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Como as usinas brasileiras serão afetadas pelas mudanças em discussão na Califórnia

california ponte de entrada 190815As mudanças propostas são significativas e devem mudar sensivelmente — para melhor em alguns pontos e para pior em outros — o número da pegada de carbono de cada usina, assim como todo o processo para comprovação das emissões

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O estado norte-americano da Califórnia está revisando as normas para a entrada de combustíveis, o que deve trazer mudanças para os usineiros brasileiros que almejam acessar este mercado, um dos mais valorizados para o etanol de cana-de-açúcar.

O Conselho da Qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês), órgão regulador encarregado de revisar as normas do Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS), divulgou a proposta para as novas regras. Algumas dessas alterações não foram bem digeridas pela Unica.

Atualmente, 38 usinas brasileiras, de 18 grupos, estão autorizadas a enviar etanol à Califórnia. No estado norte-americano, o biocombustível de cana do Brasil é considerado uma das vias de conformidade mais rentáveis para as usinas, proporcionando um prêmio sobre as importações devido à baixa pegada de carbono.

As mudanças propostas são significativas e devem mudar sensivelmente — para melhor em alguns pontos e para pior em outros — o número da pegada de carbono de cada usina, assim como todo o processo para comprovação das emissões.

Conheça as principais alterações que afetam a exportação brasileira de etanol e as críticas das usinas as medidas do Carb.

O estado norte-americano da Califórnia está revisando as normas para a entrada de combustíveis, o que deve trazer mudanças para os usineiros brasileiros que almejam acessar este mercado, um dos mais valorizados para o etanol de cana-de-açúcar.

O Conselho da Qualidade do Ar da Califórnia (Carb, na sigla em inglês), órgão regulador encarregado de revisar as normas do Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono (LCFS), divulgou a proposta para as novas regras. Algumas dessas alterações não foram bem digeridas pela Unica.

As propostas de alterações constam no documento “CA-GREET 2.0 – Supplemental Document and Table of Changes” (CA-GREET 2.0 – Documento Suplementar e Tabela de Mudanças). A partir da revisão, o Carb propõe alteração dos procedimentos para análise das rotas, mudança da análise de intensidade de carbono (CI) dos combustíveis e o emprego de uma matriz de eletricidade similar à adotada pelas usinas de etanol de milho dos EUA para a produção de etanol de cana.

As sugestões estão disponíveis para comentários até 24 de setembro.

Atualmente, 38 usinas brasileiras, de 18 grupos, estão autorizadas a enviar etanol à Califórnia. No estado norte-americano, o biocombustível de cana do Brasil é considerado uma das vias de conformidade mais rentáveis para as usinas, proporcionando um prêmio sobre as importações devido à baixa pegada de carbono.

Cada usina terá seu próprio CI

Uma das mudanças está relacionada às rotas de produção do etanol brasileiro, que até então trabalhavam com valores de intensidade de carbono definidos. Hoje, o etanol de cana brasileiro, produzido pela rota de primeira geração, tem seis enquadramentos possíveis, com CIs que variam de acordo com a existência de tecnologias ambientalmente vantajosas, como colheita mecanizada e exportação de energia.

Com a alteração, esses valores definidos deixam de existir. Assim, conforme explica a entidade, cada usina terá de preencher a tabela do GREET 2.0 e encontrar seu valor único de CI.

O trâmite burocrático vai exigir mais atenção das proponentes, que precisarão observar prazos para envio da papelada, se quiserem evitar demora na aprovação de rotas, uma vez que o Carb terá rodadas de análise por tipo de combustível.

“A aprovação de rotas será feita em blocos, sendo aplicações de etanol, aplicações de biodiesel etc. Assim, as usinas terão prazos para mandar a documentação. Se perderem o prazo, a rota será analisada apenas quando houver outro bloco de aplicações de etanol para serem analisadas”, detalha Leticia Phillips, representante da Unica nos Estados Unidos.

Efeito indireto do uso da terra cai 75%

Outra alteração proposta pelo Carb pode ser extremamente benéfica ao biocombustível brasileiro. No novo desenho regulatório, o efeito indireto do uso da terra (ILUC) para o etanol de cana verde-amarelo cairia de 46 gCO2/MJ para 11,8 gCO2/MJ. Hoje esse componente é o que mais pesa na avaliação da intensidade de carbono do renovável feito pelas usinas.

Com essa alteração, o CI do etanol feito por uma usina com produção otimizada, colheita mecanizada e exportação de energia, pode cair de 58,40 gCO2/MJ para 42,89 gCO2/MJ, já incorporando a penalidade do chamado efeito indireto do uso da terra.

“O que se sabe é que a Califórnia está propondo um número de ILUC baixo para a cana, 11,8gCO2/MJ, o menor dos combustíveis líquidos disponíveis naquele mercado, e certamente o etanol continuará competitivo”, diz Leticia.

Entretanto, parte do benefício com a redução do CI atribuído ao efeito indireto do uso da terra dos canaviais brasileiro é absorvido pela perda de créditos relacionados à exportação de energia.

Matriz unificada de eletricidade

A proposta que mais incomoda a Unica é a adoção, para as empresas brasileiras, da mesma análise realizada usada para a matriz energética dos EUA para a produção de bioeletricidade, o que afetaria negativamente os cálculos de intensidade de carbono das usinas do país.

Carta encaminhada ao conselho em fevereiro deste ano assinada pela presidente, Elizabeth Farina, presidente da Unica, e por Leticia Phillips, representante da entidade nos EUA, pede “ao Carb que continue a adotar a fonte de eletricidade marginal para as rotas [de produção] da cana-de-açúcar. Ao adotar a matriz de energia média, o Carb não apenas está empregando a abordagem errada, como também está virando as costas para um dos maiores benefícios ambientais das rotas [de produção] da cana-de-açúcar”, argumentou. “Quanto mais analisamos esta proposta, menos ela faz sentido para a indústria brasileira”, continua.

Na visão da entidade brasileira, o Carb acredita estar agindo com a intenção de equalizar o processo para todos, no entanto isso significaria ignorar um dos maiores benefícios ambientais da produção de etanol de cana-de-açúcar.

No documento divulgado em junho, o Carb justificou sua decisão: "A equipe determinou que o método mais simples, mais justo e defensável é aplicar a média regional em todas as rotas [de produção]".

Em e-mail encaminhado dias depois da divulgação da proposta, a representante da Unica nos Estados Unidos questionou a decisão, algo que já havia feito em fevereiro deste ano.

“A adoção do mix de energia para o Brasil penaliza injustamente o país porque beneficia as rotas [de produção] dependentes de energia em detrimento das rotas que geram energia, que é o nosso caso”.

Em entrevista ao portal NovaCana, ela reforçou a crítica. “Como a média elétrica brasileira é fortemente hídrica, essa proposta nos prejudica, pois basicamente perdemos o crédito da cogeração”.

Leticia informa que a entidade apresentou formalmente esses questionamentos, por meio de cartas. “Após este processo, a Unica conquistou que o Carb pelo menos atualizasse a média brasileira para refletir melhor a situação atual”, celebra Leticia. “A agência concordou e está propondo uma média um pouco mais balanceada”, emenda.

O próximo passo da entidade brasileira é acompanhar, no próximo mês, a reunião do conselho do Carb, que vai decidir sobre a adoção dos itens propostos. “Após essa reunião, teremos uma ideia melhor dos próximos passos”, ressalta Leticia. “A Unica está constantemente engajada com a agência para defender os interesses de nossos membros no mercado californiano”, finaliza.

Filipe Albuquerque — NovaCana

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