
"A universidade não concorre com ninguém. Queremos parceria. Pois a união de esforços é fundamental para o desenvolvimento de pesquisas para chegarmos às variedades de cana que atendam as necessidades do setor", destacou Edelclaiton Daros, professor da Universidade Federal do Paraná, durante abertura do encontro técnico anual da RIDESA (Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento Sucroenergético), ocorrido em 4 de dezembro na cidade de Ribeirão Preto, SP. Daros, que é coordenador técnico da RIDESA, salientou a importância da troca de informações entre pesquisadores, do intercâmbio entre as entidades de pesquisa, independente da sigla, e a participação dos produtores de cana e empresas sucroenergéticas.
E o tema parece ser, realmente, de interesse do setor, pois, de acordo com o professor Hermann Paulo Hoffmann, coordenador do Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-Açúcar (PMGCA) da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), o resultado do encontro deste ano foi muito positivo. O auditório do hotel em que a reunião ocorreu ficou cheio, com quase 250 pessoas, entre produtores de cana, profissionais de usinas, pesquisadores da RIDESA e de outras instituições de pesquisa, estudantes e até mesmo profissionais de outros países. "O encontro foi de alto nível, em que os participantes interagiram, fizeram networking e enriqueceram a reunião."
Para Antonio Cesar Salibe, presidente-executivo da União dos Produtores de Biocombustível (Udop), presente ao encontro, o debate sobre temas focados em pesquisas, melhoramento genético da cana-de-açúcar e manejo varietal é de grande valia, ainda mais quando envolve a RIDESA, já que suas variedades representam mais de 60% da cana plantada no Brasil. "As informações geradas pela RIDESA são de interesse de todo o setor, pois interferem diretamente no negócio", diz Salibe.
Profissionais do setor prestigiaram o eventoRegis Ikeda e Henrique Gatti, profissionais da Usina Batatais, SP, também prestigiaram o encontro, segundo eles, as variedades RBs ocupam entre 70 a 80% da área de plantio da usina e as variedades mais cultivadas são as RBs 7515, 5536, 579 e 5453. Para eles, investir em melhoramento genético é a forma mais fácil e barata para alcançar o aumento de produtividade e otimização do ATR. A safra da Batatais deve se encerrar na próxima semana, neste ano a produção foi de 3,5 milhões de toneladas e para a próxima safra esperasse um crescimento de 7%.
Variedades, irrigação e mercado – a programação do encontro contou com palestras de pesquisadores das universidades que integram a RIDESA, que falaram sobre as variedades mais utilizadas e os clones promissores que deverão ser lançados brevemente.
Américo José dos Santos Reis, da Universidade Federal de Goiás (UFG), destacou as variedades propícias para a região do cerrado. As Variedades RB no Nordeste e Norte foram apresentadas pelos pesquisadores Geraldo Veríssimo de Souza Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Djalma Eusébio Simões Neto, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRP). Ricardo Augusto de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), falou sobre as Variedades RB no Paraná. Luís Cláudio Inácio da Silveira, Universidade Federal de Viçosa (UFV), abordou as variedades RB em Minas Gerais.
Também fez parte da programação a palestra: Uso de variedades de cana e água na Usina Coruripe, Alagoas, proferida por Pedro José Pontes Carnaúba e Cícero AugustoBastos de Almeida. E, além de ficarem atualizados sobre os temas envolvendo variedades de cana, após a palestra de Guilherme Nastari, diretor da Datagro Consultoria, os participantes saíram do encontro informados sobre a tendência do mercado sucroenergético, números de safra e perspectivas para o setor para 2013
Censo varietal, Mecanização e Cana Energia – em sua palestra, Hoffmann falou sobre variedades RB em São Paulo e no Mato Grosso do Sul. Segundo ele, a rede tem hoje seis materiais entre médios e tardios em fase adiantada de desenvolvimento. "Dentre estes, deveremos liberar algum material ano que vem." O pesquisador aproveitou sua palestra para também analisar o último senso varietal de cana-de-açúcar, que aponta que em 127 unidades se São Paulo e Mato Grosso do Sul, as variedades RBs ocupam 63,2% da área de plantio, 59% da área de corte e 59,7% na área total.
Dos grandes desafios do melhoramento genético de cana-de-açúcar hoje, a mecanização é uma constante. "Todos nossos ensaios são colhidos mecanicamente. Atualmente não temos como conduzir um experimento que não seja mecanizado."
Segundo ele, outro tema que tem sido objeto de estudo dos pesquisadores é a transgenia. "Temos negociado o desenvolvimento de pesquisas nessa área com empresas e outras instituições. Como temos mais de 60% das áreas de cana ocupadas por variedades RBs, muitas empresas nos procuram para fazer experimentos relacionados a essa tecnologia."
Também para Hoffmann, o desenvolvimento de materiais resistentes à seca é dos grandes desafios do programa de desenvolvimento de variedades. Além disso, destaca o programa de Cana Energia, encabeçado na RIDESA pela Universidade Federal de Alagoas. "Com as pesquisas que ocorrem, teremos canas diferentes para regiões diferentes. Com o Cana Energia, a estimativa é que tenhamos um material mais resistente para as regiões mais restritivas. Vamos ter variedades com maior teor de fibra, mais resistentes à seca, com melhor brotação e longevidade", explica.
As pesquisas desenvolvidas na UFAL sob a coordenação do professor Geraldo Veríssimo, no programa de Cana Energia, já têm três anos. "Esse material em desenvolvimento já está na 3ª fase de seleção. Já sentimos que esse material terá potencial produtivo menor para açúcar, mas será mais resistente à seca e produzirá mais massa."