Por Lívea Coda*
Na semana passada, uma série de fatores impactaram os preços do açúcar. Da geopolítica ao clima, o adoçante superou o nível de resistência de 27 centavos de dólar por libra-peso apenas para corrigir dois dias depois, após o relatório da União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia (Unica) mostrar excelentes resultados na moagem do Centro-Sul.
Do lado dos fundamentos, a situação permanece inalterada: o Brasil segue com uma colheita excelente, a Índia não deverá exportar e países como a Tailândia e o México reforçam tendências de alta. Porém, tanto a Europa Ocidental como a Oriental contribuem para uma perspectiva mais moderada.
À medida que o Brasil se aproxima de sua entressafra e da sua estação mais chuvosa (mais dias perdidos), espera-se que o ritmo de moagem diminua, acrescentando suporte aos preços. No entanto, é importante notar que a recente volatilidade do mercado não pode ser atribuída apenas a estes fatores.
A escalada das tensões geopolíticas foi a principal razão por trás do aumento dos preços na semana passada. Contudo, o adoçante é afetado por forças opostas: ao mesmo tempo que a tendência ascendente do mercado energético ganha força, a percepção de risco de mercado também aumenta.
É comum que em tempos de tensões geopolíticas, os investidores, principalmente os especuladores, busquem ativos mais estáveis, como o próprio dólar e o ouro, como forma de proteção financeira. Este movimento pode desencadear perdas significativas em mercados considerados mais voláteis, possibilitando uma correção no posicionamento dos fundos. Neste caso específico, pela importância da região para o complexo energético e para o transporte marítimo, o açúcar ainda pode encontrar suporte.
A crescente procura de petróleo para armazenamento e possivelmente o mesmo movimento nos mercados de alimentos básicos são as principais forças que combatem a percepção de risco. A disparada no preço das commodities energéticas acaba desencadeando uma tendência de alta ao afetar toda a cadeia produtiva do açúcar.
Apesar da possibilidade de repercutir diretamente no preço do etanol no mercado interno brasileiro, e sim, este deve responder aos desdobramentos do conflito, o mercado internacional de açúcar continua apertado em termos de disponibilidade.
Isso significa que a resposta natural do etanol não deve induzir qualquer redirecionamento de matéria-prima para o biocombustível no país, tanto no curto quanto no médio prazo. Assim, essa tendência daria ainda mais suporte para os preços do açúcar, possivelmente combinando forças com o início da estação chuvosa no Brasil.
No entanto, existe um limite para a reação do biocombustível. Devemos lembrar que a alta disponibilidade de matérias-primas utilizadas na produção de etanol no Brasil (cana e milho) tem impedido qualquer redução significativa nos seus estoques, apesar do aumento da demanda por combustíveis.
Além disso, o compromisso do governo brasileiro com a redução dos preços nas bombas pode evitar que a volatilidade internacional atinja abruptamente o mercado interno do país. Portanto, o etanol não deve ser responsável por um grande impacto nos preços do adoçante, o que significa que o sentimento de risco luta diretamente contra o efeito de repercussão (spillover) do petróleo e os fundamentos de curto e médio prazo do açúcar.
É claro que a escalada da tensão geopolítica pode abalar todo este cenário. Atualmente, existe uma incerteza crescente sobre até que ponto países produtores de petróleo como o Irã poderão envolver-se e potencialmente impactar o fornecimento global de petróleo à medida que a guerra se intensifica.
Esta visão fez os preços do petróleo subirem em quase 4% na última sexta-feira, induzindo ganhos em todo o quadro de commodities, com o açúcar a registar um aumento de quase 2% na semana. Por outro lado, o Índice Dólar permanece bastante forte acima de 106.
Espera-se que esta volatilidade persista. Lamentavelmente, a intensificação de tensões geopolíticas ampliou ainda mais a instabilidade do mercado. Dada a tendência já de alta de curto e médio prazo no mercado de açúcar, pelo menos até que a safra 2024/25 do Brasil entre em ação, os preços do adoçante devem seguir sustentados. Contudo, se a percepção de risco aumentar, especialmente na ausência de sinais positivos de recuperação da economia dos EUA, o mercado poderá testemunhar vendas especulativas (selloffs).
* Lívea Coda é coordenadora de inteligência de mercado na hEDGEpoint Global Markets
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