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Como Wall Street explorou o obscuro mercado de créditos de etanol nos EUA

grafico nyt price rins chamada 180913Com pouca regulação e fiscalização, mercado dos RINs tornou-se vulnerável a manipulação e especulação
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Ele deveria ajudar a limpar o ar, reduzir a dependência de petróleo importado e apoiar a agricultura. Porém, o pouco conhecido mercado de créditos de etanol tornou-se também um novo e quente jogo em Wall Street.

Na reportagem a seguir você verá como um programa ambiental se transformou em uma máquina de lucro e os motivos para o frenesi do mercado em torno dos preços das RINs. E ainda:

- Wall Street se esforça para exercer influência sobre mercados de commodities
- Quais são as instituições financeiras que se beneficiaram com o mercado de créditos de etanol no último ano e como elas operaram
- Quanto o aumento nos preços dos RINs vai custar para algumas refinarias
- Qual a visão da EPA sobre o aumento dos preços e a exploração do mercado por Wall Street
- O que os analistas e agentes do setor pensam sobre a regulação do mercado de etanol nos EUA
- A influência da "parede de mistura" do etanol
- Vários casos high-profile de fraude foram identificados
- Como as grandes instituições financeiras estão profundamente entrelaçadas a todos os aspectos dos mercados de commodities
- O Federal Reserve, o banco central americano, está revendo a propriedade de commodities por bancos
- "Quando você vê algo mudar rapidamente assim, alguém está acumulando, alguém está comprando e alguém está fazendo muito dinheiro com isso"

Ele deveria ajudar a limpar o ar, reduzir a dependência de petróleo importado e apoiar a agricultura. Porém, o pouco conhecido mercado de créditos de etanol nos EUA tornou-se também um novo e quente jogo em Wall Street.

O governo federal criou o mercado de créditos especiais ligados ao etanol há oito anos, quando exigiu que as refinarias misturassem etanol à gasolina ou comprassem créditos de empresas que assim fizessem. A ideia era forçar as refinarias a usar o combustível, renovável e mais limpo, ou a comprar os créditos.

A preocupação de alguns de que Wall Street começaria a explorar este novo mercado foi minimizada pelo governo. Contudo, muitos acreditam que foi isso que aconteceu este ano, quando o preço dos créditos de etanol aumentou 20 vezes em apenas seis meses, de acordo com documentos normativos e entrevistas com mais 40 pessoas envolvidas no mercado pelo New York Times, incluindo executivos da indústria, corretores, comerciantes e analistas.

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Segundo estas pessoas, comerciantes de grandes bancos e outras instituições financeiras acumularam milhões de créditos bem no momento em que as refinarias estavam tentando comprar mais destes créditos para atingir as crescentes metas do governo. Executivos da indústria familiarizados com as atividades de JPMorgan Chase, por exemplo, disseram ao The New York Times que o banco ofereceu a eles centenas de milhões de créditos no início deste verão. Quando questionado pelos próprios executivos sobre como aquela quantidade de créditos foi acumulada, o JPMorgan Chase respondeu que os havia estocado.

Um porta-voz do banco contestou as afirmações dos executivos, dizendo que a instituição não comercializa créditos de etanol para obter lucro da mesma forma que comercializa outros títulos, mas está registrado para negociar os créditos por meio de sua empresa de energia. De tempos em tempo, afirmou o porta-voz Brian J. Marchiony em nota, o banco também compra créditos "em nome de clientes que precisam cumprir as metas estabelecidas pela EPA", embora isso não tenha sido feito no último ano.

Contudo, outros participantes do mercado, incluindo Thomas D. O'Malley, presidente da PBF Energy em Parsippany, New Jersey, identificaram JPMorgan Chase e outras instituições financeiras como vendedores ativos de créditos este ano. Ele disse que as instituições conseguiram transformar um programa ambiental em uma máquina de lucro, contribuindo para o frenesi do mercado este ano. "Os créditos foram criados para monitorar a mistura de etanol na gasolina", declarou O'Malley. "Eles não foram criados para serem artigos de especulação. De jeito nenhum consigo enxergar justificativa para isso".

"Eles não foram criados para serem artigos de especulação. De jeito nenhum consigo enxergar justificativa para isso".

Enquanto os bancos não são, de forma alguma, os maiores jogadores no mercado dos créditos de etanol, a ação de Wall Street neste mercado reflete um esforço maior por parte das instituições financeiras de exercer influência sobre mercados de commodities que vão do alumínio ao petróleo sem uma regulação mais firme. A obscuridade do mercado de etanol faz com que fique difícil determinar o quanto os grande agentes financeiros têm lucrado com ele.

Os bancos afirmam que têm bem menos influência no mercado do que é sugerido e que não estão fazendo nada de errado. Mas as ações dele, apesar de legais, podem ter consequências para os consumidores. No final das contas, declaram os analistas, o resultado será sentido nas bombas de gasolina – já que o alto custo dos créditos de etanol é incluído no preço do galão de gasolina (os créditos, que custavam 7 cents em janeiro, chegaram a custar US$ 1,43 em julho e agora estão sendo comercializados a 60 cents).

A Valero Energy Corporation, uma refinaria que possui milhares de postos de combustíveis, diz que este aumento nos preços dos créditos de etanol custou US$ 800 milhões. PBF Energy, outra refinaria, fecha sua conta em aproximadamente US$ 200 milhões. Uma análise do The New York Times de um registro federal de cerca de 1.500 empresas e indivíduos do mercado de combustíveis renováveis encontrou grandes bancos de Wall Street, assim como um punhado de pessoas com um histórico de problemas legais, entre os participantes. Vários casos high-profile de fraude foram identificados.

Scott Mixon, o economista-chefe da Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (Commodity Futures Trading Commision, em inglês), declarou em entrevista na sexta-feira (13) que a questão do envolvimento dos bancos no mercado de crédito de etanol estava sendo acompanhada pela agência e pode ser avaliada com mais profundidade. A Comissão regula o mercado de futuros das commodities, incluindo o comércio de etanol e gasolina.

Embora os créditos de etanol sejam comercializados por muitas das principais casas de investimento, eles não foram criados em Wall Street, mas sim em Washington, no congresso americano e na Agência de Proteção Ambiental americana (EPA, na sigla em inglês). A princípio, o chamado Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS, na sigla em inglês) foi fomentado como um meio de reduzir a dependência dos Estados Unidos de petróleo estrangeiro, combater o aquecimento global e dar um impulso aos agricultores. As regras estabelecem o volume de etanol, feito principalmente a partir do milho, e outros combustíveis renováveis que deve ser misturado a combustíveis fósseis todo ano, com quotas determinadas para cada refinaria e importador.

Como funcionam os créditos de etanol e os RINs

Toda vez que mistura etanol à gasolina ou importam combustível já misturado ao etanol, companhias de energia ganham créditos do governo, e este crédito pode ser vendido a outras companhias que não misturam etanol para ajudá-las a atingir as quotas estabelecidas no mandato federal. Se as refinarias não alcançam suas metas, eles podem ser multados em até US$ 32.500 por dia. Para monitorar o cumprimento dos objetivos de mistura, a cada galão de etanol é atribuído um Número de Identificação Renovável de ​​38 dígitos, ou RIN. Seis bilhões deles foram gerados nos primeiros seis meses deste ano.

A EPA se assegura que todas as companhias de energia cumpram o RFS. Entretanto, regras aplicadas a praticamente todos os mercados – ligadas à transparência, divulgação e limites de posição, por exemplo – não são impostas às negociações de RINs, dificultando uma avaliação mais precisa do papel desempenhado por Wall Street.

Se os traders de Wall Street tiverem uma participação de 5% em ações de uma empresa pública, por exemplo, eles são obrigados por lei a sinalizar à Comissão de Valore Mobiliários (Securities and Exchange Comission, em inglês) que eles adquiriram uma participação considerável. Não existe tal obrigação para os que compram RINs.

Assim como JPMorgan, outros grandes bancos minimizam seu envolvimento no mercado, alegando que participam dele principalmente porque suas empresas, por meio de subsidiárias e outros arranjos, têm participação na produção de gasolina e outras energias, e, portanto, são obrigadas a participar do programa federal de combustíveis renováveis.

Até 1999, as regras impediam os bancos de possuir empresas não-financeiras, como as de operações de commodities. Isso prevenia que os bancos fizessem negócios com suas próprias empresas ou seguissem práticas monopolistas em suas operações financeiras, beneficiando suas afiliadas não-financeiras. Separando estas operações, os reguladores acreditavam que também seria possível proteger empréstimos e captação de depósitos, principais atividades dos bancos, de negociações arriscadas por parte das unidades não-finaceiras. Estas restrições caíram no esquecimento quando a Lei Gramm-Leach-Bliley foi aprovada, derrubando as leis bancárias da Depressão. Agora, porém, o Federal Reserve, o banco central americano, está revendo a propriedade de commodities por bancos.

No caso da JPMorgan, os executivos da indústria familiares com as atividades do banco no mercado de RINs disseram que foi um banqueiro do alto-escalão da operação de commodities que comentou sobre o estoque de RINs. Eles afirmaram ainda que o banqueiro revelou que um dos traders do JP Morgan insistiu que o banco comprasse todos os créditos disponíveis. Os executivos falaram em condição de anonimato, temendo que as declarações pudessem prejudicar relações comerciais.

O banqueiro revelou que um dos traders do JP Morgan insistiu que o banco comprasse todos os créditos disponíveis

Por meio de um porta-voz, o banqueiro negou que este diálogo tenha existido. Marchiony, o porta-voz do JPMorgan, caracterizou o relato como um mal-entendido. Ele negou que o banco tenha estocado créditos e disse que as negociações da instituição no mercado de RINs foram uma consequência de uma joint venture com uma refinaria da Filadéfia. "O fato é que nós simplesmente não comercializamos RINs além de um volume marginal para fins de conformidade", declarou.

Morgan Stanley também gera RINs por meio da TransMontaigne, uma subsidiária com 21 instalações de mistura, e negocia os créditos por meio do Mogen Stanley Capital Group. De acordo com documentos oficiais, o maior cliente dos produtos energéticos da TransMontaigne é a unidade de commodities do Morgan Stanley Capital Group, uma trading que funciona na antiga sede da Texaco, em Purchase, NY.

Mark Lake, porta-voz do Morgan Stanley, afirmou que a companhia não se beneficia do aumento pelo que passaram os preços do RINs em 2013. "A obrigação da empresa de comprar RINs como parte da nossa importação e mistura de gasolina superou os créditos que recebemos de nosso negócio por atacado", disse.

Lake se recusou a discutir os estoques de RINs do Morgan Stanley e a dizer se os traders do banco usaram informações de mercado recebidas da TransMontaigne.

Negociar de acordo com informações colhidas com uma subsidiária como a TransMontaigne seria ilegal no mercado de ações, mas não há regras que proíbam a prática no mercado de commodities (Morgan Stanley também detém participação na Heidmar Holdins, de Norwalk, Connecticut, que possui uma frota de petroleiros).

Saule T. Omarova, um professor-adjunto de Direito da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, disse que as atividades sobrepostas do Morgan Stanley ilustram como as grandes instituições financeiras estão profundamente entrelaçadas a todos os aspectos dos mercados de commodities.

"Na cadeia de comércio entre o poço de petróleo e o posto de combustíveis, o Morgan Stanley está claramente acumulando tantas participações quando forem possível, porque é isso que dá a eles a maior flexibilidade de controle", explicou.

"O Morgan Stanley está claramente acumulando tantas participações quando forem possível, porque é isso que dá a eles a maior flexibilidade de controle"

Aproveitando a oportunidade

O mercado de créditos de etanol é exatamente o tipo que Wall Street ama: obscuro, levemente regulado e potencialmente muito lucrativo.

Funcionários da EPA, que inspeciona o mercado, dizem que não há evidência de negociações impróprias, como acumulação. Entretanto, eles não fiscalizam o mercado de RIN como um regulador financeiro faria.

"Se existisse alguma evidência, agora ou no futuro, de que isso está acontecendo, nós podemos corrigir a regulação para reprimir isso", afirmou Christopher Grundler, diretor do escritório de transporte e qualidade do ar da EPA, responsável pelo programa de combustíveis renováveis.

