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Trabalhadores rurais resgatados em canavial revelam coação de empregador

Resgatados em fazenda de cana-de-açúcar em Porteirão (GO) tinham que pagar pelas próprias ferramentas e trabalhavam em condições precárias


G1 - Publicado: 04 Mai 2023 - 08:57 | Atualizado: 04 Mai 2023 - 09:33

Durante uma ação de fiscalização que fez parte de uma grande operação em fazendas da zona rural de Goiás, trabalhadores denunciaram que foram coagidos pelos empregadores a mentir.

Ao Profissão Repórter, ainda na lavoura, Paulo Márcio, revelou: “Falaram que era para a gente mentir se vocês viessem para cá, que estava tudo legal. Mas não tem nada legal aí não, está tudo errado”.

Nos alojamentos na cidade, onde vários problemas foram encontrados, outro trabalhador, José de Oliveira Marques contou que um colega foi mandado embora após fazer reclamações.

“Veio aqui e falou que se vocês não resolverem nada, fica pior para nós. Chegou uma pessoa da usina lá e disse: ‘quem quiser falar alguma coisa, pode falar que nós estamos aqui para ajudar’. O menino falou, deu três dias e mandaram ele descer. Reclamou, foi embora”, disse.

Depois de constatar que as condições de trabalho eram realmente precárias, os auditores do Ministério do Trabalho interditaram a frente de trabalho na lavoura. Entre os motivos, estava a falta de instalação sanitária e a deficiência no fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Os trabalhadores ainda tinham que pagar R$ 80 pelas ferramentas de trabalho: enxada e facão. “Eu paguei quando recebi o pagamento logo, à vista. Descontou”, disse Paulo Martins.

A fazenda onde os trabalhadores estavam pertence à multinacional BP Bunge, uma união de duas grandes empresas, uma americana e uma britânica, que produz etanol, açúcar e bioeletricidade.

Em resposta a um questionamento do auditor, um representante da BP Bunge presente no local disse que não sabia que as ferramentas utilizadas pelos trabalhadores foram compradas por eles.

Ele também foi perguntado sobre as condições dos alojamentos. “A gente não tem controle sobre onde as pessoas vão morar. Quando a gente fez o contrato, o Fred, que é o proprietário da empresa, inclusive, colocou que ele não é responsável por alojar, que as pessoas teriam que ter casa na cidade”, disse.

Ao ser abordado pelo jornalista Caco Barcellos, o representante da empresa se recusou e justificou: “[Não vou falar] porque não preciso. Se o senhor precisar de alguma informação, pode procurar o jurídico da nossa empresa. Eu não vou falar com o senhor”.

Com medo de represálias, trabalhadores foram tranquilizados pelo delegado da Polícia Federal que estava na operação.

“A gente só vai sair daqui depois de vocês. A gente está acostumado com esse tipo de trabalho. Qualquer ameaça, coação, alguma coisa nesse sentido, nós estamos à disposição para receber a notícia”, afirmou.