já na sua reta final, algumas consultorias já projetam os elementos que darão o tom da temporada que se inicia apenas em abril do ano que vem.
Durante o NovaCana Ethanol Conference, evento que aconteceu em São Paulo nos dias 3 e 4 de setembro, o sócio-analista da Agroconsult Fabio Meneghin, o analista sênior da FCStone João Paulo Botelho e o diretor-executivo da Bioagência Tarcilo Rodrigues, discutiram quais os fatores que fazem as perspectivas – tanto para a safra atual quanto para a próxima – serem pessimistas.
Os cenários de preço do açúcar e da gasolina influenciam. O clima define a quantidade de cana moída em cada safra e a qualidade da produção. A disponibilidade de cana-planta determina quão grandes podem ser os números. Mas, além disso, outros fatores têm sido percebidos como relevantes para uma boa temporada.
“O setor de cana parou nos últimos 15 anos em termos de inovações. A última grande inovação foi a mecanização e, depois, nada – bem diferente das outras culturas. Só agora que estamos voltando a pensar em diferentes tipos de plantio, por exemplo, para tentar retomar a produtividade”, afirma Meneghin, reforçando a importância de algumas mudanças para que o setor alcance bons resultados.
Confira, na versão completa, os caminhos aos quais a inovação pode levar, a influência do mercado global de açúcar nos números brasileiros e as primeiras estimativas para a safra 2019/20.
O investimento em inovação é uma das saídas mais importantes para a crise do setor sucroenergético. Olhando para a situação da safra atual, as possibilidades para a próxima temporada ficam largamente limitadas e alguns parâmetros essenciais da safra já estão praticamente determinados.
Com a safra 2018/19 já na sua reta final, algumas consultorias já projetam os elementos que darão o tom da temporada que se inicia apenas em abril do ano que vem: maior direcionamento de matéria-prima para o etanol, grande produção do biocombustível, menos açúcar e moagem estavelmente baixa. A expectativa é que a produtividade não vai melhorar e o índice de renovação do canavial seguirá abaixo do necessário, sendo que um clima adequado é essencial para bons resultados.
Durante o NovaCana Ethanol Conference, evento que aconteceu em São Paulo nos dias 3 e 4 de setembro, o sócio-analista da Agroconsult Fabio Meneghin, o analista sênior da FCStone João Paulo Botelho e o diretor-executivo da Bioagência Tarcilo Rodrigues, discutiram quais os fatores que fazem as perspectivas – tanto para a safra atual quanto para a próxima – serem pessimistas.
Os cenários de preço do açúcar e da gasolina influenciam. O clima define a quantidade de cana moída em cada safra e a qualidade da produção. A disponibilidade de cana-planta determina quão grandes podem ser os números. Mas, além disso, outros fatores têm sido percebidos como relevantes para uma boa temporada.
“O setor de cana parou nos últimos 15 anos em termos de inovações. A última grande inovação foi a mecanização e, depois, nada – bem diferente das outras culturas. Só agora que estamos voltando a pensar em diferentes tipos de plantio, por exemplo, para tentar retomar a produtividade”, afirma Meneghin, reforçando a importância de algumas mudanças para que o setor alcance bons resultados.
Comparando com culturas como a soja e o milho – grandes concorrentes dos canaviais em área –, a cana cresceu menos em custos nos últimos anos, mas perdeu muito em produtividade, o que é um reflexo da falta de novidades no campo, analisa Meneghin. “Ao mesmo tempo, as duas outras lavouras ganharam muito em genética, novos materiais e em defensivos agrícolas, melhorando sua produção”.
Ele ainda continua: “A fábrica de açúcar não é a usina, é o campo. A indústria é importante e tem muito a avançar, mas o principal ponto do setor é o campo. Para recuperar a produtividade, temos que recuperar o campo. A cana é a única cultura brasileira, dentre as quatro maiores, que teve uma significativa queda de produtividade nos últimos anos”.
O analista faz coro ao Itaú BBA, que defende a necessidade do setor diminuir antes de voltar a crescer. De acordo com Meneghin, é preciso direcionar o olhar para dentro de cada negócio, considerando a possibilidade de “dar uns passos para trás”. Entre as medidas sugeridas está a análise de onde a cana-de-açúcar está sendo plantada, revendo as localidades. “Alguns ambientes não são bons para a cana-de-açúcar. É preciso investir nas melhores áreas e, aí sim, colher os frutos”, justifica.
Tarcilo Rodrigues concorda e acrescenta que as condições econômicas do país nem sempre permitem que o produtor faça “a lição de casa”, um aspecto que é reforçado pela heterogeneidade do setor. “Infelizmente, neste mercado imperfeito de açúcar, muitos players terão que sair. Estamos perdendo produtividade anualmente, especialmente em comparação a outros países”, completa.
O consenso é que o investimento deve ser focado na produtividade. João Paulo Botelho, da FCStone, explica que a dificuldade não está só no setor, mas no país inteiro. “Temos um desafio aqui, pois as tecnologias para a cana são todas nossas, desenvolvidas internamente, não temos como importar de outros países”, explica.
Para ele, é preciso desenvolver novas variedades de cana, que permitam a expansão da atividade. “Na Índia, por exemplo, a introdução de uma variedade mais efetiva solucionou o problema de produtividade. Aqui, precisamos fazer o mesmo. Precisamos sair do círculo vicioso em que estivemos nos últimos anos e entrar em um círculo virtuoso. A solução vai muito no sentido de desenvolvimento agrícola”.
Perspectivas para 2019/20
Com a falta de inovação – e de renovação –, o cenário do setor sucroenergético no Centro-Sul do país não tende a mudar muito do que vem sendo observado neste ano. A safra 2018/19 de cana-de-açúcar está menor do que as expectativas iniciais e do que a 2017/18. Porém, com uma qualidade de matéria-prima um pouco maior do que a vista na temporada anterior.
Fabio Meneghin afirma que o aumento do açúcar total recuperável (ATR) nesta temporada em comparação à passada está muito positivo e até mesmo compensa a diminuição da moagem em algumas regiões. Mas, devido ao clima seco registrado no início da safra, ele acredita que o cenário de queda para a temporada 2018/19 está consolidado e “não deve mudar muito”. Ao mesmo tempo, o quadro pode servir de base para especulações sobre o que está por vir.
Ainda é cedo – a nova safra começa apenas em abril de 2019 –, mas já é possível ver a direção em que os números podem seguir. Embora eles possam mudar, algo que foi reiterado pelas consultorias, as perspectivas já estão sendo sentidas.
Analisando a safra 2018/19 até então, a Bioagência observa um aumento de área em relação à temporada passada – e a expectativa para a próxima é que ela cresça ainda mais. O problema é que, mesmo com a expansão dos canaviais, foi observada uma redução na moagem nesta safra.