É difícil para grupos externos, e até mesmo outros reguladores, manter o controle do mercado, porque a EPA se recusa a divulgar quem negocia créditos ou quanto é negociado, alegando confidencialidade das refinarias e dos outros participantes.

Negociação é um assunto privado, geralmente discutido por telefone, e praticamente qualquer pessoa pode participar. Na criação do mercado, a EPA declarou que não restringiu o comércio de RINs a refinarias e outras empresas de energia, porque queria incentivar um mercado livre.

Movimentos de preços dos futuros de outras commodities são limitados pelas bolsas em que são negociadas, como uma verificação sobre a especulação. Mas os créditos de biocombustíveis não são negociados em bolsa: seus preços são descontrolados. E, ao contrário do setor financeiro mais amplo, não são necessárias qualificação formal ou licença para que um corretor comece a negociar.

"Há uma mesa para negociação de RINs em qualquer corretora agora", disse Paul Niznik, gerente de biocombustíveis da Har Energy, situada em Houston. "Há pessoas que não tem nada a ver com refinarias que estão comprando e vendendo os créditos como se eles fossem commodities. Eles tratam os RINs como algo que deve ser comercializado".

História dos RINs

A história dos RINs começou em 2005, quando o governo Bush se uniu aos Democratas no Congresso para passar uma lei energética que estabelecesse mandatos para o uso de combustíveis renováveis. Esta lei foi ampliada em 2007 para estabelecer o volume de biocombustíveis que deveria ser misturado à gasolina anualmente até 2022. Este ano, refinarias e importadoras devem misturar 13,8 bilhões de galões de etanol, ante os 13,2 bilhões do ano passado. Para 2014, o volume é de 14,4 bilhões.

Mas as estimativas que o Congresso usou sobre o quanto de gasolina os americanos comprariam estavam erradas. Quando os créditos de biocombustíveis foram criados, a projeção era de que o consumo de gasolina crescesse 6% até 2013. Graças à crise e aos carros mais eficientes, o consumo, na verdade, caiu.

Como resultado, este ano as refinarias começaram a atingir a chamada "parede de mistura", o que significa que o volume de etanol que o governo estabelece que seja misturado à gasolina está bastante próximo do volume máximo que pode ser misturado sem que haja problemas para os postos de combustíveis e para os motoristas.

Distribuir gasolina com maiores porcentagens de etanol é mais caro e corrói as bombas e os tanques de combustível dos postos. Para aumentar o volume de etanol misturado à gasolina seria necessário, portanto, que os postos de todo o país instalassem novos sistemas. Assim, refinarias voltaram-se para os RINs para atingir suas quotas de consumo de combustíveis renováveis determinadas pelo governo ao invés de misturar mais etanol à gasolina.

Algumas pessoas dizem que agentes financeiros previram que isso aconteceria e mergulharam de cabeça no mercado.

"Quando você vê algo mudar rapidamente assim, alguém está acumulando, alguém está comprando e alguém está fazendo muito dinheiro com isso", afirmou o senador Thomas A. Coburn, republicano de Oklahoma, um grande estado petroleiro. Depois que a equipe do senador examinou o aumento dos preços dos RINs neste verão, ele disse que estava preocupado com os gananciosos que estavam apostando nos créditos.

"Quando você vê algo mudar rapidamente assim, alguém está acumulando, alguém está comprando e alguém está fazendo muito dinheiro com isso"

Por enquanto, empresas como a Valero dizem que estão pagando pelos altos preços dos RINs, que ainda estão oito vezes maiores do que em janeiro. Mas analistas do setor, executivos e até mesmo os pesquisadores de bancos de investimento preveem que este custo será repassado ​​para os consumidores, aumentando o preço da gasolina, se não este ano, no próximo ano.

O presidente da PBF Energy compara o resultado a um imposto oculto sobre o público. Ao contrário de outros impostos, que vão para o governo, este vai para os especuladores.

