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Unica distorce meta do governo sobre o futuro do etanol no Brasil

Temos de um lado o governo estabelecendo um horizonte medíocre para o etanol e os derivados da cana-de-açúcar, com a manutenção da participação que temos hoje. E de outro, a Unica, com uma estratégia de exaltar uma ambição brasileira que não corresponde a realidade


NovaCana - Publicado: 14 Out 2015 - 10:28 | Atualizado: 16 Out 2015 - 09:03

A presidente da Unica, Elizabeth Farina, apresentou na última quarta-feira no plenário da Câmara dos Deputados a nova interpretação da entidade para os planos do governo federal para a matriz energética nos próximos 15 anos.

Este é claramente um assunto que interessa muito às usinas brasileiras. A última edição do Ethanol Summit chegou a dedicar painel inteiro para discutir a presença do etanol na COP 21.

A entidade, que até então estava cautelosa em analisar os números, mostrou uma opinião singular sobre a intenção brasileira para os deputados que integram a comissão de Minas e Energia.

Farina afirmou que o documento que será a base do compromisso do Brasil na COP 21, o iNDC, prevê que “a participação dos biocombustíveis em 2030 deverá ser de 18%, quando hoje é de 6% e pouco.” Nesta nova interpretação da associação, a proposta de 18% estabelecida pelo Brasil inlcui etanol e biodiesel, mas não a bioeletricidade gerada pelas usinas.

“Isto significa que nós temos um desafio significativo para que em 2030 estejamos produzindo esta quantidade de biocombustível no país”, completou Farina.

Portanto, na visão da Unica, o governo está assumindo um compromisso com o mundo para que nos próximos 15 anos as usinas cresçam de forma nunca vista em país algum. Para estimar o tamanho deste crescimento, o novaCana.com considerou que a matriz energética brasileira crescerá cerca de 40%, em linha com o crescimento esperado pelo PDE 2024 (2,7% a.a.), e o etanol ocupará 14% (sendo os outros 4% ocupados pelo biodiesel, equivalente a uma mistura de B20, 20% do renovável no diesel).

Dessa maneira, em termos práticos, esta interpretação da Unica do iNDC significa que o Brasil teria que sair de uma produção de 28 bilhões de litros para algo perto de 110 bilhões de litros por ano.

O problema da visão da Unica é que ela não encontra qualquer respaldo oficial. A entidade assumiu que o termo “bioenergia sustentável”, usado no iNDC, significa apenas biocombustíveis. No entanto, esta interpretação não é o que foi dito pela presidente Dilma Rousseff em discurso na ONU e vai contra a própria definição do termo.

Porém, como o iNDC ainda não é o documento final, é importante conhecer qual foi a intenção do governo.

Antes da apresentação no Congresso, o novaCana ouviu o MME sobre o assunto e a sinalização dada pelo orgão é diferente da avaliação feita pela entidade que representa as usinas.

O diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis, Ricardo Dornelles, sinaliza que o desafio colocado na prévia dos compromissos para a COP 21 é muito mais natural do que a interpretação feita pela Unica. Para ele o que deverá puxar o avanço dos biocombustíveis é a retomada do crescimento da economia brasileira. “Vamos ter que crescer para acompanhar o crescimento orgânico e também para suprir uma possível demanda maior”, esclarece.

Dornelles ressalta ainda as diversas formas de alcançar o nível de 18%. “Você pode chegar [no compromisso] por diversas vias. Os meios para atingirmos essa meta [de 18%] serão manobrados em função das condições econômicas mais adequadas”, disse.

Dentro do contexto das metas do iNDC, o servidor do MME disse também que é preciso encontrar formas para que o setor volte a investir, mas a preocupação parece estar mais com o crescimento orgânico do que com um plano para quadruplicar a produção de etanol.

“Hoje nós estamos praticamente lotados na capacidade de produção de etanol com o parque industrial aí colocado — embora ainda com alguma capacidade ociosa —  mas, certamente, para atender qualquer demanda de crescimento de mercado precisamos retomar o nível de investimento”, projeta Dornelles.

A leitura da Unica ignora os fatos para apresentar uma visão distorcida do compromisso do governo para a COP 21. Causa estranheza este apoio das usinas para uma inexistente decisão do governo.

Temos de um lado o governo estabelecendo um horizonte medíocre para o etanol e os derivados da cana-de-açúcar, com a manutenção da participação que temos hoje. E de outro, a Unica, com uma estratégia de exaltar uma ambição brasileira que não corresponde a realidade.

Interessante observar também que o novaCana tentou contato diversas vezes com a Unica para esclarecer sua posição e ela não se manifestou.

Julio Cesar Vedana é diretor de redação do novaCana

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