Investimento

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Uisa tem safra maior e receita de R$ 1,86 bi, mas falta “ambiente” para etanol de milho

Em entrevista ao AgFeed, CEO da antiga Usina Itamarati, José Mazuca, prevê moagem de 7,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, com plano de ampliar áreas de irrigação; projetos que totalizam R$ 3 bilhões em investimentos seguem “na gaveta” à espera de mudanças no cenário macroeconômico


AgFeed - Publicado: 27 Jul 2026 - 09:24

A colheita de mais uma safra para a Uisa (antiga Usina Itamarati), uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do país, trouxe motivos para comemoração, com expectativa de novos avanços no ciclo atual.

A moagem de cana atingiu 7,1 milhões de toneladas na safra 2025/26, encerrada em 31 de março deste ano, com alta de 17%. Agora, a expectativa é atingir 7,8 milhões de toneladas, com perspectiva favorável em relação ao clima e à produtividade.

“Nós saímos de uma moagem de 4,8 milhões de toneladas em 2021 para 7,8 milhões de toneladas esse ano. A gente fez praticamente 3 milhões de toneladas a mais. Uma usina média brasileira tem 2 milhões de toneladas. A gente fez uma usina e meia em cinco anos”, afirmou o CEO da Uisa, José Fernando Mazuca Filho, em entrevista exclusiva ao AgFeed.

Os ganhos de produtividade também foram destaque na safra. A produtividade média foi de 90 toneladas de cana por hectare nos últimos cinco anos. Na safra passada, ela chegou a 93 t/ha e, agora, segundo o executivo, deve chegar perto de 100 t/ha.

Mazuca diz que os resultados são a “colheita” de um ciclo de R$ 900 milhões em investimentos com foco na produtividade agrícola, modernização industrial e busca de máxima eficiência na gestão.

O controle de custos é uma das prioridades. Embora o clima tenha ajudado e a safra tenha crescido, os preços não têm subido como o desejado. Enquanto isso, itens que compõem o custo de produção, como alguns fertilizantes, passaram a custar 4 vezes mais, lembrou ele.

“Foi uma gestão de controle de custo muito boa que a gente construiu nesses últimos anos. Isso ajuda muito, em especial para anos mais desafiadores como esse, que a gente tem que pilotar a coisa ali na vírgula mesmo”, disse.

As máquinas agrícolas, a depender do ano, são alugadas ou compradas, o que fizer mais sentido do ponto de vista financeiro. Nesta última safra, a opção foi modernizar o parque adquirindo novos tratores, colhedoras de cana, caminhões e implementos.

O resultado financeiro da última safra da Uisa também foi positivo. A receita atingiu R$ 1,86 bilhão, alta de 2,8% em relação ao ciclo anterior. O Ebitda foi de R$ 941,9 milhões, um aumento de 17,3%. Houve também um lucro líquido de R$ 65 milhões, revertendo um cenário de leve prejuízo na safra anterior.

Para o ciclo atual, o CEO prevê que o cenário ainda será positivo em função da boa produtividade. “Como tem muito volume de produto, o resultado financeiro vai acabar sendo bom, mesmo com um preço substancialmente pior do que o ano passado. Mas a margem talvez um pouco mais comprimida”, prevê.

Investimentos em irrigação

Outra frente para seguir aumentando a produtividade é investir em irrigação. A Uisa tem 25 mil hectares sistematizados para fertirrigação ou irrigação de salvamento. “O plano é subir isso para quase 40 mil hectares”, disse o CEO.

No que se refere à irrigação plena, entre pivôs e gotejamento, a área atual é de 1 mil hectares, mas o projeto é elevar para 5 mil hectares no prazo de até seis anos.

Neste caso, o ritmo dos investimentos não depende tanto da capacidade de Capex da empresa, embora o valor envolvido “não seja irrelevante”, segundo Mazuca. O avanço da irrigação depende também das liberações de outorga para uso da água e licenciamento ambiental, o que costuma levar um certo tempo.

“A gente tem visto, nas áreas de irrigação plena, praticamente 30 a 40 toneladas a mais (de produtividade). Na área de salvamento, são quase 20 toneladas a mais dentro do ciclo. Então, se tem uma cana de 80 toneladas por hectare de média, passa a ter 95 t/ha. Tem bastante atratividade financeira, por isso a gente continua investindo e trabalhando nessas iniciativas”, argumentou.