Duplo mergulho nos créditos

Todos os dias, RINs "nascem" em lugares como Fort Lauderdale, Chesapeake e Bainbrigde. Através de uma rede de 45 terminais de combustíveis na região Sudeste, e ao longo dos rios Mississippi e Ohio, unidades TransMontaigne, do Morgan Stanley, mistura e distribui gasolina e outros combustíveis.

Mesmo com base em Denver, TransMontaigne está no centro de uma poderosa operação de energia em Wall Street. Ela entrega 200 mil barris de produtos derivados de petróleo refinado todos os dia, pouco menos do que 2,5% do mercado, e desempenha um papel no mercado do RINs além das negociações de sua empresa-mãe, Morgan Stanley, que a comprou em 2006.

Para os bancos, comercializar RINs para seus clientes pode ser bastante lucrativo. Um grande motivo para isso é que os créditos são muito mais difícil de comprar e vender, porque não são vendidos em bolsas, como as ações. Assim, a diferença entre o preço a que um lado está disposto a vender e o outro está disposto a comprar é excepcionalmente grande. Estas grandes amplitudes se traduzem em boas quantias de dinheiro para quem fizer o papel de intermediário.

Em uma audiência na Comissão de Comércio de Futuros de Commodities, realizada no final de julho, o senhor Mixon, o economista-chefe da comissão, estimou que spreads de RINs eram equivalentes a 4% do valor da transação, o que representa muito mais do que a comissão média na negociação de ações.

Além do Morgan Stanley e do JPMorgan Chase, outros grandes bancos registraram-se na EPA para comercializar créditos, como o Citigroup e o Barclays.

Edward Westlake, um analista do Credit Suisse, disse que muitas instituições financeiras foram além da negociação dos RINS e começaram a misturar combustíveis para originar créditos também. "Construir um tanque e misturar combustíveis não custa muito dinheiro e há pessoas em Wall Street que possuem tanques de mistura e que estão se beneficiando dos RINs", afirmou.

Os departamento de pesquisa dos bancos desperta o interesse dos investidores neste mercado. Goldman Sachs e Bank of America Merrill Lynch publicaram recentemente relatórios otimistas sobre o mercado. Em julho, o Morgan Stanley publicou um relatório prevendo que os preços continuariam subindo RIN - e, eventualmente, causar uma disparada dos preços da gasolina no final deste ano.

Funcionários da EPA não enxergam influência excessiva por parte das instituições financeiras no mercado. Eles acreditam que os aumentos de preços dos RINs deste ano são reflexo da expectativa de que a oferta de créditos fosse pequena, num momento em que os mandatos para combustíveis renováveis estão crescendo, enquanto o consumo de gasolina está caindo. "O mercado espera esta escassez futura, com o contínuo aumento dos mandatos legais", afirmou Grundler.

Outros dizem que os preços subiram principalmente porque a indústria do petróleo se recusou a investir em energia renovável. Jeremy Martin, por exemplo, um especialista em energias limpas da União dos Cientistas Preocupados (Union of Concerned Scientists), disse que muitas das reclamações sobre créditos vêm de agentes do setor que querem ver o fim do programa de combustíveis renováveis.

"O objetivo era mudar o comportamento e havia o entendimento de que, se fosse para ser vinculativo, o preço dos RINs deveria ser próximo a zero", explicou Martin.

Na verdade, mesmo antes de os RINs decolarem, eles haviam se tornado uma questão controversa dentro da indústria de energia. Os produtores de etanol aprovam o Padrão de Combustíveis Renováveis ​​porque, essencialmente, ele garante um mercado para seus produto. Mas as refinarias - particularmente aqueles sem operações para misturar o combustível - consideram as normas como um custo do negócio oneroso e desnecessário.

O impacto nas bombas

Margo T. Oge, que orientou a criação do programa de créditos de etanol, na EPA, disse que os crescentes preços dos RINS – não importa a causa – são boas novas e indicam que os objetivos do programa estão sendo atingidos.

Se os créditos ficam mais caro, explicou ela, as empresas de petróleo e gás têm um incentivo financeiro para optar pela mistura de etanol à gasolina no lugar da compra de RINs. Em contrapartida, isso reduz a importação de petróleo e as emissões de gases do efeito estufa – que foram o motivo inicial para a criação do sistema de créditos.

