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[Opinião] Transição energética e demanda pelo petróleo brasileiro

Tendência atual de descarbonização levaria demanda de petróleo em 2050 a 85 milhões de barris dia; já descarbonização acelerada, a 35 milhões


O Estado de S. Paulo - Publicado: 03 Out 2025 - 15:22

Por Fernando Dantas*

Mantida a atual trajetória de descarbonização da economia mundial, a demanda global por petróleo, hoje na faixa entre 100 a 105 milhões de barris por dia, crescerá ligeiramente até 2035, e cairá para pouco menos de 85 milhões de barris ao dia em 2050.

Já em um cenário em que a descarbonização se acelera significativamente, a demanda cairia para pouco acima de 85 milhões de barris ao dia em 2035, e ligeiramente menos que 35 milhões em 2050.

Essas projeções estão no relatório BP Energy Outlook 2025, da petrolífera BP. O primeiro cenário é chamado de “trajetória corrente” e se baseia nas tendências já existentes em termos do processo global de descarbonização.

O cenário de descarbonização acelerada é chamado de “below 2°”, o que significa conter o aquecimento global, em relação ao período pré-industrial, a um aumento de temperatura de no máximo dois graus centígrados.

Segundo o relatório, o cenário “bellow 2°” supõe que as emissões líquidas caiam, até 2050, a 10% do seu nível em 2023.

A hipótese básica desse cenário é que, levada pela preferência e mudança de comportamentos das sociedades, as políticas climáticas dos países sejam significativamente apertadas em relação ao padrão atual.

O relatório não atribui probabilidades a esses dois cenários, mas considera que eles formam um intervalo razoável em termos de projetar o que efetivamente vai ocorrer.

O economista Bráulio Borges, da LCA 4intelligence e FGV-IBRE, nota que o cenário “bellow 2°” é compatível com as metas do Acordo de Paris de 2015. O tratado definiu que os países deveriam agir para manter o aquecimento global no limite de 1,5 a 2 graus centígrados acima da temperatura do período pré-industrial. E esse objetivo significa zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2050 ou 2060.

Mas Borges frisa que, por vezes, o público interpreta erradamente o que seria zerar as emissões líquidas. Isso não significa parar totalmente de emitir, já que, assim como o uso de combustíveis fósseis e desmatamento aumentam as emissões brutas, reflorestamento e até o processo industrial de captura de carbono (ainda incipiente) reduzem as emissões líquidas.

Um ponto que chamou a atenção do economista nas projeções da BP é que, mesmo no cenário “bellow 2°”, com hipótese muito otimista sobre aceleração da descarbonização, o mundo em 2050 ainda estará consumindo 35 milhões de barris diários de petróleo. Embora seja uma enorme queda em relação ao patamar atual, 35 milhões de barris ao dia significam que o petróleo ainda se manterá como uma das commodities mais demandadas do mundo.

Borges observa que, depois do Oriente Médio, o pré-sal do Brasil é uma das áreas petrolíferas de menor custo de extração no mundo. Uma demanda de 35 a 40 bilhões de barris por dia provavelmente incluiria a produção do Brasil, mas possivelmente não o petróleo e gás de “shale” de países como Estados Unidos, Canadá e México.

Inclusive, com o atual recuo do barril do petróleo para o nível em torno de US$ 65, a produção de petróleo dos Estados Unidos já está caindo, aponta o analista.

Evidentemente, no cenário “trajetória corrente” da BP, com demanda de 85 milhões de barris por dia em 2050, o petróleo brasileiro seria igualmente crucial.

Segundo o economista, é nesse contexto, de um mundo que ainda demandará petróleo brasileiro em meados deste século, que o país deve avaliar a questão de explorar a Margem Equatorial. A demanda por petróleo, ainda que reduzida, vai sobreviver à transição energética.

* Fernando Dantas é colunista do Broadcast


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