Investimento

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Usinas “familiares” formam segunda fase da indústria de etanol de milho

Depois da onda de projetos bilionários de grupos especializados, produtores rurais lideram nova etapa de investimentos na produção do biocombustível, com projetos regionais de médio porte voltados à verticalização da produção


AgFeed - Publicado: 02 Jul 2026 - 09:56

Após uma primeira fase liderada por grandes companhias, grupos especializados no segmento e plantas com alta capacidade de produção, o novo cluster industrial brasileiro – formado por usinas de etanol à base de milho – entra em uma segunda etapa.

Projetos regionais de menor porte, idealizados por produtores rurais, começam a sair do papel e ganhar visibilidade no setor. Um exemplo é a iniciativa da família Priori, de Jataí (GO).

Nas terras do clã, empresarialmente identificado como Grupo Paraíso, são produzidas aproximadamente 400 mil toneladas de milho por ano – volume próximo do que a companhia agrícola deve processar na usina que tomará forma neste ano.

Com investimento de cerca de R$ 780 milhões, os Priori ingressarão no circuito industrial com capacidade para transformar em etanol 1,2 mil toneladas de milho por dia. A usina será operada pela Paraíso Biocombustível, com início de operação previsto entre 24 e 36 meses, e ficará ao lado dos armazéns do seu braço comercial, com o qual já opera no mercado de grãos.

Entre 70% e 80% do milho beneficiado deve vir da produção familiar. Ainda assim, o cereal será contabilizado a preço de mercado, já que agricultura e indústria funcionarão como empresas distintas.

“O ganho não é comprar milho barato de nós mesmos. O ganho é ter segurança de abastecimento e equilíbrio entre as margens”, explica o coordenador do projeto, Luiz Cesar Priori, ao AgFeed.

Além de reduzir a exposição às oscilações do mercado, a integração entre plantio e indústria diminuirá riscos logísticos e garantirá maior previsibilidade ao novo negócio.

A decisão do Grupo Paraíso de investir em uma usina de etanol de milho nasceu de uma inquietação antiga da família: deixar de depender exclusivamente da venda do grão como matéria-prima e avançar para uma etapa de maior valor agregado dentro da cadeia do agronegócio.

Ampliar a atuação em toda a cadeia do agronegócio acompanha a trajetória da família há décadas. O grupo começou na agricultura e, ao longo do tempo, expandiu sua atuação para armazenagem, transporte, revenda de máquinas, insumos e comercialização de grãos.

A partir de 2018, porém, iniciou uma reorganização, reduzindo negócios considerados menos estratégicos para concentrar esforços fora da porteira.

“Em 2019, fizemos o último investimento relevante na compra de terras. Já existia essa vontade de beneficiar o milho, de não vender só matéria-prima. Chegamos a estudar alternativas como floculação e produção de farinha, até que veio o avanço do etanol de milho, opção economicamente mais interessante”, conta Priori.

A usina nasce com capacidade de 1,2 mil toneladas por dia, mas já foi projetada para futuras ampliações, podendo chegar a 2,4 mil e, posteriormente, 3,6 mil toneladas diárias. Priori ressalta, porém, que a prioridade é consolidar a primeira etapa. “Estamos fazendo um projeto que entendemos dar conta de fazer”, ressalta Priori.

A integração entre agricultura e indústria funciona como uma proteção contra os ciclos do mercado. Se o preço do milho cai, a indústria tende a ganhar competitividade ao comprar matéria-prima mais barata; se o grão sobe, a produção agrícola compensa. Priori resume essa estratégia como um “hedge natural”.

Embora menor que algumas das maiores unidades do país, a usina dos Priori está longe de ser pequena, segundo Hugo Morais, diretor de desenvolvimento de negócios da Katzen, empresa norte-americana especializada em tecnologias para o setor e responsável por projetos de 21 plantas de etanol combustível e oito em desenvolvimento no Brasil.

O diferencial, avalia o executivo, está menos no tamanho da planta e mais no perfil do investidor. “O que chama atenção não é a usina. É quem está construindo”, aponta.

“Ela é um pouco menor que a média nacional, mas não é pequena. É uma usina dimensionada para a produção agrícola do grupo. Essa é uma tendência: produtores buscarem a verticalização da cadeia. Apenas neste ano, já recebemos sete consultas para projetos de usinas ao redor de mil toneladas por dia”, relata Morais.

O projeto dos Priori ilustra uma transformação mais ampla vivida pela indústria brasileira de etanol de milho. Depois de um primeiro ciclo de expansão liderado por grandes grupos, o setor atrai produtores rurais, cooperativas, agroindústrias e empresas regionais interessadas em verticalizar a produção.

Estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), ligado ao Banco do Nordeste (BNB), apontam que a indústria entra em uma segunda etapa de crescimento, marcada pela interiorização das plantas e pela diversificação dos modelos de negócio.

Ao transformar o cereal em combustível, proteína para nutrição animal, óleo e outros derivados, o produtor deixa de depender exclusivamente da venda do grão in natura e distribui melhor sua receita entre diferentes etapas da cadeia.

Segundo o levantamento do Etene-BNB, o Brasil possui atualmente 35 biorrefinarias autorizadas para produção de etanol de grãos, sendo 25 full grain e 10 flex, além de 19 novos projetos autorizados para construção.

Os dados indicam que a expansão deixou de seguir um único modelo de grandes usinas para incorporar empreendimentos de diferentes portes e características regionais.

Na avaliação de Priori, o principal risco do negócio não está na demanda por combustível, mas na insegurança regulatória. “O maior risco não é o mercado. É o governo mudar a regra no meio do caminho. Chegar e segurar artificialmente o preço do combustível, ou mudar a mistura obrigatória”, avalia o administrador.

Foi uma mudança recente, por sinal, que estimulou diferentes projetos: a possibilidade de venda direta de etanol das usinas para os postos de combustíveis.

Em janeiro de 2022 entrou em vigor a Lei 14.292/2022, permitindo que o etanol seja vendido diretamente aos postos, sem obrigatoriedade de passar pelas distribuidoras. Antes, pelas regras da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o produtor normalmente só podia vender para distribuidoras, outros produtores ou mercado externo.

Estudo divulgado neste ano pelo RaboBank, especializado em agronegócio, aponta que o setor pode estar chegando em um ponto de inflexão no Brasil: a velocidade de expansão da capacidade começa a ficar maior que a expansão natural da demanda.

O mercado e os investidores, avaliam, porém, que o futuro das biorrefinarias será alimentado fortemente pela oferta de produtos como grãos secos de destilaria (DDG), óleo de milho e outros derivados, reduzindo a dependência do combustível.

No horizonte do setor também há perspectivas de avançar para mercados mais sofisticados, como combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e navegação, indústria farmacêutica e alimentícia.

Um dos grandes desafios, já na agenda dos Priori, será a disponibilidade de mão de obra especializada. A usina em construção, na primeira fase, deverá empregar cerca de 150 pessoas, mas o executivo não espera encontrar profissionais prontos.

“Falta mão de obra especializada. O grande desafio vai ser contratar, treinar e manter gente trabalhando com produtividade”, antecipa o executivo.

A usina, em fase de aprovações legais para iniciar a obra, foi concebida para funcionar também como centro de treinamento, formando profissionais, com um espaço específico para aulas e treinamentos.

“Mesmo tendo longa trajetória no Brasil com as usinas de cana, uma usina de milho é outra realidade. Apesar de produzirem etanol no fim do processo, tudo é diferente”, pondera Priori.

Thiago Copetti