
Vinícola Terras Altas, com prédios de Ribeirão Preto (SP) ao fundo
A paisagem agrícola dominada por fileiras intermináveis de cana-de-açúcar ganhou uma companhia nova em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Em meio a um cultivo já consagrado, pequenos vinhedos começaram a ganhar espaço como alternativa de investimento no agronegócio na região. E, segundo seus idealizadores, têm sido até mais rentável do que o açúcar.
Apesar de uvas viníferas serem uma cultura mais trabalhosa e dependente de mão-de-obra humana, “a rentabilidade cobre esse excesso de trabalho”, disse o diretor da Vinícola Terras Altas, Ricardo Baldo, em entrevista à Bloomberg Línea. O empresário acaba de lançar ao mercado o vinho Amplitude 25.
Com atuação histórica em uma fazenda de mais de 700 hectares, a vinícola começou a se expandir há menos de uma década, com testes que apresentaram gradualmente resultados descritos como interessantes.
Segundo Baldo, que também é diretor financeiro da Associação Nacional dos Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin), a escolha do vinho foi motivada por uma necessidade de diversificação em uma propriedade originalmente voltada à cana, ao milho e à pecuária.
Apesar da tradição canavieira da região no noroeste do estado de São Paulo, Baldo afirmou que os estudos de viabilidade indicaram maior retorno financeiro com a uva destinada à vinificação de alta gama. “É uma coisa muito nova para a região. Nunca teve nada comparado à cana-de-açúcar por lá”, disse.
Para ele, esse é um investimento de longo prazo que se mostra mais promissor que a cana. “Nós já investimos, dentro desse projeto, em torno de R$ 20 milhões. A perspectiva de retorno é de uns 15 anos aproximadamente”, afirma e segue: “O retorno que o vinho vai te proporcionar mais para frente é muito maior do que a cana-de-açúcar vai gerar nesse período”.
Baldo explicou que, para a Vinícola Terras Altas, “não é qualquer cultura que você consegue colocar que vai entregar rentabilidade pelo nível de preço a que as terras chegaram na região”.
Fundada pelos investidores José Renato Magdalena e Fernando Horta, que atuavam na construção civil e no mercado imobiliário na região e tinham um “sonho antigo” de entrar para a área vitivinícola, a Terras Altas se consolidou com a expertise de Baldo, que é engenheiro agrônomo.
O projeto prioriza a qualidade da produção, com equipamentos de vinificação e recepção de uvas franceses e sistema de bombeamento de vinho italiano, além de um design da vinícola montado por gravidade para preservar a fruta.
“Nós começamos a olhar novos negócios e vimos essa nova técnica de produção de uva para o Sudeste do Brasil, que é uma técnica que inverte o ciclo de produção”, disse Baldo, referindo-se à chamada dupla poda, que permite colher uvas no inverno, em condições climáticas mais favoráveis à qualidade.
Atualmente já são 10 hectares destinados ao cultivo de uvas, com uma produção de 40 mil garrafas de vinho por ano. E a perspectiva é crescer para 15 hectares e atingir até 100 mil garrafas – sempre com foco em bebidas premium de alta qualidade e com preços mais elevados (entre R$ 135 e R$ 280 cada uma).
A decisão de focar em vinhos de qualidade superior é justificada pelo elevado custo da terra em Ribeirão Preto, onde o alqueire pode atingir R$ 1 milhão, segundo ele. Produzir vinhos simples e baratos (como commodity) não ofereceria o retorno necessário para compensar tal investimento.
Essa decisão leva a uma limitação estratégica. “Pelo nível da qualidade dos vinhos que estamos produzindo, não podemos ter um excesso de produção na planta que dilui a baga”, disse Baldo. “Temos que trabalhar em um limiar, diferentemente das culturas de cana, milho e soja, que sempre buscam a maximização da produtividade”, completa.
Isso acontece porque a produção de vinhos de alta qualidade requer um controle da produtividade das videiras. Quanto menos uvas a planta produz, maior a qualidade do vinho a ser obtido delas, explicou.
A estratégia de posicionamento da vinícola se apoia também no turismo, cada vez mais relevante para o setor. “O enoturismo é fundamental para o mercado do vinho, para que o consumidor conheça a qualidade dos produtos, como o vinho é produzido, como a uva é cultivada”, afirmou Baldo. O objetivo é criar uma conexão direta com o consumidor, o que valoriza o produto e reforça a proposta de terroir local.
Parte da confiança no potencial da região vem das condições específicas de clima e solo. A vinícola está localizada a 750 metros de altitude, com temperatura média inferior à da cidade e amplitude térmica significativa. “O nosso diferencial de temperatura entre o dia e a noite pode chegar a 25 graus”, explicou Baldo.
O solo de origem basáltica, comum em Ribeirão Preto, tem alto teor de ferro e fertilidade natural, o que, combinado ao controle de estresse hídrico, resulta em uvas com maior concentração de compostos fenólicos, de acordo com ele.
A vinícola já colhe frutos com reconhecimento internacional. Antes mesmo de entrar no mercado, seus vinhos foram avaliados em concursos como o Decanter World Wine Awards e o Concours Mondial de Bruxelles.
A decisão de levar à avaliação externa teve um propósito claro: “O mercado brasileiro é difícil por causa do histórico de produção de vinhos no Brasil. Achamos muito importante no primeiro momento obter uma chancela internacional”.
Para além do vinho, a presença da vinícola também tem impacto sobre outros empreendimentos. Baldo afirmou que o projeto contribui para valorizar o entorno e pode alavancar negócios imobiliários da região.
“Uma vinícola agrega valor para o seu entorno. Foi um caminho pelo qual conseguimos valorizar a área e gerarmos uma rentabilidade para futuros projetos que sejam adjacentes à vinícola”, disse. Ele destacou ainda o efeito de diversificação para a região com o vinho, em contraposição à tradição de produção de cervejas de Ribeirão Preto.
“A cidade tem uma tradição cervejeira que vem desde a instalação da fábrica da Antárctica e da choperia Pinguim, passando pelo crescimento das artesanais”, disse. “Mas o vinho tem a vantagem de produzir com ingredientes locais, enquanto a cerveja precisava de malte, trigo, lúpulo, tudo importado. O vinho é um produto mais local, que vai beneficiar mais a região”, defendeu.
Daniel Buarque