Indústria

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Com usinas no limite, pode faltar biodiesel no mercado brasileiro

Desde 2009 o setor de biodiesel não tem um leilão tão importante. Volume que as usinas podem ofertar no 59º leilão pode não ser suficiente para garantir o abastecimento do mercado


NovaCana - Publicado: 19 Jan 2018 - 15:08

A chegada do B10 vai representar um grande alivio financeiro para as usinas. Não porque elas vão vender mais biodiesel, mas porque poderão vender com maior rentabilidade. O leilão que começa no dia 30 de janeiro será a primeira amostra de quão bom será o ano de 2018.

Mas existe uma chance de o leilão ser uma catástrofe, com consequências tão ruins que chegariam à redução do percentual de mistura de biodiesel no Brasil para 9%. Esse desastre tem um nome: pouca oferta.

Durante a luta pela antecipação do B10, o setor repetiu inúmeras vezes que a capacidade não seria um problema, pois não havia risco de faltar biodiesel. Para sorte geral, a safra de soja está muito boa, minimizando o risco de faltar matéria-prima.

O verdadeiro problema está em quanto da capacidade autorizada de produção as usinas habilitadas vão ofertar. Se o volume ofertado ficar abaixo da demanda estimada, o governo vai se sentir traído, verá risco de desabastecimento, fará um leilão complementar e poderá, ainda, reduzir o percentual de mistura.

O risco é sério e as usinas estão sabendo disso. Elas estão fazendo as contas para se preparar para o leilão e estão chegando a números de oferta próximos de um bilhão de litros. E, quando fazem as contas da demanda, chegam a números pouco menores e, em alguns casos, maiores que a oferta.

Aos números

A conta da demanda é mais objetiva que a da oferta. Considerando que a demanda de diesel para o segundo bimestre de 2017 foi de 9 bilhões de litros e que o consumo em 2018 seria, na pior das hipóteses, igual ao de 2017, temos uma demanda mínima de 900 mil m³ para o L59. Mas esse é um número altamente improvável por dois principais motivos.

O primeiro é que a demanda de abril em 2017 teve uma queda de 9% sobre o mesmo mês no ano de 2016. Foi a maior queda mensal do ano e ficou muito acima da retração média que vinha acontecendo no mercado de diesel, levando a assumir que foi um problema pontual que reduziu a base de comparação, o que não deve se repetir este ano.

O segundo motivo é que o mercado de diesel está crescendo. Em outubro e novembro, o aumento ficou acima de 5% na comparação anual. Esse crescimento deve continuar durante todo o primeiro semestre de 2018, já que a demanda do último ano estava muito contraída. Assim, mesmo desconsiderando o ponto fora da curva da demanda em abril de 2017, o consumo de diesel tem boas chances de crescer 5% no segundo bimestre de 2018.

Um crescimento desse tamanho traria uma demanda efetiva de 945 mil m³, o que no leilão se transformaria em cerca de 970 mil m³, já que as distribuidoras compram cerca de 3% a mais que a demanda para poderem ter alguma margem de escolha nas retiradas durante o decorrer das entregas.

Esse volume de 970 mil m³ é o que algumas usinas acreditam ser a demanda mínima para o certame. Contudo, se o crescimento no bimestre for maior em razão do consumo excepcionalmente baixo no mês de abril do ano passado, o L59 pode atingir a marca de um milhão de m³.

Oferta

A capacidade máxima de oferta das usinas habilitadas soma 1.203 mil m³. Só que esse é um valor nominal – na prática, nem todas oferecem 100% de sua capacidade.

Para encontrar o que seria a capacidade máxima real, pegamos o maior volume ofertado de cada uma das usinas nos últimos seis leilões. Somando essas ofertas, chegamos ao volume máximo de 1.016 mil m³. Só que, desse volume, 28 mil m³ são da Granol de Tocantins e outros 28 mil m³ são da Granol do Rio Grande do Sul, duas usinas que estão paradas.

