Etanol: Mercado: Gasolina

Etanol: Mercado: Gasolina

Um esqueleto inflacionário


Valor Econômico - Publicado: 12 Set 2013 - 10:02 | Atualizado: 30 Nov -0001 - 21:00
Há vários sinais de que a economia brasileira irá atravessar 2014 sem que alguns problemas importantes sejam enfrentados. Em particular, a economia política sugere que a questão da repressão de preços, especialmente na área de transportes e combustíveis, não deve ser resolvida. Além disso, uma reversão da política fiscal também parece improvável, e sendo assim, a dívida bruta deve seguir em trajetória de alta - os economistas da Brasil Plural estimam que a mesma chegue a 61,5% do PIB em 2014, ante 60,3% no ano corrente.

Ocorre que o enfrentamento desses problemas pode ser postergado, mas não evitado. De certa forma, a mera postergação de uma solução já tem reflexos no presente: a dificuldade experimentada pelo banco central em reancorar as expectativas de inflação pode estar associada, ao menos em parte, ao fato que os analistas esperam: que em algum momento dos próximos 12-24 meses, os preços que têm sido reprimidos, notadamente gasolina, diesel e tarifas de ônibus urbanos, que estão sob congelamento de fato, ainda que não de jure, sejam reajustados (tais itens chegam a 6,6% do IPCA). Sabendo que existe esse problema de inflação reprimida, fica mais difícil para aqueles que têm a responsabilidade de formular projeções adotar plenamente um cenário de desinflação - trata-se, portanto de um esqueleto inflacionário que o próximo governo, independente do resultado da eleição, deverá enfrentar.

Nossa estimativa é que, à taxa de câmbio e aos preços internacionais atuais, considerando custos de frete, a defasagem média dos preços da gasolina e do diesel supera 30%. Do ponto de vista da inflação, considerando o repasse estimado à bomba e os efeitos secundários sobre o preço do álcool, a equalização entre os preços domésticos e internacionais representaria um impacto no IPCA de aproximadamente 105 pontos base. Já a reversão dos cortes de tarifas de ônibus urbanos acrescentaria 13 pontos base à inflação.

Ao se valer dos preços administrados para auxiliar no combate à inflação, o governo só adia o problema

Assim, caso, a despeito de considerações políticas, o governo (ou melhor, os governos, já que as tarifas de ônibus são decisões municipais) resolvesse zerar as defasagens de forma imediata, a inflação subiria para cerca de 7,3% no impacto, com evidente risco secundário de contaminação das expectativas. A vantagem desse tratamento de choque é que o alívio às contas da Petrobras seria maior, e o problema da inflação reprimida seria em boa medida superado.

Mas o risco inflacionário da terapia de choque existe. A Indonésia, por exemplo, removeu o subsídio à gasolina em junho, com um aumento de 44% na bomba, o que levou a inflação anual a saltar de 5,9% para 8,8%.

Uma alternativa seria a terapia gradualista. O México pratica há vários anos uma política de reajustes frequentes dos preços da gasolina, visando eliminar a diferença em relação aos preços internacionais. Este ano o reajuste mensal médio é de 11 centavos de peso, no ano que vem o mesmo passará a 6 centavos, e deve cair para três ou quatro centavos, segundo as autoridades fiscais mexicanas, a partir de 2015.

Tal política tem mantido uma pressão inflacionária persistente, porém declinante, visto que os reajustes são proporcionalmente menores no tempo. A vantagem é que oferece um horizonte para a convergência de preços - mesmo assim o México ainda gasta bastante, cerca de 2% do PIB, em subsídios ao consumo de combustíveis. A estratégia gradualista evita chocar as expectativas, mas tem a desvantagem de postergar uma solução definitiva e adicionar persistência ao processo inflacionário.

No caso da terapia de choque, o teto do limite de tolerância em torno da meta para a inflação seria provavelmente excedido, e o banco central teria que zelar para mitigar os efeitos secundários desse choque de oferta sobre as expectativas e a dinâmica geral dos preços e salários, por meio de um maior aperto da política monetária.

Uma estratégia gradualista não imporia tal desafio, de início, à política monetária, mas acrescentaria risco para a dinâmica dos preços a médio prazo - no caso do México, por sinal, tal estratégia tem sido recorrentemente utilizada por certas autoridades como explicação para a dificuldade crônica em se atingir a meta para inflação.

Ampliando o foco da análise, note-se que a inflação de preços livres está rodando a 7,6%, e a de administrados a 1,3%. A diferença, superior a 6 pontos percentuais, tem se mantido desde fevereiro deste ano, mas dificilmente será sustentável indefinidamente (nos últimos dez anos tal diferença só tinha atingido esse patamar, por apenas um mês, em junho de 2008, quando da explosão dos preços de matérias primas). Caso a inflação de administrados estivesse no patamar observado ao final de 2012, cerca de 3,5%, o que ainda deixaria um hiato de 4 pontos frente à inflação de preços livres, a inflação cheia seria de cerca de 6,7%, também acima do limite de tolerância em torno da meta.

Deve-se notar, também, que a política de utilização de preços administrados para conter a inflação não tem apenas efeitos macroeconômicos, mas também microeconômicos. No caso dos combustíveis, o subsídio ao consumo de gasolina criou um incentivo extra ao uso dos automóveis e do transporte individual, ao contrário do coletivo, com consequências visíveis para todos que habitam as grandes cidades.

Em conclusão, ao se valer dos preços administrados para auxiliar no combate à inflação, o governo tem conseguido evitar que a mesma estoure o teto da banda de tolerância no presente, com o risco de ver isso acontecer no futuro e/ou de ter que conviver com uma postura de política monetária bem mais apertada a partir de 2015.

Mário Mesquita é economista e sócio do banco Brasil Plural. Anteriormente foi diretor de Estudos Especiais e depois diretor de Política Econômica do Banco Central, 2006-2010. Escreve mensalmente às quintas-feiras.