Oge, que se aposentou da EPA no ano passado e agora atua como professora visitante no Conselho Internacional de Transporte Limpo, um grupo de pesquisa de Washington, afirmou que os RINs nunca deveriam afetar os preços da gasolina nas bombas. Se esta for a consequência da alta dos preços deste ano, como preveem muitos analistas do setor de energia, isso seria um resultado indesejável.

"A última coisa que queríamos quando implementamos o programa era aumentar os preços para os consumidores", disse.

"A última coisa que queríamos quando implementamos o programa era aumentar os preços para os consumidores"

Além do provável aumento nos preços da gasolina, os críticos do mercado RINs dizem que ele é profundamente falho, e eles não compartilham o otimismo da Sra. Oge sobre o frenesi do mercado deste ano.

Primeiramente, permitindo que qualquer pessoa negociasse os créditos, até mesmo aqueles que não têm qualquer interesse em energia, a EPA encorajou a especulação, afirmam os críticos. Além disso, o mercado opera principalmente "no escuro", o que o deixa vulnerável à manipulação. Por último, e talvez a crítica mais significante, o mandato de mistura significa que as empresas de petróleo são "compradoras cativas" – em outras palavras, elas precisam comprar créditos quando não querem ou não conseguem misturar etanol à gasolina -, um fato que os traders experientes usam em seu favor.

"O problema que a EPA teve foi que eles abriram o Mercado para quem quisesse comprar e vender, mas restringiram a obrigação de compra às refinarias e importadoras", explica Lawrence J. Goldstein, o ex-presidente da Fundação de Pesquisa da Indústria do Petróleo (Petroleum Industry Research Foundation), um grupo bipartidário sem fins lucrativos.

Analistas e agentes do setor dizem que o mercado é vulnerável a práticas questionáveis, como short queezes, em que os preços têm uma rápida alta, causadas por quem detém os créditos.

"Qualquer pessoa que participe deste mercado tem a oportunidade de influenciá-lo", disse David J. Hackett, presidente da Stillwater Associates, uma consultoria de energia para transporte. "Quer se trate de um fundo de hedge ou de uma refinaria ou de um produtor de etanol, eles tendem a impulsionar o mercado em direções que são benéficas para seus próprios objetivos".

"Qualquer um pode ter 1, 2 ou 5% do mercado de RINs e estar esperando para vendê-los para ter ganhos explosivos. E eu me pergunto, quem está marcando os pontos?"

Uma análise feita pelo The New York Times dos participantes do mercado registrados na EPA identificou diversas pessoas com passados turbulentos, inclusive um que foi acusado de coordenar um esquema de pirâmide e outro que se declarou culpado de armazenamento de resíduos tóxicos.

O mercado RINs saiu da fervura recentemente, mas, a 60 cents cada, os créditos ainda custam muito mais do que no começo do ano. Enquanto a EPA diz que o mercado está bem, W. David Montgomery, economista do Nera Economic Consulting, unidade da Marsh & McLennan, afirma que a agência deve instituir uma fiscalização.

A EPA discorda, mas revela que está considerando disponibilizar mais dados referentes a quem negocia e possui RINs, além de ter instituir um sistema de certificação voluntário para participantes do mercado.

"Estamos testando ações como fazer o update dos dados do sistema de transações com mais frequência e divulgar mais informações sobre o volume produzido", disse Grundler, da EPA. "Todas estão ligadas à ideia de aumentar a confiança no mercado e a adesão ao programa, que é nossa maior preocupação".

Mas Tom Kloza, analista do Serviço de Informação dos Preços de Petróleo (Oil Price Information Service), uma das principais fontes sobre preços de petróleo, afirmou que o potencial para abuso do mercado não desaparecerá sozinho.

"Você poderia facilmente ter uma empresa intermediária acumulando milhões de RINs", declarou Kloza. "Qualquer um pode ter 1, 2 ou 5% do mercado de RINs e estar esperando para vendê-los para ter ganhos explosivos. E eu me pergunto, quem está marcando os pontos?"

Gretchen Morgenson e Roberto Gebeloff (The New York Times)
Tradução: Vivian Faria – NovaCana
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