De abril de 2011 até fevereiro deste ano, mais de dois bilhões de litros de etanol de cana-de-açúcar foram produzidos no mundo com a certificação Bonsucro, iniciativa que estabelece padrões globais de produção e sustentabilidade a serem respeitados pelas empresas que se submetem às medidas. Em 2011, a certificação tornou-se exigência para as empresas que exportam o biocombustível para a União Europeia e, desde então, 26 empresas brasileiras aderiram aos padrões. Com isso, além de ganhar mercado, as usinas conseguem reduzir custos, agregar valor à marca e contribuir para uma produção com mais respeito ao meio ambiente e aos consumidores. Quem garante isso é Nick Goodall, chefe executivo da Bonsucro, que esteve recentemente no Brasil e falou, com exclusividade à GLOBO RURAL, sobre o balanço dos dois primeiros anos da certificação no país e no mundo.
O Brasil, como maior produtor de etanol de cana-de-açúcar do mundo, está à frente em relação à sustentabilidade nesse setor?
O Brasil está como a liderança global demonstrando que é possível tornar-se eficiente, produzir mais enquanto respeita as pessoas e o meio ambiente. Usinas brasileiras estão dispostas em encarar os desafios e cada vez mais adotar práticas ambientais e socialmente sustentáveis.
Quais são os outros países?
A cana-de-açúcar é produzida em mais de 130 países e nós temos focos e objetivos. Trabalhando com nossos membros e construindo parcerias, nós estamos desenvolvendo estratégias para a maioria dos países produtores. Além do Brasil, nós temos metas para a índia, Tailândia, México, Austrália, Paquistão, Argentina, Colômbia, Guatemala, Honduras e muitos outros.
O certificado Bonsucro vai valer para a produção de etanol de segunda geração?
Bonsucro certifica a produção sustentável para a cana-de-açúcar e quando a segunda geração se tornar realidade a houver uma demanda de mercado, o padrão será modificado para incluir este produto.
Além da possibilidade de exportação, que mais as usinas podem ganhar com a certificação?
Embora muitos vejam o processo de certificação como um "passaporte" para o mercado europeu, Bonsucro oferece muito mais que isso. Ao comprometer-se com o Código de Conduta do Bonsucro e implementarem nosso padrão, as usinas estão enviando uma mensagem aos consumidores, fornecedores e reguladores que estão seguindo rigorosas instruções e regras de ponta para a produção de seu etanol e sua açúcar. Além de claros ganhos de reputação, juntar-se ao Bonsucro significa ter uma voz e a habilidade de influenciar e de seguir o regime global que guia o futuro da indústria de cana-de-açúcar. Também significa ter acesso privilegiado a treinamentos, eventos, estudos, notícias e redes globais ligados a agronomia, processos e moagem, direitos sociais e sustentáveis. Implementando os padrões Bonsucro, as usinas reduzem custos em conformidade com a legislação, atrai investimentos e agrega valor aos seus produtos e à marca. Vocês podem encontrar depoimentos (da Raízen) sobre os benefícios do Bonsucro em nosso último boletim.
No Nordeste brasileiro, onde a produção de cana-de-açúcar é bem diferente do centro-sul do país, em função da geografia e outros aspectos culturais, é possível adaptar ou obter a certificação?
O padrão não é adaptável a circunstâncias locais. No ano passado, Bonsucro realizou um seminário de sustentabilidade no nordeste e esteve trabalhando com usinas, fazendeiros, usuários finais e organizações civis para identificar oportunidades de como ajudá-los a alcançar a certificação Bonsucro.
Quais são as principais dificuldades de países da Ásia, África e América Latina em receber a certificação?
Todos os países são diferentes e algumas das dificuldades variam: direitos de propriedade de terra, organizações de produtores, problemas sociais e condições climáticas, irrigação, etc.
Após completar dois anos, qual é o balanço que a Bonsucro faz do seu processo de certificação? Podem ser feitas alterações nesse processo num curto prazo diante das demandas que vocês encontraram nesse período?
Bonsucro é um membro associado ao ISEAL e segue o Código de Melhores Práticas. Com essas exigências, Bonsucro segue um plano que envolve todos os sócios na revisão dos padrões. A consulta pública está disponível no sitewww.bonsucro.com/standard/public_consultation.html.
Contudo, o processo de certificação não está sob revisão e mudanças não são esperadas em um curto prazo. O processo tem funcionado bem. Para ser certificada, a usina deve, primeiro, tornar-se membro do Bonsucro e assinar o código de conduta. Isso permite as usinas a usarem a Calculadora Bonsucro, uma ferramenta de auto-avaliação para ajudar as usinas a identificarem o quão próximas elas estão dos padrões do Bonsucro. As usinas são aconselhadas a conduzir um balanço prévio que favorecerá a avaliação de suas posições. Depois disso, elas organizam um balanço formal com o corpo da licença da certificação. Esse balanço vai determinar seu cumprimento e o volume dos seus produtos sustentáveis (etanol e/ou açúcar) que serão permitidos vender. Esse balanço deve ser refeito a cada três anos e um balanço de supervisão é conduzido anualmente.
Como as experiências no Brasil podem colaborar com o aprimoramento desse processo de certificação?
Os membros são estimulados a reportar suas experiências e enviar recomendações ao Bonsucro em referência ao sistema de certificação. Caso necessário e demandado pelos membros, o processo de certificação pode ser revisado.