“O problema, talvez, esteja aí, na demora do setor em utilizar estes novos pacotes de cultivares, estas novas tecnologias. A nossa visão como instituto é que o setor precisa de sistemas de multiplicação mais rápidos, e é aí que entra o MPB”
Desde o lançamento das mudas pré-brotadas (MPB) pelo Instituto Agronômico (IAC), o interesse por esta opção — que permite a multiplicação rápida de viveiros com qualidade e uniformidade — não para de crescer. O sucesso da inovação ganhou o mundo e com a utilização da novidade em larga escala por importantes grupos do setor sucroalcooleiro novos desafios e oportunidades apareceram para o sistema.
Em entrevista ao portal NovaCana no Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio de Cana, em Ribeirão Preto (SP), o pesquisador do IAC, Mauro Alexandre Xavier, comenta as vantagens do sistema, as novidades da pesquisa e a visão do instituto em relação ao futuro da tecnologia e do plantio de cana-de-açúcar.
Pioneiro nas pesquisas com cana-de-açúcar no Brasil, com experimentos que datam de 1892, o Instituto Agronômico (IAC) mudou o conceito de plantio de cana-de-açúcar, que é feito da mesma forma há séculos, desde que a planta começou a ser produzida no país.
A novidade, aparentemente “simples”, consiste em transformar a gema da cana-de-açúcar em planta.
A tecnologia que permite a rápida multiplicação de viveiros sadios, associando um alto padrão de fitossanidade e corrigindo problemas de desuniformidade no plantio, começou a ganhar força em 2009, época em que o IAC, após uma decisão interna, resolveu não mais entregar colmos como “sementes”. O motivo? Uma praga, o bicudo da cana-de-açúcar (Sphenophorus Levis), que até meados da década de 1980 atingia os canaviais da região de Piracicaba (SP), ganhou força no estado e com o tempo se espalhou por diversas áreas produtivas, chegando a estados como Minas Gerais e Paraná. A tecnologia surgiu da necessidade de entregar um material não convencional de colmos, a fim de evitar a disseminação da doença.
“Desde então, temos desenvolvido o MPB”, contextualiza o pesquisador do IAC e um dos responsáveis pelo sistema de mudas pré-brotadas, Mauro Alexandre Xavier.
Em uma das salas do Centro Avançado de Pesquisa Tecnológica do Agronegócio de Cana, em Ribeirão Preto (SP), o melhorista genético explica que a tecnologia pode aumentar a eficiência e os ganhos econômicos na implantação de viveiros, replantio de áreas comerciais e possivelmente renovação e expansão de áreas de cana-de-açúcar.
“[O MPB] não vai salvar a canavicultura brasileira, mas é a possibilidade de contribuir e aperfeiçoar o sistema de produção de cana no Brasil”, argumenta.
O sistema envolve a formação de viveiros para a produção de mudas sadias, com alto padrão de fitossanidade.
Diferentemente de outros produtos, como o Novo Plene da Syngenta, voltado ao plantio direto em escala comercial, o MPB foi desenvolvido para a formação de viveiros. “Não é uma tecnologia pronta para o plantio comercial. O MPB resolve um problema que está na base do processo, que é a formação de viveiros para a produção de mudas de qualidade, voltadas ao plantio comercial”, esclarece Xavier.
Outra finalidade do sistema é a correção de falhas no plantio. “Com isso, temos a possibilidade de promover padrão e uniformidade no plantio da cana-de-açúcar, e é este padrão [de qualidade] que será transferido lá para o campo. Com isso, você acaba interferindo positivamente num defeito gravíssimo do plantio hoje, que é a falta de uniformidade nos canaviais”, aponta.
Gargalos no plantio convencional
O plantio convencional da cana-de-açúcar, por meio de colmos “semente”, apresenta alguns gargalos.
Um deles é a incapacidade de corrigir os chamados fatores de desuniformidade, como por exemplo, a idade das gemas – as gemas de um mesmo colmo de cana apresentam idades diferentes -, os danos mecânicos (gemas trincadas), pragas e o efeito da isoporização, que desidrata o colmo do cana.
Além disso, o método tradicional também é responsável por um consumo considerável de mudas.
Gigantes do setor como a Odebrecht Agroindustrial chegam a desviar mais de 1 milhão de toneladas de cana das nove usinas do grupo para a produção de mudas. Quantidade ainda maior é desviada pela Raízen Energia, a maior do país em capacidade de moagem, com 24 usinas.