É de se esperar que ao menos a usina de Tocantins volte a operar neste leilão, já que ela é a mais competitiva das duas. Mas, mesmo descontando apenas os 28 mil m³ da usina do Rio Grande do Sul, a oferta fica pequena em relação a demanda, com apenas 988 mil m³.

L59 oferta demanda

Cabe repetir que essa será a oferta se todas – absolutamente todas – as usinas participantes e ativas ofertarem o maior volume que já ofereceram em um leilão. E, sem a Granol do Rio Grande do Sul, esse esforço conjunto não será suficiente para atender a demanda.

Para que o leilão aconteça sem sustos ou estrangulamento logístico, a oferta deve girar em torno de 1.050 mil m³. Se a demanda ficar em 970 mil m³, 92,4% das ofertas serão compradas, superando o recorde de 91,9% do L39. Se a demanda ficar em 1.000 mil m³, o percentual de compras atingirá 95,2% do volume ofertado e ainda haveria sobras para o leilão autorizativo e estoque.

É importante ressaltar a necessidade de se olhar para os três leilões quando se analisa o atendimento da demanda de biodiesel do país.

Atingir a marca de 1.050 mil m³ com todas as usinas da Granol já será um esforço para o setor produtivo. Sem uma delas será uma tarefa pesada. Sem as duas usinas, é algo que beira o impossível.

L59 oferta máxima

Pensando de maneira prática e dividindo a responsabilidade de atender a demanda entre todas as empresas do setor, será preciso que as usinas ofereçam um percentual mínimo de sua capacidade.

Das 39 usinas habilitadas, um terço delas ofereceu 100% de suas capacidades de produção no último ano. Caso se juntem a elas a Biopar MT e a Potencial, que ofereceram mais de 95% de suas capacidades, fica garantida a oferta de 414.987 m³ no L59.

As outras 22 usinas (considerando que a Barralcool e a Granol RS não vão ofertar) precisam ofertar 635.013 m³, sendo que elas detêm uma capacidade nominal de 721.205 m³. Ou seja, elas precisam ofertar 88% de suas capacidades. O problema aqui é que dessas 22 usinas, 12 delas nunca ofereceram um percentual tão alto de sua capacidade de produção. Quando somado, o volume que falta para atingir os 88% da oferta nessas 12 usinas, encontramos o déficit de 69.443 m³.

Mesmo descontando o volume excedente das usinas que oferecem mais de 88%, ainda ficam faltando 58.813 m³.

Em um cenário onde a Granol oferta com suas três plantas, as 23 usinas têm que ofertar 81,7% de sua capacidade. Até hoje, 14 delas ofereceram esse percentual ou mais, o que traz um excedente de 33.270 m³. As demais usinas deixariam a oferta deficitária em 64.083 m³ fechando o balanço com uma falta de 30.813 m³.

Cada usina deverá fazer sua parte para que não haja problema. Se a oferta de uma companhia ficar abaixo dos 88% ou 81,7%, dependendo do cenário, alguma outra terá que compensar a diferença.

O que está em jogo nesse certame não é apenas a manutenção do B10, mas o caminho para o B15. Se, depois de um ano de argumentações e promessas de que o setor conseguiria ofertar tudo o que fosse preciso para atender o B10, as usinas falham e falta biodiesel, o setor perde moral para pedir e dar garantias de que conseguirá atender o B11 em 2019 e o B15 em 2023. Ou seja, o setor terá dado ao governo os argumentos perfeitos para ignorar seus pedidos futuros.

O 59º Leilão será o mais importante leilão desde 2009. É nele que oferta e a demanda estarão mais próximas, as dúvidas estarão maiores, a audiência será maior e as consequências de uma falha serão gigantescas. Ao meio dia do dia 30 de janeiro saberemos se o setor produtivo passou no teste final para entrar em sua nova fase.

Miguel Angelo Vedana – novaCana.com | BiodieselBR.com