Por associação de ideias, a máxima segundo a qual "se dirigir, não beba", cai como luva à produção de álcool carburante ou etanol, tal como é mais conhecido depois que o combustível recebeu no primeiro governo Lula o status de salvação, se não da lavoura, da autonomia energética do país. Fora a segunda reencarnação desde 1975, quando o então Proálcool surgiu em resposta à crise do petróleo, e sumiu. A terceira reabilitação surge agora, com outra rodada de estímulos ao produtor de cana-de-açúcar, para recuperar a oferta de matéria-prima, e ao consumo de etanol na antiga competição com a gasolina.
A presidente Dilma Rousseff revogou o que decidira ao fim de 2011, aumentando de 20% para 25% a mistura de álcool anidro à gasolina. Também foi decidido dar ao produtor um crédito tributário em igual valor ao que é cobrado de PIS/Cofins, R$ 0,12 por litro, zerando, mas não eliminando, a tributação, além de duas linhas de crédito do BNDES — uma para a renovação dos canaviais e outra para estocagem. Trata-se de aditivo a um setor vítima da ciclotimia dos governos de turno e até do próprio produtor. Errante como passo de bêbado, o álcool sempre lutou contra forças poderosas — seja do petróleo ou do açúcar, passando pelo lobby ambiental, para o qual os canaviais ocupam terras destinadas à produção de alimentos. Menos por isso e, sim, pelas oscilações no mercado internacional do preço do açúcar e do petróleo o etanol tem sido uma espécie de energia bastarda.
A primeira onda do etanol terminou nos anos 1990, deixando na mão os proprietários de carros a álcool (numa época em que não havia o motor flex), devido a interesses rasteiros: usineiros, de um lado, atraídos pelo preço alto do açúcar, não sobrando cana para mais nada; e Petrobras, de outro, encharcada de petróleo barato, depois dos embargos liderados pelo cartel da OPEP, em 1973 e em 1979.
O etanol foi reabilitado com a chegada de Lula ao governo por uma confluência de eventos favoráveis ao rival da gasolina: o mercado automotivo estava na lona, o presidente tinha origem sindical em São Bernardo, berço das montadoras (então e ainda o carro-chefe da produção industrial) e a economia precisava pegar no tranco. Lula apoiou a produção de motores flex, cuja tecnologia já estava pronta desde 1995, dando garantia de mercado ao etanol antes enjeitado.
Quando até a OPEP tremeu
Entusiasmado, Lula propôs ao então presidente George W. Bush, em 2007, durante visita ao Brasil, uma parceria para o etanol ganhar o mundo, começando pela formatação do combustível como commodity, tal qual o petróleo. Os EUA, maiores produtores de álcool, embora de milho, ficaram reticentes, mas o evento precipitou uma campanha de difamação do etanol no mundo, movida por ambientalistas. O próprio secretário-geral da OPEP reclamou, temendo pelo futuro do petróleo.
Mal sabiam que era fogo de palha, como as queimadas de canaviais, marcando a segunda morte do etanol como opção superior ao petróleo, pela abundância no Brasil e por poluir menos que a gasolina, quando já havia acordos internacionais para cortar as emissões de CO2.
O pré-sal aguou o etanol
O pré-sal se confirmou, seduzindo o governo; o preço do açúcar deu outro salto cíclico no mercado internacional; o preço do hidratado disparou nas bombas, ajudando a inflação a encostar ao teto da meta em 2011, 6,5% — e só não a superou graças a ardis, entre outros, a redução de 25% a 20% da mistura do álcool à gasolina. Antes, como agora, a inflação atravessa o que deveria ser pensado com visão estratégica e de longo prazo. O ministro Guido Mantega, na entrevista depois do anúncio do apoio ao setor sucroalcooleiro, falou do suporte do etanol para conter as pressões inflacionárias. A ver. O setor já estava em crise ao ser punido em 2011, devido ao endividamento contraído para ampliar a produção antes da descoberta do pré-sal e da crise de 2008, e nunca mais se recuperou.
O socorro pode ser tarde
O colapso do crédito global arruinou as usinas, algumas fecharam, outras foram desnacionalizadas e, como diz nota da Unica, entidade do setor, "30% das empresas" continuam com dívidas elevadas, o que dificulta o acesso às linhas de crédito abertas no BNDES. Tem mais: segundo a Unica, a suspensão do PIS/Cofins é "compensação parcial para a desoneração concedida à gasolina com a eliminação da Cide, (uma taxa regulatória), sem contrapartida para o etanol".
O socorro ao etanol é bem vindo, segundo o empresariado do ramo. Mas pode ter chegado tarde. E nem teria sido necessário, se, como nos EUA, que marcham para a autossuficiência em petróleo e gás sem abandonar a pesquisa de biocombustíveis e a produção de álcool de milho, o etanol de cana, especialmente de terceira geração, muito mais produtivo, merecesse a mesma prioridade atribuída ao pré-sal.
Assobiar e chupar cana
Sem que a formulação da política energética trate o etanol como um combustível perene em paralelo ao desenvolvimento do pré-sal, o que implica assobiar e chupar cana, literalmente, tudo ao mesmo tempo, tal como nos EUA, continuarão as dúvidas sobre mais este revival. Nem é a inflação o que preocupa, mas os prejuízos da Petrobras ao importar gasolina a preço maior do que pode vender no mercado — e o faz pela incapacidade de refino diante da demanda de uma frota que cresce ao ritmo de 6% ao ano. E assim será até o fim da década.
Este é o contexto da volta do etanol: como apêndice da matriz dos combustíveis. Ou não? É o que vai balizar a intenção dos usineiros: se o etanol volta pelos seus atributos ou só pelas dificuldades da Petrobras. O convencimento é crucial, até por envolver um negócio questionado em toda parte pelo viés de queda do consumo de açúcar.