NovaCana

Think tank analisa etanol no Brasil e pede para o mundo repensar apoio aos biocombustíveis

china poluicao 050215Em um momento mundial delicado, de baixo preço do petróleo, debate sobre os benefícios dos biocombustíveis volta as páginas do principal jornal diário do mundo

NovaCana 6 min de leitura

Estudo publicado esta semana pelo World Resources Institute (WRI), um proeminente think tank ambiental norte-americano, pediu aos governos que reconsiderem o apoio aos biocombustíveis. O trabalho ganhou destaque nas páginas do The New York Times. 

Polêmica, a pesquisa faz duras críticas à “limitada” capacidade dos renováveis - entre eles, o etanol brasileiro produzido a partir da cana-de-açúcar - de suprir a demanda mundial de combustíveis e reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

Com o apoio financeiro de instituições e governos como o Ministério de Relações Exteriores da Noruega, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e o Banco Mundial, o estudo de 44 páginas reduz a quase zero a conhecida contribuição dos biocombustíveis para o meio ambiente, uma bandeira amplamente defendida pelo setor de etanol no Brasil.

Tanto na entrevista concedida ao mais importante jornal do mundo, quanto no estudo publicado esta semana, pesquisador da Universidade de Princeton tenta desmistificar a ideia de que os biocombustíveis, incluindo o etanol de cana-de-açúcar, contribuem para a redução na emissão de dióxido de carbono (CO2).

Estudo publicado esta semana pelo World Resources Institute (WRI), um proeminente think tank ambiental norte-americano, pediu aos governos que reconsiderem o apoio aos biocombustíveis. O trabalho ganhou destaque nas páginas do The New York Times.

Polêmica, a pesquisa faz duras críticas à “limitada” capacidade dos renováveis - entre eles, o etanol brasileiro produzido a partir da cana-de-açúcar - de suprir a demanda mundial de combustíveis e reduzir a emissão de gases de efeito estufa.

Com o apoio financeiro de instituições e governos como o Ministério de Relações Exteriores da Noruega, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e o Banco Mundial, o estudo de 44 páginas reduz a quase zero a conhecida contribuição dos biocombustíveis para o meio ambiente, uma bandeira amplamente defendida pelo setor de etanol no Brasil.

O texto, assinado pelo pesquisador da Universidade de Princeton e um conhecido crítico do etanol, Tim Searchinger, argumenta, entre outros pontos, que a produção de combustíveis a partir das chamadas “food crops”, como o milho e a cana-de-açúcar, “intensificam a competição global por terras” e são um entrave aos esforços para combater as mudanças climáticas e alcançar um futuro alimentar sustentável”.

“Eu diria que muitos dos argumentos em favor dos biocombustíveis têm sido dramaticamente exagerados”, desafiou Searchinger, em entrevista ao jornal The New York Times, um dos primeiros a repercutir a pesquisa.

Tanto na entrevista concedida ao mais importante jornal do mundo, quanto no estudo publicado esta semana, o pesquisador tenta desmistificar a ideia de que os biocombustíveis, incluindo o etanol de cana-de-açúcar, contribuem para a redução na emissão de dióxido de carbono (CO2).

“A queima da biomassa, seja diretamente como lenha ou na forma de etanol ou biodiesel, emite dióxido de carbono do mesmo jeito que a queima de combustíveis fósseis. De fato, queimar a biomassa diretamente emite ao menos um pouco mais de CO2 que os combustíveis fósseis [e isso] pela mesma quantidade de energia gerada”, diz um trecho do relatório. 

Nem mesmo o etanol de cana brasileiro, defendido pela Unica como um importante aliado para a redução dos gases de efeito estufa e considerado pelo governo da Califórnia como um combustível avançado de baixo carbono (CI), saiu ileso às críticas do WRI.

Etanol de cana na berlinda

text box6 ethanol brazil 050215Mesmo considerando o uso da palha para a cogeração, o WIR, conhecido por suas posições apartidárias e incisivas em relação ao meio ambiente, lança dúvidas sobre a sustentabilidade do etanol produzido no Brasil.

“O etanol de cana-de-açúcar deveria ser uma exceção à recomendação de evitar a bioenergia que faz o uso dedicado da terra?”, questiona o documento.

E responde: “A cana-de-açúcar é uma cultura perene, de alto rendimento, que faz um uso relativamente modesto de nitrogênio. Seus co-produtos são queimados para gerar a energia, para fermentar os açúcares e muitas vezes geram excedente de eletricidade. Ainda assim, se a cana-de-açúcar para a produção de etanol transformar diretamente o Cerrado ou a Floresta Amazônica [em áreas de cultivo], é provável que ela irá emitir carbono o suficiente para cancelar todas ou muitas de suas vantagens quanto a emissão de gases de efeito estufa por muitos anos”, aponta o relatório.

No Brasil, as áreas de expansão de cana-de-açúcar são o resultado da conversão de pastagens em lavouras. Portanto, não há, em boa parte dos casos, um desmatamento direto das florestas, o que geraria um payback de carbono – tempo necessário para a cana-de-açúcar “neutralizar” a emissão de gases de efeito estufa – relativamente rápido.

“Se isso encerrasse a história, o etanol da cana-de-açúcar poderia ser considerado um imbatível sucesso de carbono. Contudo, pelo menos em alguns anos, quase um terço das áreas de expansão de cana-de-açúcar substituíram outras culturas, e tais culturas devem, por sua vez, ser deslocadas para outras áreas”, considera o documento.

Seguindo esta linha de raciocínio, o estudo questiona, ainda, se a conversão de pastagens para a produção de cana-de-açúcar não estaria incentivando o desmatamento de florestas – que absorvem CO2 - em outras regiões, como o Cerrado, a Amazônia e a floresta do Chaco, no Paraguai.

“Embora seja difícil definir quais seriam as consequências imediatas dos gases de efeito estufa do etanol de cana, os custos de oportunidade ainda explicam porque até mesmo estes biocombustíveis não deveriam fazer parte de um futuro sustentável para os alimentos”, argumenta a pesquisa.

“Em poucas palavras, as perspectivas favoráveis para a intensificação das pastagens e a produção agrícola no Brasil não alteram, em geral, a limitada capacidade das terras em todo o mundo de suprir as necessidades [do planeta por] madeira e alimentos. De fato, o potencial para aumentar as pastagens e a produção agrícola no Brasil aumentam o custo de oportunidade em dedicar [estas terras] para [a produção de] biocombustíveis”. O custo de oportunidade corresponde às oportunidades e respectivos retornos que são renunciados quando opta-se por uma escolha em detrimento de outra.

Considerando a “enorme capacidade” do país de alavancar a produção de carne, alimento que poderia ajudar a reduzir a fome no mundo, o estudo, que tem causado polêmica entre pesquisadores brasileiros, chega a sugerir que o país dedique mais terras à produção de gado de corte do que à fabricação de biocombustíveis como o etanol.

“Seria, então, mais socialmente e ambientalmente valioso para Brasil contribuir mais do que um quinto da necessidade adicional de carne [do planeta] do que desviar pastagens potencialmente produtivas para a bioenergia”, propõe o think tank norte-americano.

“O Brasil está numa posição diferenciada para ajudar a alimentar o mundo, e numa perspectiva global, este é o uso mais vantajoso de seus enormes recursos naturais e agrícolas”, conclui.

O portal NovaCana buscou pesquisadores brasileiros para comentarem as conclusões do estudo. Mais detalhes sobre a opinião dos cientistas serão publicados em breve.

Para ler o estudo completo, clique aqui.

Leonardo Siqueira – NovaCana

Compartilhar: