Com uma argumentação firme, o relatório do Tribunal de Contas da União levanta diversas questões que reforçam a legitimidade das críticas do setor sucroalcooleiroVeja também:
- Os destaques das críticas do TCU à política do governo envolvendo o etanol
- Os argumentos e as recomendações do TCU
- A constatação amarga ao governo: "o país ainda não consolidou a tão propalada autossuficiência"
- Análise do endividamento da Petrobras
- Argumentação firme do TCU dá mais legitimidade às críticas do setor sucroalcooleiro
O Tribunal de Contas da União (TCU) analisou a política do governo do ano passado e um dos destaques ficou por conta da maneira como o setor de combustíveis foi conduzido. Segundo a avaliação, "o setor de abastecimento da Petrobras continuará a ter prejuízos, até que haja mudanças no cenário atual". O relatório e parecer prévio sobre as contas do Governo da República, aprovados no dia 29 de maio, apresentam ao país o diagnóstico do Tribunal sobre o desempenho da gestão pública em 2012.
Mesmo com o foco voltado aos cofres da União, o relatório elencou o biocombustível de cana como um dos prejudicados em decorrência das escolhas federais. "Destaque-se que essas ações causaram efeito direto no mercado de etanol, que perdeu competitividade frente à gasolina". Situação oposta à do concorrente fóssil. "A gasolina foi duplamente subsidiada, tanto por uma sistemática de preços desalinhada dos custos efetivamente incorridos pela Petrobras quanto pela política de renúncia fiscal [retirada das alíquotas da Cide-Combustíveis]". Com isso, o texto considera que o reajuste do ano passado, em 6% nas refinarias da Petrobras, não reverteu em recuperação efetiva do preço praticado no país em relação aos custos no mercado internacional.
A argumentação firme do TCU converge com o discurso do setor sucroenergético e lhe empresta ainda mais legitimidade. Está em questão o fato de o subsídio ao preço da gasolina ser duplamente prejudicial: ao mesmo tempo abre um rombo nas contas públicas, impede que haja uma competição leal entre a opção fóssil e o biocombustível. Para reverter o déficit da petrolífera, o documento faz recomendações expressas sobre o que precisa ser alterado no panorama.
Voltando à avaliação para a estatal, o documento relaciona a inversão do desempenho do petróleo na balança comercial. Caso o Brasil tivesse mantido o desempenho que registrava em 2010 com a exportação, conforme o documento, o saldo seria positivo em R$ 3 bilhões.
Ao examinar receitas e dispêndios com a importação e exportação de petróleo e derivados, o TCU expressa uma constatação que, embora não surpreenda, é amarga ao governo. "Verificou-se que, em face da incapacidade atual de atendimento da demanda de derivados pelas refinarias nacionais, o país ainda é fortemente dependente de importações". E conclui: "Demonstrando que o país ainda não consolidou a tão propalada autossuficiência".
Em terceiro lugar, o TCU aponta a importação de derivados a preços mais elevados do que os praticados no mercado interno. Como a companhia precifica a gasolina e o óleo diesel sem utilizar os custos de produção ou importação, as perdas acabam acentuadas. Em consequência, o preço menor alimenta o ciclo com o aumento do consumo de gasolina. O último fator relacionado é a ausência de uma sinalização de mercado que evidencie a necessidade de adequação do consumo. Aliás, a política tem se movimentado no sentido contrário.
Influenciado por preços mantidos de forma artificial e políticas de redução de impostos no setor automotivo, o relatório constata que a demanda registrada não corresponde às taxas de crescimento do PIB. "Tal circunstância, aliás, acaba por gerar um quadro incongruente com o de baixa atividade econômica, identificado em 2012, já que tais variáveis deveriam caminhar na mesma direção, considerando que o consumo de combustíveis é termômetro da situação da economia".
Neste sentido, o parecer faz ressalvas ao desempenho de braços da estatal: Petrobras International Braspetro B.V. (PIB BV), empresa ligada à área de negócios internacional; Petrobras Netherlands B.V. (PNBV), ligada à estrutura de exploração e produção (E&P) e responsável pelas atividades de compra, venda, permuta de sondas, plataformas e unidades de perfuração; e Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras). Segundo o relatório, as três empresas tiveram execução de despesa sem suficiente dotação no orçamento de investimento. Assim como foi extrapolado o montante de recursos aprovados para a fonte de financiamento "Recursos Próprios - Geração Própria".
Consideradas as ressalvas, o Tribunal recomenda que a execução do orçamento de investimento se mantenha adequada à dotação autorizada para as respectivas programações e que se observe o valor aprovado para as respectivas fontes de financiamento na lei orçamentária, ou, se promova a adequação desses valores de acordo com o disposto na lei de diretrizes orçamentárias.
O TCU ainda recomenda ao Conselho Nacional de Política Energética que, em conformidade com a competência de assegurar o adequado funcionamento do Sistema Nacional de Estoques Estratégicos de Combustíveis e o cumprimento do Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis, "tome providências no sentido de que o Poder Executivo encaminhe, anualmente, o Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis como parte integrante do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias".
A íntegra do documento pode ser acessada clicando aqui.
Amanda SchArr – NovaCana
- Os destaques das críticas do TCU à política do governo envolvendo o etanol
- Os argumentos e as recomendações do TCU
- A constatação amarga ao governo: "o país ainda não consolidou a tão propalada autossuficiência"
- Análise do endividamento da Petrobras
- Argumentação firme do TCU dá mais legitimidade às críticas do setor sucroalcooleiro
O Tribunal de Contas da União (TCU) analisou a política do governo do ano passado e um dos destaques ficou por conta da maneira como o setor de combustíveis foi conduzido. Segundo a avaliação, "o setor de abastecimento da Petrobras continuará a ter prejuízos, até que haja mudanças no cenário atual". O relatório e parecer prévio sobre as contas do Governo da República, aprovados no dia 29 de maio, apresentam ao país o diagnóstico do Tribunal sobre o desempenho da gestão pública em 2012.
