Projeto falhou devido à oposição dos Estados Unidos e ao colapso da União Soviética
Em Cuba, apagões como o ocorrido na sexta-feira, 18, não são novidade. Na verdade, eles fazem parte da realidade local há décadas – embora a proibição imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à venda de petróleo para Havana tenha agravado a crise.
Com uma produção interna de petróleo limitada e dependência de importações, Cuba busca há muito tempo fontes alternativas de energia para manter o abastecimento elétrico.
Talvez a tentativa mais ambiciosa tenha ocorrido no início da década de 1980, quando Fidel Castro iniciou planos para construir uma usina nuclear em Juraguá, na província de Cienfuegos, com construção e financiamento da União Soviética.
A expectativa era que a usina – concebida como a primeira de três – suprisse 15% da demanda de eletricidade da ilha e inaugurasse uma nova era de segurança energética para a nação comunista. Mas aquele sonho nunca se realizaria.
A oposição dos EUA, o desastre nuclear de Chernobyl e o colapso da União Soviética contribuíram para selar o destino do projeto. Sua estrutura de concreto, há muito abandonada, permanece hoje como uma ruína pela qual as pessoas podem circular livremente.
Após uma curta caminhada pela estrada fica Nuclear City, a cidade construída para abrigar os milhares de trabalhadores de que o projeto necessitaria e que hoje é – assim como a usina – apenas uma sombra do que já foi.
Lá, Luis Vargas, um eletricista que participou do projeto, diz à CNN que sente “uma profunda tristeza” ao ver a estrutura em seu estado atual. “É uma pena que tenha ficado assim, porque, infelizmente, milhões foram investidos ali e a obra não pôde ser concluída”, afirma.
Colapso soviético
Durante a Guerra Fria, Havana apostou tudo em permanecer na esfera de influência da União Soviética e na assistência desta a projetos ambiciosos, como a usina nuclear de Juraguá.
Talvez inevitavelmente, o projeto logo enfrentou a oposição dos Estados Unidos – que, apesar de operarem sua própria usina nuclear de Turkey Point em Homestead, perto de Miami, desde 1972 –, levantaram objeções de segurança devido à proximidade de Juraguá com o território americano.
Essas objeções dos EUA se intensificaram ainda mais quando ocorreu o pior desastre nuclear da história, em 1986, em Chernobyl, na Ucrânia – então parte da URSS.
Elas persistiram mesmo depois de a Comissão Reguladora Nuclear informar ao Congresso, naquele ano, que, apesar de suas ressalvas quanto ao projeto, o design de Juraguá se assemelhava mais ao das usinas nucleares ocidentais do que ao da usina de Chernobyl.
No entanto, foi o colapso da União Soviética em 1989 que selou o destino da usina, a qual foi desativada três anos depois, sem jamais ter entrado em operação.
Francisco Pérez, que assim como Vargas trabalhou no projeto, relembrou o dia em que Castro foi lhes dar a notícia. “Ele nos disse a verdade; explicou qual era a situação e o problema no local, e que a usina precisava ser desativada”, disse.
Embora tenha ocorrido várias tentativas da Rússia e de Cuba, ao longo da década de 1990, de retomar o projeto, as objeções constantes de Washington – somadas às dificuldades financeiras que ambos os países enfrentavam – impediram que qualquer uma delas se concretizasse.
“Há muito tempo temos dúvidas sobre a qualidade da construção da usina e sobre a capacidade de Cuba de operá-la com segurança. Acrescento apenas que transmitimos esses pontos de vista a todos os governos envolvidos, inclusive ao da Rússia”, declarou Nicholas Burns, então porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, em uma coletiva de imprensa em 1995.
Cinco anos depois, segundo relatos, Castro informou à Rússia que não tinha mais interesse em concluir a usina.
Deixado para trás
Embora o sonho de Cuba com a energia nuclear agora jaza nas ruínas de Juraguá, as décadas transcorridas desde que Castro anunciou o projeto viram essa forma de energia florescer por todas as Américas.
Hoje, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), os Estados Unidos possuem 94 reatores nucleares em operação que suprem de 18% a 20% de sua demanda anual de eletricidade; o Canadá tem 17 reatores que produzem 13%; a Argentina conta com 3, que geram 7%; e o México possui dois, que geram de 4% a 5%.
Os dois reatores operados pelo Brasil na usina de Angra têm capacidade para gerar cerca de 2.000 megawatts – um valor ligeiramente inferior ao déficit relatado pela União Elétrica de Cuba em 16 de setembro.
A triste realidade para Cuba é que, embora seu sonho nuclear tenha ruído, o país continua enfrentando o mesmo problema de décadas: uma demanda crescente por eletricidade e a falta de capacidade para produzi-la.
Na fachada da gigantesca estrutura de concreto que um dia se destinou a resolver esse problema, uma placa com inscrições em russo e espanhol permanece visível, apesar da passagem dos anos.
“Que o átomo seja um trabalhador, não um soldado!”, diz o lema. Em Juraguá, não foi nem uma coisa nem outra.
Juan Carlos López