Profissionais detalham possibilidades e o que pode ser feito para evitar o problema
Em uma viagem de carro pelo interior de São Paulo, o que pode ser uma bela paisagem para um turista é um pesadelo para o produtor: o florescimento da cana-de-açúcar. Enquanto a soja e o milho, por exemplo, são grãos que surgem somente após o florescimento da planta, a cana precisa ser aproveitada antes disso, em sua fase vegetativa e não na reprodutiva.
“Toda planta quer florescer para deixar descendentes. A cana é uma das poucas culturas em que não queremos isso, pois colhemos o colmo; ela passa todo o tempo acumulando açúcares para poder florescer e o produtor fica tentando enganá-la para colher antes”, explica o professor da Esalq/USP e um dos responsáveis pelo Sistema TempoCampo, Fábio Marin.
Ele alerta que, conforme análises do TempoCampo, a safra 2023/24 no Centro-Sul tende a ser bastante florífera considerando os primeiros dias do período indutivo. “Nós monitoramos cerca de 60 usinas e mandamos relatórios para elas sobre as probabilidades, que são muito altas em praticamente todo o Centro-Sul”, detalha.
Para Marin, a cana é sensível para produzir flor de 1ª de fevereiro a 22 de março. “É como se ela tivesse um reloginho interno monitorando as condições do clima e, se entende que há condições favoráveis, fabrica a gema. Com isso, a cana irá florescer em abril, pois vai passar um período gestando essa flor”, completa.
Já o professor Miguel Angelo Maniero, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tem uma visão diferente, pois acha que ainda é cedo para fazer uma avaliação. Ele reitera que o momento para verificar o florescimento é no período indutivo, quando a cana recebe estímulo para produzir as flores.
“Ele ocorre quando o fotoperíodo cai de 12h30 para 12h. Isso começa a partir de 25 de fevereiro e vai até 20 de março, quando estamos terminando o verão e iniciando o outono”, diz. Nesse período, de acordo com Maniero, precisam ocorrer algumas situações específicas de temperatura.
Confira na versão completa (restrita aos assinantes do NovaCana) mais detalhes sobre as chances de florescimento, como saber se ela pode ocorrer e como evitar danos.
Em uma viagem de carro pelo interior de São Paulo, o que pode ser uma bela paisagem para um turista é um pesadelo para o produtor: o florescimento da cana-de-açúcar. Enquanto a soja e o milho, por exemplo, são grãos que surgem somente após o florescimento da planta, a cana precisa ser aproveitada antes disso, em sua fase vegetativa e não na reprodutiva.
“Toda planta quer florescer para deixar descendentes. A cana é uma das poucas culturas em que não queremos isso, pois colhemos o colmo; ela passa todo o tempo acumulando açúcares para poder florescer e o produtor fica tentando enganá-la para colher antes”, explica o professor da Esalq/USP e um dos responsáveis pelo Sistema TempoCampo, Fábio Marin.
Ele alerta que, conforme análises do TempoCampo, a safra 2023/24 no Centro-Sul tende a ser bastante florífera considerando os primeiros dias do período indutivo. “Nós monitoramos cerca de 60 usinas e mandamos relatórios para elas sobre as probabilidades, que são muito altas em praticamente todo o Centro-Sul”, detalha.
Para Marin, a cana é sensível para produzir flor de 1ª de fevereiro a 22 de março. “É como se ela tivesse um reloginho interno monitorando as condições do clima e, se entende que há condições favoráveis, fabrica a gema. Com isso, a cana irá florescer em abril, pois vai passar um período gestando essa flor”, completa.
Já o professor Miguel Angelo Maniero, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tem uma visão diferente, pois acha que ainda é cedo para fazer uma avaliação. Ele reitera que o momento para verificar o florescimento é no período indutivo, quando a cana recebe estímulo para produzir as flores.
“Ele ocorre quando o fotoperíodo cai de 12h30 para 12h. Isso começa a partir de 25 de fevereiro e vai até 20 de março, quando estamos terminando o verão e iniciando o outono”, diz. Nesse período, de acordo com Maniero, precisam ocorrer algumas situações específicas de temperatura.
“Fazer uma antecipação da possibilidade de florescimento antes do final do período de queda do comprimento do dia, na minha visão, é um pouco temeroso”, explicita. Ainda que haja uma quantidade de chuvas elevada em toda a região Centro-Sul do Brasil, o que pode contribuir, o principal fator segue sendo a indução.
Para a análise, o professor da UFSCar explica que é necessário fazer uma contagem das noites com temperaturas mínimas maiores do que 18°C e dos dias com temperatura máxima menores do que 31°C, entre 25 de fevereiro e 20 de março.
Marin ainda explica que o principal elemento, no entanto, é a nebulosidade; é nela que ocorre a redução da temperatura máxima e o aumento da mínima. Desse modo, conforme detalha o professor, dias com baixa amplitude térmica são mais favoráveis. Ele complementa que, além de temperaturas diurnas e noturnas, a umidade do solo é outro fator que potencializa o fenômeno.