Projeto bilionário em “stand-by”

O AgFeed mostrou em 2025 que a Uisa tem planos para investir em várias frentes, como etanol de milho e BECCS, a captura e armazenamento de carbono no solo. Ao todo, incluindo ações que envolvem também o biometano, os aportes chegariam a R$ 3 bilhões.

Somente a primeira fase do etanol de milho envolveria investimento de até R$ 850 milhões. “A gente chega em um ano desse, obviamente sempre com a vontade de crescer, de inovar, de fazer mais, mas dado o contexto geral, de preço baixo, juros altos e volatilidade política, com uma robustez operacional muito grande”, avaliou José Mazuca.

Ele admitiu, no entanto, que o cenário macroeconômico segue desfavorável para que as iniciativas que envolvem investimentos mais significativos saiam da gaveta.

“A decisão é: vamos colher os investimentos que a gente fez, vamos maturar isso e esperar um ambiente mais favorável para que a gente faça os próximos movimentos – seja crescer mais a nossa moagem de cana, seja fazer o nosso projeto de etanol de milho, seja retomar a nossa agenda de M&As [sigla em inglês para fusões e aquisições]”, ressaltou.

Apesar dos desafios do momento, a expectativa é de retomada no mercado, segundo ele. “A gente é bastante bullish [altista] com o setor, esse é um horizonte que deve levar mais seis a 18 meses para se acomodar, o futuro continua sendo promissor”, afirma.

No etanol de milho, o projeto que está “prontinho, na gaveta, só esperando o juro baixar e haver uma sinalização melhor sobre a política de preço”. Segundo o CEO, o plano da Uisa é produzir 450 milhões de litros do biocombustível por ano, com o processamento de 1 milhão de toneladas do cereal.

O executivo reclama da política de preços no país que, mesmo com a alta do petróleo, segue segurando os repasses na gasolina e prejudicando a competitividade do etanol.

“É muito frustrante para nós. Para o empresário investir, ele precisa de ferramentas de previsibilidade. É muito ruim você ter um indicador que você projetou e, por uma decisão política, ele não acompanha a receita. Em tese, a gasolina deveria andar com petróleo. Essa é a lógica do nosso negócio”, disse.

O plano de fazer armazenamento de CO2 pela tecnologia conhecida como BECCS também segue de pé, mas também avançando em passos lentos, em função da alta necessidade de investimento. Já foram feitos os estudos com base nos dados existentes e também análises sísmicas de mais de 300 quilômetros na região da Uisa, em Mato Grosso.

“Identificamos o local que seria propício à perfuração do poço. Estamos, nesse momento, fazendo a engenharia. E trabalhando em funding também de uma forma muito segura para a gente também não ter desafio, que não é um projeto de Capex irrelevante. Mas ele está hoje muito mais em estudo ainda conceitual do que em execução”, afirmou.

Futuro do biometano

O CEO da Uisa acredita que o mercado de biometano está amadurecendo e se diz “entusiasta” do setor. “Existem empresas que estão prontas para fornecer isso de forma escalável, confiável para as indústrias, para quem está interessado em investir nesse negócio”.

Ele cita projetos como o da São Martinho, conectado a um gasoduto, e da Cocal, atendendo Presidente Prudente. Também destacou a iniciativa anunciada em junho deste ano pela Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA) e a Geomit, que assinaram um contrato de R$ 1 bilhão para construir uma nova planta de biometano em Uberaba (MG), em parceria com a Gasmig.

“As regiões mais distantes do consumo de gás vão demorar um pouco mais, mas eu acho que isso deve tomar uma proporção, isso deve virar uma realidade para uma parte do setor sucroalcoleiro, assim como construíram fábrica de açúcar, destilaria, fábrica de levedura, cogeração, a vez do biogás está chegando e uma parcela não irrelevante das usinas, passará a ter plantas de biogás de diferentes tamanhos”, pontuou.

No caso específico da Uisa, a empresa chegou a anunciar em 2022 uma parceria com a Geo, com foco no biogás. “Licenciamos, fizemos a engenharia, conseguimos funding, mas a demanda de gás é muito restrita no Mato Grosso”, ponderou.

Nesse cenário, o projeto também segue em espera, até que haja uma demanda maior, principalmente industrial, na região em que está localizada a Uisa.

Alessandra Mello