Outro “erro grave” no plantio convencional é a “utilização da cana que deveria estar dentro da indústria para a fabricação de açúcar e etanol como material de propagação vegetativo”, aponta o pesquisador do IAC.
No sistema de multiplicação desenvolvido pelo instituto, o plantio para a formação de viveiros ocorre a partir de plântulas que passam por um rigoroso processo de controle, seguindo uma série de protocolos, como a utilização de termoterapia, diagnóstico para diferentes doenças e pragas e outros importantes quesitos para a produção de mudas sadias.
As “plantas” são produzidas na biofábrica de Ribeirão Preto. O núcleo de produção de mudas pré-brotadas (MPB) tem capacidade para produzir, em média, 300 mil mudas pré-brotadas (MPB) por ano, e 350 mil seddlings – primeira etapa de produção de plântulas no processo de desenvolvimento de uma nova variedade de cana-de-açúcar.
Processo
No lugar dos colmos utilizados como sementes no plantio convencional são plantadas as mudas pré-brotadas, feitas a partir de pequenos cortes, chamados de minirrebolos. Nestes minirrebolos ficam as gemas, a estrutura de brotação da cana. Após passar por uma seleção visual e receber um tratamento a base de fungicida, estes pedaços de cana são colocados em caixas de brotação, com temperatura e umidade controladas. Ao final do processo, vão para tubetes que passam por duas fases de aclimatação. Todo este ciclo dura 60 dias.
Menos mudas, maior taxa de multiplicação
Uma das já conhecidas vantagens do sistema – talvez a mais impressionante delas - é a redução no consumo de mudas.
Com base em pesquisas realizadas pelo IAC, Xavier explica porque o MPB pode ser considerado um sistema de multiplicação rápido.
“A partir de 1 tonelada de cana, conseguimos obter 6.550 minirrebolos. Dentro do processo de produção, com tempo e insumo [adequados], com a utilização de fungicida e considerando uma perda de 15%, em dezembro de 2012 não tínhamos mais 6.550 minirrebolos, mas 5.312 plântulas. Estas 5.312 plântulas, num espaçamento de 0,50 cm entre planta e 1,50 m entre linhas, possibilitou o plantio de 2.656 metros de linha ou 0,4 hectares”, calcula.
Em outras palavras, com o MPB, não é mais necessário gastar 18 toneladas de cana para plantar 1 hectare, mas apenas 2,5 toneladas, uma redução superior a 86%.
“Estes dados são conservadores. Se você fizer o uso de uma variedade de cultivar de internódio curto e diâmetro fino, esta conta inicial vai para 10.000 minirrebolos, o que mudará, também, o resultado final”, pontua.
“O fato é que você chega em fevereiro, 17 meses depois de iniciado o processo, com mudas o suficiente para fazer o plantio de 290 hectares. Então, este é um sistema de multiplicação rápido, acelerado”, diz.
“A taxa de multiplicação é muito mais rápida. Ela pode chegar até a 1:76. A taxa de multiplicação hoje no sistema tradicional é 1 para 4, 1 para 5. Estamos falando de mudar de 1:5 para 1:76. É muito mais dinâmico”, acrescenta.
Os efeitos desta mudança de paradigma no plantio da cana-de-açúcar também podem ser sentidos na área logística. A título de comparação, um caminhão modelo Cargo 2628 pode transportar 51.300 plântulas, o que corresponde a 3,9 hectares de área plantada, uma vez que são necessárias 13.334 plântulas ou MPBs para o plantio de 1 hectare de cana-de-açúcar.
Adotado por importantes grupos do setor, como a Usina São Martinho, Raízen, Jalles Machado, Abengoa, Denusa, Grupo Zilor, Grupo Andrade, Usina Boa Vista, Usina Miriri e Odebrecht Agroindustrial, o sistema também agiliza a adoção de novos cultivares.
Dados do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) apontam que o tempo médio para cada variedade atingir ao menos 5% da área de cana do estado é de 18,7 anos. Com o sistema MPB, no entanto, é possível reduzir este tempo para 17 meses.
“O problema, talvez, esteja aí, na demora do setor em utilizar estes novos pacotes de cultivares, estas novas tecnologias. A nossa visão como instituto é que o setor precisa de sistemas de multiplicação mais rápidos, e é aí que entra o MPB”, considera o agrônomo.
O pesquisador argumenta que a cultivar deve ser encarada como uma tecnologia e defende uma interação maior entre quem está desenvolvendo estas novas variedades e quem vai usá-las no campo.