Mesmo com o foco voltado aos cofres da União, o relatório elencou o biocombustível de cana como um dos prejudicados em decorrência das escolhas federais. "Destaque-se que essas ações causaram efeito direto no mercado de etanol, que perdeu competitividade frente à gasolina". Situação oposta à do concorrente fóssil. "A gasolina foi duplamente subsidiada, tanto por uma sistemática de preços desalinhada dos custos efetivamente incorridos pela Petrobras quanto pela política de renúncia fiscal [retirada das alíquotas da Cide-Combustíveis]". Com isso, o texto considera que o reajuste do ano passado, em 6% nas refinarias da Petrobras, não reverteu em recuperação efetiva do preço praticado no país em relação aos custos no mercado internacional.
A argumentação firme do TCU converge com o discurso do setor sucroenergético e lhe empresta ainda mais legitimidade. Está em questão o fato de o subsídio ao preço da gasolina ser duplamente prejudicial: ao mesmo tempo abre um rombo nas contas públicas, impede que haja uma competição leal entre a opção fóssil e o biocombustível. Para reverter o déficit da petrolífera, o documento faz recomendações expressas sobre o que precisa ser alterado no panorama.
Voltando à avaliação para a estatal, o documento relaciona a inversão do desempenho do petróleo na balança comercial. Caso o Brasil tivesse mantido o desempenho que registrava em 2010 com a exportação, conforme o documento, o saldo seria positivo em R$ 3 bilhões.
Ao examinar receitas e dispêndios com a importação e exportação de petróleo e derivados, o TCU expressa uma constatação que, embora não surpreenda, é amarga ao governo. "Verificou-se que, em face da incapacidade atual de atendimento da demanda de derivados pelas refinarias nacionais, o país ainda é fortemente dependente de importações". E conclui: "Demonstrando que o país ainda não consolidou a tão propalada autossuficiência".
Aspectos do cenário atual
Quando aponta que apenas cessarão os prejuízos da Petrobras se algo for alterado no cenário atual, o relatório considera quatro aspectos inter-relacionados. O primeiro é a demanda crescente por derivados fósseis. "O crescimento acentuado no consumo de gasolina impactou o perfil de importação e exportação de derivados, saindo o país da situação de exportador de gasolina, com receitas de quase 2 bilhões de dólares, em 2007, para a de importador, com gastos em torno de 3 bilhões de dólares, em 2012". A importação para fazer frente à demanda, também está imediatamente relacionada com o outro aspecto: a incapacidade de a estatal ampliar, no curto prazo, a oferta de combustíveis através do aumento da capacidade de refino.Em terceiro lugar, o TCU aponta a importação de derivados a preços mais elevados do que os praticados no mercado interno. Como a companhia precifica a gasolina e o óleo diesel sem utilizar os custos de produção ou importação, as perdas acabam acentuadas. Em consequência, o preço menor alimenta o ciclo com o aumento do consumo de gasolina. O último fator relacionado é a ausência de uma sinalização de mercado que evidencie a necessidade de adequação do consumo. Aliás, a política tem se movimentado no sentido contrário.
Influenciado por preços mantidos de forma artificial e políticas de redução de impostos no setor automotivo, o relatório constata que a demanda registrada não corresponde às taxas de crescimento do PIB. "Tal circunstância, aliás, acaba por gerar um quadro incongruente com o de baixa atividade econômica, identificado em 2012, já que tais variáveis deveriam caminhar na mesma direção, considerando que o consumo de combustíveis é termômetro da situação da economia".
Ressalvas e recomendações
Ao mesmo tempo em que a produção dos derivados de petróleo é insuficiente para atender ao mercado interno, a Petrobras aumentou seu endividamento para atender ao grande volume de investimentos previstos no Plano de Negócios. "No que se refere à análise de endividamento da Companhia, constatou-se que, desde 2010, além da operação de capitalização da empresa, da ordem de 120 bilhões de reais, houve incremento do endividamento de longo prazo em aproximadamente 80 bilhões de reais".Neste sentido, o parecer faz ressalvas ao desempenho de braços da estatal: Petrobras International Braspetro B.V. (PIB BV), empresa ligada à área de negócios internacional; Petrobras Netherlands B.V. (PNBV), ligada à estrutura de exploração e produção (E&P) e responsável pelas atividades de compra, venda, permuta de sondas, plataformas e unidades de perfuração; e Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobras). Segundo o relatório, as três empresas tiveram execução de despesa sem suficiente dotação no orçamento de investimento. Assim como foi extrapolado o montante de recursos aprovados para a fonte de financiamento "Recursos Próprios - Geração Própria".
Consideradas as ressalvas, o Tribunal recomenda que a execução do orçamento de investimento se mantenha adequada à dotação autorizada para as respectivas programações e que se observe o valor aprovado para as respectivas fontes de financiamento na lei orçamentária, ou, se promova a adequação desses valores de acordo com o disposto na lei de diretrizes orçamentárias.
O TCU ainda recomenda ao Conselho Nacional de Política Energética que, em conformidade com a competência de assegurar o adequado funcionamento do Sistema Nacional de Estoques Estratégicos de Combustíveis e o cumprimento do Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis, "tome providências no sentido de que o Poder Executivo encaminhe, anualmente, o Plano Anual de Estoques Estratégicos de Combustíveis como parte integrante do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias".
A íntegra do documento pode ser acessada clicando aqui.
Amanda SchArr – NovaCana