Pesquisas

Pesquisas

“A transição energética não pode abrir mão do etanol”, dizem professores da USP

Professores da USP elaboraram documento que visa aprimorar o desenvolvimento dos motores de veículos automotores, com o objetivo de diminuir a dependência dos combustíveis fósseis


Agência USP - Publicado: 11 Mar 2026 - 08:51

Professores da escola politécnica da Universidade de São Paulo elaboraram um documento visando contribuir para o estabelecimento do Mapa do Caminho, cujo objetivo é a substituição dos combustíveis fósseis, um dos temas mais discutidos na COP30. O documento foi enviado para os ministérios de Minas e Energia, Meio Ambiente e Mudança de Clima, Fazenda e Casa Civil.

De acordo com os números apresentados, considerando o consumo de energia total no Brasil hoje, aproximadamente 50% vêm de energias renováveis. Para os pesquisadores, isso cria uma “posição muito confortável” para o país em um cenário de mudanças climáticas.

Em relação específica ao transporte – foco principal do trabalho dos professores –, a nação também ocupa uma posição dita confortável, uma vez que 50% da energia utilizada é igualmente renovável.

“A nossa proposta é continuar com os combustíveis renováveis (etanol, biodiesel), que são soluções que nós entendemos que já são bastante consolidadas, [considerando] todos os veículos de passeio flex que nós já temos”, revela o professor Guenther Krieger Filho, que atua na área de engenharia automotiva do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli.

Ele completa: “Nós temos também uma possibilidade de aumentar essa participação dos combustíveis renováveis com o etanol, saindo das aplicações de carros de passeio para veículos maiores, como os de transporte coletivo, urbano e de carga, e aí com a tecnologia de veículos híbridos, elétricos e motor de combustão interna”.

De acordo com ele, três tipos de veículos receberam atenção especial para o aprimoramento dos motores: os de passeio (predominantemente do tipo flex), os comerciais urbanos (ônibus, caminhões pequenos e médios) e os pesados (ônibus e caminhões rodoviários, tratores e máquinas de mineração). Cada um deles tem sua própria especificidade no tocante às formas de energia utilizadas até chegar à eliminação total do combustível fóssil.

“Hoje, metade da energia dos veículos de passeio vem da gasolina e a outra metade, do etanol. A área utilizada para a produção do etanol é de 8,8 milhões de hectares, mas acreditamos que precisaríamos nem chegar a dobrar, porque nós vamos ter o aumento da eficiência dos motores. Acreditamos que, com mais 7 milhões de hectares, a gente já conseguiria substituir a gasolina”, explica o professor Antonio Laganá, também atuando na área de engenharia automotiva da engenharia mecânica.

Ele segue: “Indo para o diesel, supondo que 50% [seja] substituído por etanol e 50% substituído por biodiesel, esses 50% de etanol requerem aproximadamente uma produção de 45 bilhões de litros, e hoje nós produzimos 38 bilhões de litros de etanol. Seriam aproximadamente mais uns 9 milhões de hectares”.

Já em relação ao biodiesel, segundo ele, “com 20, 25 milhões de hectares adicionais, nós conseguiríamos produzir todo o biocombustível necessário para substituir o diesel e o etanol”.

Aprimorar sempre

Ambos os professores concordam que é necessário aprimorar o que já foi feito, com a pretensão de evoluir, melhorando o desenvolvimento dos motores de combustão interna. Mas, para tanto, são necessárias pesquisas.

“Nessa linha, essas ações do Programa Mover já têm apoiado as universidades”, frisa o professor Krieger. Ele lembra que, hoje, é possível desenvolver um motor novo, otimizado para etanol, no Brasil, o que se torna inviável no exterior, seja na Europa, seja nos EUA.

De acordo com ele, é muito importante esse apoio para que universidades e empresas trabalhem juntas para melhoria dos motores de combustão interna, “mas com retorno rápido, em alguns anos, para uma melhora significativa nessa linha”, o que vale também para os motores elétricos.

“Basicamente, é manter a visão de que a transição energética não pode abrir mão do etanol, o que, para o Brasil, seria um contrassenso. Nossa proposta é essa, continuar, aumentar os incentivos para o desenvolvimento tecnológico, porque nós sabemos que isso também tem implicação direta na economia, geração de emprego, industrialização do país. A continuação de projetos de desenvolvimento tecnológico, utilizando etanol e biodiesel”, afirma Krieger.

Ele ainda frisa que o documento enviado se trata de uma contribuição para o Brasil se orientar, visando a uma melhora na diminuição da dependência dos combustíveis fósseis.