“Há mais de 80 variedades liberadas nos últimos dez anos. Conhecer 80 é uma coisa, agora conhecer quatro ou cinco, é outra. Talvez estejamos com o olhar das quatro, cinco, quando, na verdade, temos 80”, diz.
“Falta sinalizar melhor a importância da cultivar. Ela é uma tecnologia, e deve ser encarada como tal. Deveria ser tão importante assim como a sociedade encara o lançamento de um notebook ou automóvel. A cultivar, a planta, é a nossa tecnologia. Se tivermos este pensamento, aí passaremos a olhar de forma diferente para ela”, destaca.
Novos mercados
Por ser um instituto de pesquisa da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), ligada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o IAC não comercializa mudas de MPB. Conforme esclarece a entidade, sua missão é “gerar e transferir tecnologias para a cadeia produtiva”.
Mesmo não tendo a mesma vocação comercial que outros centros de pesquisa em cana-de-açúcar, como o CTC, o sistema de multiplicação de mudas do IAC já ganhou o mundo e tem despertado o interesse em países como a Costa Rica, Peru, Paraguai, Austrália, África do Sul, Estados Unidos, México e países asiáticos.
A Odebrecht Agroindustrial, por exemplo, é um dos grupos do setor que está utilizando a novidade em usinas fora do Brasil. A Companhia de Bioenergia da Angola (Biocom), joint venture entre a Odebrecht e a estatal petroleira Sonangol, já plantou 22 hectares de cana-de-açúcar com o MPB no município de Cacuso, na província de Malanje, e a expectativa da empresa é plantar outros 150 hectares utilizando a tecnologia a partir da safra 2015/16.
Neste período, espera-se que a área produtiva da Biocom salte para um volume de dois milhões de mudas por ano, quantidade suficiente para plantar cerca de 150 hectares de cana.
Sem um plano de negócios para atingir outros mercados, Xavier esclarece que o MPB foi desenvolvido, num primeiro momento, para atender as necessidades do setor de açúcar e etanol brasileiro.
“Não temos, por assim dizer, um plano de negócios para atingir outros mercados, nem é esse o foco. Nosso objetivo é desenvolver este sistema de uma forma bem ampla, a fim de poder fazer várias caracterizações do sistema de produção a partir das mudas pré-brotadas. Num primeiro momento, o nosso foco é o setor nacional, mas sabemos que não temos muito controle sobre isso. Se é uma boa ideia, se é um bom produto, isso naturalmente rompe as fronteiras, e é bom que seja assim”, avalia.
Para o pesquisador do IAC, é só uma questão de tempo para que o setor sucroalcooleiro como um todo perceba os benefícios da técnica, especialmente se for considerado o aspecto qualidade das mudas.
“Pelas sinalizações, pela participação de colegas em fóruns e congressos do setor, a repercussão do MPB tem sido muito interessante”, admite.
Desafios
Embora a tecnologia tenha sido difundida amplamente no setor, pouco se sabe sobre os custos envolvidos no processo e o retorno previsto para este tipo de investimento.
Em usinas como as da São Martinho, o custo de produção das mudas é de R$ 0,14. Boa parte destes gastos, considerados pelo grupo como “custos diretos” - cerca de 59% - têm a ver com a mão de obra, enquanto que os insumos necessários para iniciar o sistema de produção de MPBs respondem por 39% dos custos estimados.
Outra interrogação quanto ao sistema é o uso de maquinários. Segundo o IAC, a plantadeira em uso no MPB é muito mais barata que as utilizadas no sistema convencional e há, inclusive, produtores usando máquinas que plantam eucalipto.
Questionado sobre possíveis parcerias entre o IAC e fabricantes de máquinas e implementos agrícolas, Xavier disse apenas que “as áreas de desenvolvimento dos fabricantes estão se mexendo para trazer estas opções ao setor”.
“O setor está se movimentando. Onde houver demanda, o setor irá atrás. Acredito que estamos chegando a este ponto. O setor já percebeu que esta é uma tendência. As áreas de desenvolvimento dos fabricantes estão se mexendo para trazer estas opções para o setor. O IAC tem o seu centro de engenharia de automação, que trabalha em conjunto com o Programa Cana, e isso está ficando mais próximo, mais em função do MPB. Então, há uma movimentação para oferecer esta opção ao setor”, completa.
Para saber mais: Sistema de multiplicação de cana-de-açúcar com uso de mudas pré-brotadas
Detalhes sobre como desenvolver o sistema: Fatores de desuniformidade e kit pré-brotação IAC
Leonardo Siqueira – NovaCana