Etanol: Mercado: Regulação

Etanol: Mercado: Regulação

Usinas de etanol agora se beneficiam de diferencial no preço da gasolina no Brasil

"As usinas de etanol agora estão sob a proteção da Petrobras"


Bloomberg - Publicado: 22 Jan 2015 - 11:26

Nos últimos anos, as usinas de açúcar e álcool se acostumaram a esbravejar contra a política do governo Dilma Rousseff de não repassar para os consumidores a alta da gasolina no mercado internacional, uma vez que o controle as obrigou a vender etanol a preços defasados para competir com o combustível fóssil.

Agora que os preços do petróleo caíram pela metade no exterior, os usineiros não podem mais prescindir da política do governo e da Petrobras de não mexer no preço da gasolina.

A Petrobras informou na terça-feira que vai continuar vendendo gasolina a um preço cerca de 60% mais alto do que no exterior, repassando para as refinarias o aumento do custo com a volta da cobrança da Cide e a elevação do PIS/Cofins, anunciada no início da semana. A decisão foi saudada pela indústria do etanol, que passa por dificuldades.

O corte nos preços da gasolina atingiria "em cheio" os produtores do etanol, afirma Artur Losnak, analista do Banco Fator SA. "As usinas de etanol agora estão sob a proteção da Petrobras".

Desde 2011, o governo Dilma Rousseff vinha segurando os preços da gasolina em uma tentativa de controlar a inflação, o que logo se transformou em um problema para os produtores de etanol, que perderam boa parte do mercado. Desde então, 47 usinas de etanol fecharam as portas e outras 70 estão em recuperação judicial, segundo um relatório publicado em dezembro pela União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

A manutenção dos preços da gasolina acima dos níveis internacionais abre espaço para que o setor sucroalcooleiro se recupere das perdas acumuladas nos últimos anos, afirma Jacyr Costa, diretor da unidade brasileira da Tereos Internacional SA, a terceira maior produtora de etanol do país. O preço da gasolina deverá ser mantido acima dos níveis internacionais "por algum tempo" para ajudar a compensar prejuízos passados, disse ele.

Imposto sobre combustíveis fósseis

O governo anunciou na segunda-feira o retorno da Cide sobre a gasolina. O imposto, criado em 2001 para financiar investimentos em infraestrutura, foi reduzido a zero em 2012. Como resultado, o preço médio da gasolina na bomba poderá subir dos atuais R$ 3,03 para R$ 3,16, segundo a empresa de pesquisas RC Consultores.

Como a Cide não incide sobre o etanol, as usinas podem aproveitar-se da gasolina mais cara para elevar os preços do biocombustível e recompor ao menos parte das margens de lucro. O preço médio do etanol deverá subir de R$ 2,05 para R$ 2,14 o litro, segundo a RC.

"A medida traz um alívio para o setor do açúcar e do etanol", disse Plínio Nastari, presidente da Datagro, consultoria especializada no setor sucroalcooleiro.

Como a gasolina ficou mais barata que o etanol em boa parte do Brasil, apenas 36% dos carros flex no país foram abastecidos com etanol no ano passado. Trata-se de uma fatia modesta se comparada aos 82% registrados em 2009, quando o etanol era mais ventajoso para a maioria dos consumidores. O etanol possui cerca de 70% do valor energético da gasolina. Logo, os motoristas tendem a optar pela gasolina quando o preço do etanol supera essa proporção em relação ao da gasolina.

As exportações de etanol do Brasil, que caíram 50% no ano passado, para cerca de 1,4 bilhão de litros, devem se manter em níveis reduzidos neste ano devido aos baixos preços nos Estados Unidos e à diminuição dos incentivos aos biocombustíveis na Europa, disse Nastari.

'Mais competitivo'

O aumento dos impostos sobre a gasolina "aumentam a competitividade do etanol", disse Elizabeth Farina, presidente da Unica, em coletiva de imprensa na terça-feira em São Paulo.

"O apoio do governo aos produtores de biocombustíveis como Cosan, São Martinho e Tereos está crescendo", disse James Evans, analista de energias limpas da Bloomberg Intelligence, hoje em um relatório.

"A medida foi muito positiva e está alinhada às demandas do setor", disse Rui Chammas, CEO da Biosev SA, segunda maior fornecedora de etanol do país. "Isso corrige uma distorção".

Procuradas, Cosan e São Martinho não comentaram a medida.

Gerson Freitas Jr. e Vanessa Dezem