“A queda de produtividade é gritante. Normalmente, o aumento de área vinha acompanhado do aumento da produtividade. Hoje está diferente, estamos produzindo menos em mais área, e precisamos consertar isso. É um problema a ser resolvido”, determina Rodrigues.
De acordo com o diretor, com as sucessivas crises vividas pelo setor sucroenergético, a produção de ATR por hectare caiu, mas a recuperação ainda não foi sentida, criando “um entrave bastante crucial para o setor”. Além disso, a produtividade cai ao mesmo tempo em que a idade média dos canaviais aumenta, o que se reflete nas estimativas.
Rodrigues ainda afirma que algumas áreas do canavial não serão colhidas até o fim deste ano, pois a cana ainda não estará adequada ao corte. Assim, a expectativa é que haja uma “pequena expansão” de área em 2019/20. “Mas ainda teremos uma queda de produtividade, então, estimamos um número próximo de 567 milhões de toneladas, nada muito maior do que isso”, conclui.
Já a Agroconsult sugere que a falta de renovação é o principal motivo da queda de produtividade. As imagens de satélite do projeto Canasat demonstram que há apenas 10% de cana-planta disponível para a próxima safra.
“Hoje, 39% do canavial tem idade acima de seis anos. É aquela tendência da abertura de boca de jacaré: idade para cima, produtividade para baixo”, caracteriza Fabio Meneghin