“A cana não gosta de frio, de calor excessivo e de seca para florescer. Quando tem baixa temperatura diurna, ou seja, nebulosidade durante o dia, alta temperatura noturna e alta disponibilidade de água no solo, a cana entende que pode florescer”, Fabio Marin (TempoCampo)
Correr atrás antes do prejuízo
A visão do professor da Esalq/USP é que esse momento serve de aviso para que os produtores se adiantem, uma vez que existem estratégias químicas que podem ser aplicadas nos canaviais a fim de evitar o florescimento. “Quando tem um alerta de que vai florescer naquele campo, as empresas voam e aplicam o produto para atrasar ou evitar o florescimento e colhem a cana o mais rápido possível”, detalha.
Conforme Maniero, podem ser aplicados maturadores por meio de aviação ou com pulverizadores. Com isso, é possível retardar um pouco mais o corte da cana, que fica mais tempo no campo, aumentando seu teor de sacarose.
Marin ainda explica que esse é um processo normal da planta, especialmente nas variedades mais floríferas, quando a cana considera que há condições propícias para a semente. O fenômeno se relaciona com o centro de origem da cana, localizado na Oceania, segundo o professor.
Ou seja, quando encontra condições que considera favoráveis, conforme a sua memória genética, a cana solta as suas sementes.
Efeitos indesejados do florescimento
Para produzir a flor, a planta usa todo o açúcar dentro do colmo. Assim, a floração reduz o açúcar total recuperável (ATR), algo altamente indesejado para os produtores de açúcar e etanol. “Ela investe todo o potencial estocado de sacarosa para produzir essa gema”, explicita Marin.
Com isso, a planta perde água e açúcar, ganhando fibra. Quando vai para a usina, há pouco para extrair. “Se a cana já floresceu, tem pouca coisa para fazer, pois o açúcar já se perdeu. É preciso agir antes de florescer. Seja antecipando a colheita nos campos ou aplicando o produto para evitar o florescimento”, diz Marin.
Além disso, existem variedades mais ou menos floríferas e o produtor precisa saber exatamente quais tendem a ter ou não esse fenômeno. “Isso é um dos argumentos para vender variedades. Tem grandes diferenças entre elas e tem manejos possíveis para lidar com essa situação”, completa o pesquisador do TempoCampo.
Marin ainda cita um artigo chamado “Efeitos da floração na produtividade e qualidade da cana-de-açúcar” (tradução livre), de P. Seshagiri Rao, publicado na Experimental Agriculture, ligada à Universidade de Cambridge. Conforme a pesquisa, foi detectada uma redução da produtividade de 56% na cana planta e de 34% da cana soca quando ocorre o florescimento.
Maniero completa que a cana fica “isoporizada” e seca, com a extração de ATR cada vez mais difícil. Ele lembra que o plantio de cana, principalmente na região Centro-Sul, é feito no final da safra, por volta de outubro a novembro, e também há cultivos a partir de fevereiro.
“Nessas canas pequenas, se houver indução de florescimento, é preciso passar a roçadeira. Tem que cortar, pois ela não vai dar caldo; é como um capim. Ela estava muito nova quando induziu o florescimento”, explica o professor da UFSCar.
Ele diz que, portanto, o florescimento é problemático nas áreas de reforma, uma vez que após cinco ou seis cortes é preciso eliminar a planta e preparar o solo novamente para renovar a área. “Se o produtor plantou no final de janeiro e há indução do florescimento agora, a cana para de crescer entre maio e junho, e o produtor perde a área. É uma perda total”, diz.
Já no caso das plantas maiores, que foram cortadas em meados do ano anterior, a cana terá um tamanho bom para corte, mas estará “isoporizada”, fator problemático para a indústria. “O que é bom para o melhoramento genético, não é bom para a indústria. No melhoramento, esse florescimento é induzido em estações específicas para isso”, explica Maniero.
Ele completa ainda que as sementes que surgem na região do Centro-Sul são inviáveis para uso. “Nós temos uma estação de florescimento lá em Alagoas, na Serra do Ouro. Ali é uma região em que há condição climática para viabilização das sementes”, explica.
Ajuda matemática
Maniero explica que um nível de florescimento fora do comum, ocorrido em 1982, motivou a equipe da UFSCar a desenvolver uma fórmula para indicar se o fenômeno ocorrerá ou não. “Em São Paulo, tinha uma variedade chamada NA5679 que era a mais plantada. Em torno de 70% dos canaviais tinham essa variedade. Naquele ano, floresceu o estado inteiro”, relata.
O fato chamou atenção e as usinas ficaram preocupadas. “Começamos a estudar as causas e chegamos a uma equação que leva em consideração as temperaturas mínimas e máximas nesse período de 25 de fevereiro a 20 de março. Fazendo a coleta é só usar a equação e verificar se realmente irá florescer ou não”, explica.
O professor detalha que a conta não resulta no percentual do florescimento, mas sim se há probabilidade ou não de ocorrer. “Isso ajudou bastante, pois a maior parte das usinas verificam se há propensão de florescimento. Cada uma já conhece a variedade que tem plantada na sua propriedade e sabe qual precisa cortar mais cedo, qual pode esperar mais um pouco e, assim, minimiza as possíveis perdas”, considera.
Além disso, novas variedades surgiram e a NA5679 não é mais plantada, de acordo com Maniero. “Quase todo ano surgem novas variedades de cana-de-açúcar. Hoje já existe um trabalho muito forte nos programas de melhoramento para que surjam variedades com um percentual baixo de florescimento”, explica.
Com isso, há anos que praticamente nem se leva em consideração essa possibilidade, pois os cultivares são mais resistentes.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana