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[Entrevista] Vice-presidente da Abiogás: “Usinas nos buscam, mas poderiam vir mais”

Gabriel Kropsch aponta os principais desafios e potencialidades do biogás e do biometano para as sucroenergéticas

NovaCana 9 min de leitura

Observando um potencial crescente, os produtores de cana-de-açúcar têm investido cada vez mais na fabricação de biogás e na sua purificação para biometano. Geração de energia elétrica, uso do biocombustível em frota própria e venda do gás para fornecedores são os principais destinos dos produtos que nascem dos resíduos da cana, como palha, torta de filtro e vinhaça.

Nos dias 3 e 4 de maio, aconteceu a primeira edição do Geo Day, evento promovido pela Geo Biogás e Tech, para divulgar informações sobre a produção de biogás e biometano no setor sucroenergético. Nesta oportunidade, o vice-presidente da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Gabriel Kropsch, conversou com o NovaCana sobre as principais estratégias de produção e comercialização destes produtos, o potencial de crescimento para as usinas e os impactos no RenovaBio.

Além disso, durante a sua apresentação, Kropsch detalhou que, dentro do potencial brasileiro de produção de biogás, a maior parte está nas sucroenergéticas, com 57,6%, seguidas por proteína animal (38,9%), produção agrícola (18,2%) e saneamento (6,1%).

A entrevista – publicada originalmente na newsletter NC+, exclusiva para assinantes do portal – pode se lida a seguir. Para acessar, faça seu login.

Observando um potencial crescente, os produtores de cana-de-açúcar têm investido cada vez mais na fabricação de biogás e na sua purificação para biometano. Geração de energia elétrica, uso do biocombustível em frota própria e venda do gás para fornecedores são os principais destinos dos produtos que nascem dos resíduos da cana, como palha, torta de filtro e vinhaça.

Nos dias 3 e 4 de maio, aconteceu a primeira edição do Geo Day, evento promovido pela Geo Biogás e Tech, para divulgar informações sobre a produção de biogás e biometano no setor sucroenergético. Nesta oportunidade, o vice-presidente da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás), Gabriel Kropsch, conversou com o NovaCana sobre as principais estratégias de produção e comercialização destes produtos, o potencial de crescimento para as usinas e os impactos no RenovaBio.

Além disso, durante a sua apresentação, Kropsch detalhou que, dentro do potencial brasileiro de produção de biogás, a maior parte está nas sucroenergéticas, com 57,6%, seguidas por proteína animal (38,9%), produção agrícola (18,2%) e saneamento (6,1%).

A entrevista – publicada originalmente na newsletter NC+, exclusiva para assinantes do portal – pode se lida a seguir.

O biogás pode ser usado tanto para produção de energia elétrica quanto convertido em biometano. O que é mais vantajoso?
Como toda boa pergunta, a resposta é sempre a mesma: depende. Por um lado, a geração de energia elétrica ou a comercialização desta energia já está muito mais difundida como um mercado, enquanto a comercialização de biometano está começando. São várias plantas já em operação, mas a venda da eletricidade avançou mais rápido e começou antes. Ela tem uma determinada característica de talvez ser mais fácil e mais rápida a interligação de uma unidade produtora com o sistema de distribuição. Hoje, tanto em termos de tecnologia, de equipamentos, quanto em termos jurídicos, é uma atividade plenamente dominada, são centenas de unidades produtoras que geram energia, conectam à rede, distribuem, fazem a comercialização. Além disso, há várias opções de venda, seja via leilão, vida GD [geração distribuída] ou mercado livre. Está muito mais pacificado e os caminhos são mais claros e eventualmente são mais rápidos.

E o biometano?
É um mercado que ainda está em uma fase anterior, em uma curva de desenvolvimento. O investimento para produção de biometano é adicional ao investimento na geração de energia, portanto, maior. É um mercado que, pela própria natureza da comercialização de um biocombustível, tem uma rampa de crescimento mais lenta. Na energia, a partir da conexão já está se vendendo; no biometano, o crescimento no volume de vendas é mais lento como em qualquer combustível ou biocombustível. Demora para construir uma rede de distribuidores ou consumidores finais.

Já em termos de preço, como é o cenário?
A energia tem uma variação de preço. Já vimos energia de R$ 80 e de R$ 800. Não é um mercado estável e tem uma maneira de funcionamento. O biometano, como entra no mercado como um combustível alternativo aos tradicionais, terá que ser competitivo e vai sofrer com estas variações do preço do petróleo e do câmbio que são diferentes das variações da energia. Em determinado momento, talvez a energia traga uma rentabilidade maior do que o biometano, em outro momento isso pode se inverter. Depende não só da situação do produtor do biogás, mas também de fatores como a quantidade de gás que está sendo gerada, onde ele está, se está próximo a uma conexão de distribuição de energia ou a um centro consumidor de biocombustível. O tipo do produtor, a escala de produção potencial, a localização do mercado: todos são elementos importantes. Além disso, o momento é relevante, tendo épocas que um ou o outro valem mais. De modo geral, como o biometano está substituindo combustíveis fósseis derivados do petróleo, há a oportunidade de ganho maior tanto em termos econômicos, de preço, quando em termos ambientais, substituindo as energias fósseis.

Você acredita que mais gasodutos serão construídos, para que a distribuição do gás seja menos centralizada?
Em termos de logística, há a possibilidade do autoconsumo, com o próprio produtor do biometano consumindo todo este biocombustível ou parte dele. Mas, normalmente, em todos os projetos em que há produção de biogás, o potencial de produção de biometano é maior do que o consumo do produtor. Existe este excedente que ele pode despachar por modal rodoviário ou por meio das redes de gasodutos. Também vai depender da escala e da localização. Estando próximo de um duto, torna-se atrativo fazer essa conexão. Não há dúvidas de que o modal rodoviário é muito mais interessante, é competitivo, tem uma implementação rápida, com poucos meses para a unidade produtora comercializar, mas existe uma limitação em função do aspecto logístico, do número de caminhões e do atendimento dos clientes no entorno.

A entrega por dutos é menos limitada.
Exato. O modal dutoviário não tem essa limitação de volume em princípio: o que tiver de produção pode ser injetada na rede de gás e distribuída. A possibilidade de volume é muito maior. A implementação rodoviária é mais rápida, mas eventualmente pode bater em um teto desta distribuição, enquanto no dutoviário a implementação é mais longa, é um investimento mais elevado, mas há a possibilidade de produzir o biometano em São Paulo e vender para um cliente no Ceará ou no Rio Grande do Sul. Isso já é permitido pela lei federal. Tem não só um potencial de mercado a nível nacional, além de um fluxo maior por meio do gasoduto. Não há dúvidas de que o modal dutoviário vai trazer uma possibilidade de crescimento muito maior aos produtores. Se fossemos depender apenas da exportação de biometano e da comercialização por meio do modal rodoviário, teríamos um potencial muito menor. Eu acredito muito nestes projetos iniciais por meio das rodovias, mas com uma migração ao longo do tempo, com o desenvolvimento dos projetos e amadurecimento do próprio mercado, uma migração para este modal de injeção no duto e distribuição via rede de gás canalizado.

As usinas de cana-de-açúcar conseguiram se capitalizar nas últimas safras, estão em um ciclo de alta, aumentando a captação de crédito. O que falta para investir mais em biogás e biometano?
É um pouco sobre as usinas conhecerem o biogás. O biogás ainda é desconhecido e existe um trabalho na associação em que falamos de educação, já que ninguém nasce sabendo todas as tecnologias. Existe um trabalho de publicidade. Quanto mais projetos tivermos em funcionamento – e projetos de sucesso –, mais as pessoas estarão interessadas e irão buscar informações. O papel da associação é dar esse suporte de o que fazer, com quem falar, quais são as tecnologias, quem são as empresas, os fabricantes e os desenvolvedores de negócio. A associação tem um viés institucional, da parte regulatória e de legislação, e outro viés na promoção e no desenvolvimento dos negócios, de trazer informações e compartilhar experiências com as empresas. É uma questão de tempo. Os projetos estão acontecendo, são valores grandes de investimento, mas não são de longa maturação quando comparados a projetos na indústria do petróleo, que têm ciclos de seis, oito e às vezes até dez anos do momento que se toma a decisão de investir até o momento que começa a produzir. No biogás, estamos falando de projetos de um ano e meio a dois anos. É relativamente rápido considerando um projeto de infraestrutura de energia. Acreditamos que nos próximos anos terá uma subida muito forte com os projetos que foram anunciados e outros que estão em desenvolvimento.

As usinas vão até vocês para ter essas conversas?
Vêm, mas poderiam vir mais. O saldo entre o consumo próprio e o potencial de produção é gigantesco. Sempre tem mercado no entorno das usinas. São regiões muitas vezes industrializadas ou próximas de centros urbanos que têm essa demanda pelo biocombustível. Por isso falamos que é muito competitivo, pois muitas vezes as usinas estão longe de onde tem a produção do derivado de petróleo.

E também é uma diversificação da receita.
É mais uma fonte de receita. Antigamente, era só açúcar. Aí passou a ser açúcar e etanol, depois energia. Agora será tudo isso, com biogás e biometano.

Algumas pessoas comparam o ciclo de desenvolvimento da cogeração com como será o ciclo do biogás. Você vê isso?
Acreditamos que as usinas vão entrar em um ciclo de desenvolvimento, é uma questão de conhecimento, de confiabilidade e de segurança do investidor em relação à tecnologia, modelo de negócio, parte regulatória e jurídica. Entendemos que essa base já está colocada e é uma questão dos projetos começaram a operar, mostrarmos esse sucesso e cada vez mais empresas vão vir.

Em relação ao RenovaBio, o biometano teria as menores emissões de CO2. Como vocês veem esse mercado de créditos?
O interessante no caso das usinas é que, gerando biometano, a usina ganha duas vezes. Não só vai gerar CBios que poderá comercializar no mercado como já faz com o etanol, tendo uma quinta fonte de renda, como também pelo fato dela produzir o biometano e utilizar ele no próprio processo produtivo em caminhões e máquinas. Com isso, ela melhora a nota de produção do etanol, gerando ainda mais crédito. É um círculo virtuoso onde, quanto mais se investe na eficiência energética, maior será a nota e a geração de créditos. É um caso único. Todos podem produzir biometano, gerar CBios e vender. Mas a usina tem uma oportunidade que é ímpar de aproveitar a produção de biometano no próprio processo produtivo e aumentar a quantidade de CBios que pode gerar na produção de etanol, aumentando a nota dela.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
Repórter viajou a Londrina a convite da Geo Biogás e Tech

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