Seguindo a linha de tendência estatística da produtividade média da cana no Centro-Sul nos últimos anos, a Agroconsult só espera resultados melhores em 2019/20 caso “tudo corra bem”, o que envolve uma melhora das adubações e boas chuvas na primavera e no verão. Mas este, afirma Meneghin, é o melhor cenário.
O pessimismo se deve ao fato de que a condição financeira das usinas as fará seguir com a pouca renovação vista nos últimos anos, agravadas, segundo o analista, pela baixa adubação das soqueiras.
Dessa forma, a consultoria acredita que talvez não seja possível voltar à tendência de produtividade necessária para chegar ao resultado inicialmente esperado para a moagem deste ano, que não foi possível devido à seca do início da safra. “O resultado de 2019/20 não será maior do que esta temporada poderia ter sido de acordo com nossa primeira estimativa, em termos de moagem”, conclui o analista.

Os preços mandam
O contexto se torna mais complicado a nível mundial, com países como a Índia oferecendo subsídios governamentais para a indústria de açúcar. A produção excessiva pelo mundo, ligada a uma desaceleração no aumento do consumo, gera o superávit global do adoçante visto nas duas últimas safras.
Com tanto açúcar disponível no mercado, os preços têm alcançado patamares muito baixos, inclusive ficando abaixo do custo de produção. No caso brasileiro, a possibilidade de redirecionar a cana-de-açúcar colhida para o etanol representa uma segurança para as usinas. Assim, as companhias têm optado por maximizar a produção do biocombustível nesta safra – algo que também pode ser esperado para a próxima.
João Paulo Botelho explica que, mesmo em São Paulo – um estado originalmente açucareiro e onde a commodity remunera melhor –, o cenário vem favorecendo o etanol. “Depois de dois anos com o açúcar pagando melhor que o etanol, no ano passado, o biocombustível passou a remunerar mais o produtor”, afirma.
Isso explica, de acordo com ele, para onde está indo o mix de produção das usinas neste ano e para onde ele seguirá na próxima safra, considerando que o cenário de açúcar a preços baixos deve se manter.
“Projetamos um mix muito destinado ao etanol, de uma forma inédita nos últimos dez anos, pois nunca tivemos uma safra tão alcooleira.” João Paulo Botelho

Por outro lado, os estoques de etanol também atingiram níveis recordes durante essa safra, pressionando os valores do biocombustível. De acordo com Botelho, os estoques já estão 3 bilhões de litros acima das máximas vistas nos últimos anos, o que fez o preço cair entre maio e agosto. “Mas, recentemente, vimos uma recuperação”, ressalva. Ele explica que isso aconteceu graças ao preço da gasolina, que está 19% acima do mesmo período do ano passado.
“A relação de preço entre o etanol e a gasolina está muito favorável ao biocombustível, o que está estimulando o consumo agora e deve continuar nos próximos meses”, conclui Botelho. Dessa forma, ele acredita que o mix de produção das usinas deve se manter alcooleiro até a próxima safra.
Rodrigues ainda acrescenta que o etanol brasileiro está saindo mais barato que o importado, especialmente por causa dos impostos, permitindo uma entressafra mais tranquila. “O mercado está abastecido, os contratos são suficientes para atender à demanda de anidro e a gente não deve ter uma interferência muito grande da importação neste ano”, reitera.
Tanto a Agroconsult quanto a Bioagência projetam preços firmes para o petróleo na próxima safra, cenário que, junto ao câmbio atual, torna o etanol extremamente competitivo.
“Nesta safra, as usinas decidiram produzir mais etanol, pois a gasolina está subindo e o açúcar, caindo. Assim, ano que vem, esperamos ainda mais biocombustível”, aponta Rodrigues. “Como a curva de preços demonstra, [o etanol] seguirá melhor que o adoçante e o mercado está preparado para absorver os 30 bilhões de litros do biocombustível que serão produzidos em 2019/20”, conclui.

Rafaella Coury – NovaCana

