Etanol: Mercado

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[Opinião] Tarifa de 25% imposta pelos EUA impactará açúcar e etanol de formas distintas


Hedgepoint - Publicado: 17 Jul 2026 - 09:43

Por Carlos Murilo Barros de Mello*

Em relação à tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos para os produtos brasileiros, é importante analisar os impactos para o setor sucroenergético sob duas perspectivas distintas: açúcar e etanol.

No caso do etanol, o Brasil exporta anualmente para os Estados Unidos entre 250 milhões e 350 milhões de litros de etanol carburante, utilizado na mistura da gasolina americana.

Embora esse volume seja pequeno tanto para o fluxo global de comércio quanto para o mercado brasileiro, ele tem relevância para as usinas do Nordeste, especialmente de Pernambuco e Alagoas, que concentram boa parte dessa produção destinada ao mercado norte-americano.

Com a tarifa de 25%, a tendência é que esse fluxo deixe de existir, uma vez que outros fornecedores passarão a ser mais competitivos que o Brasil. Como consequência, cerca de 300 milhões de litros de etanol deverão ser redirecionados para o mercado doméstico ou para outros destinos de exportação.

Esse redirecionamento não representa um problema para o mercado brasileiro. A demanda doméstica por etanol carburante vem crescendo neste ano, impulsionada pelo aumento da frota de veículos e pela ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou para 32%.

Por isso, esse volume poderá ser absorvido pelo mercado interno sem maiores dificuldades. O impacto será muito mais uma questão de preço do que de oferta, especialmente porque o mercado já opera com preços pressionados por outros fatores. Diante do tamanho do consumo nacional, esses cerca de 300 mil metros cúbicos têm participação pouco representativa.

Já no caso do açúcar, o impacto tende a ser mais significativo para as usinas do Norte e Nordeste, embora continue sendo pouco relevante para o mercado brasileiro como um todo.

Historicamente, os Estados Unidos destinam ao Brasil uma cota anual de aproximadamente 150 mil toneladas de açúcar. Por determinação do governo brasileiro, essa cota é integralmente distribuída às usinas do Norte e Nordeste como forma de compensar os custos de produção mais elevados enfrentados por essas regiões em comparação com as usinas do Centro-Sul.

O mercado norte-americano é protegido por elevadas tarifas de importação e por um sistema de cotas. A parcela destinada ao Brasil entra no país sem incidência de imposto, permitindo que as usinas acessem um mercado cujo preço é aproximadamente o dobro do praticado no mercado internacional.

Essa diferença torna a cota extremamente rentável para as usinas nordestinas, proporcionando margens significativamente superiores às obtidas nas vendas para o mercado doméstico ou para o mercado internacional livre.

Com a imposição da tarifa adicional de 25%, essa rentabilidade será reduzida de forma importante. Ainda assim, na avaliação do especialista, exportar para os Estados Unidos continua sendo mais vantajoso do que destinar esse açúcar ao mercado interno ou ao mercado internacional sem preferência tarifária.

Por isso, a expectativa é que as exportações dentro dessa cota continuem ocorrendo, ainda que com margens menores.

Incertezas aumentam com possibilidade de novas tarifas

O principal fator de preocupação passa a ser a possibilidade de novas medidas tarifárias por parte do governo norte-americano. Há especulações sobre a adoção de tarifas adicionais, o que aumentaria a incerteza para as usinas brasileiras.

Caso isso ocorra, o impacto sobre a rentabilidade poderá ser ainda maior. No cenário atual, porém, a exportação dentro da cota americana continua apresentando vantagem econômica em relação às alternativas disponíveis.

Importância da cota para o Nordeste

As usinas do Nordeste operam com custos de produção superiores aos das unidades instaladas no Centro-Sul. Entre os fatores estão características geográficas, como áreas mais montanhosas, menor produtividade agrícola, menor escala industrial e, consequentemente, custos fixos unitários mais elevados.

Por outro lado, essas usinas também possuem vantagens competitivas importantes. A proximidade dos portos reduz os custos logísticos de exportação e a localização geográfica favorece o transporte marítimo para determinados mercados consumidores.

Além disso, as cotas preferenciais concedidas pelos Estados Unidos e pela União Europeia historicamente funcionam como mecanismos que ajudam a compensar essas diferenças de custo, permitindo acesso a mercados que pagam prêmios superiores aos preços internacionais.

União Europeia pode absorver parte do volume

Uma alternativa para reduzir os efeitos das tarifas americanas é ampliar o direcionamento das exportações para a União Europeia.

Com o acordo Mercosul-União Europeia, foi ampliado o volume de açúcar brasileiro que poderá acessar o mercado europeu com preferência tarifária. A nova cota é de aproximadamente 180 mil toneladas sem incidência de imposto de importação.

O Brasil disputa esse espaço com os demais países do Mercosul, mas possui vantagem competitiva para ocupar boa parte desse volume, especialmente por meio das usinas do Nordeste. Essa possibilidade pode compensar parte da redução da rentabilidade provocada pelas novas tarifas dos Estados Unidos.

Avaliação final

Em resumo, a tarifa de 25% deverá reduzir a rentabilidade das exportações de açúcar das usinas do Norte e Nordeste e eliminar praticamente as exportações brasileiras de etanol para os Estados Unidos. No entanto, o impacto econômico permanece concentrado nessas usinas.

Para o mercado brasileiro de etanol, o volume poderá ser absorvido pela demanda doméstica. Já no açúcar, as exportações para os Estados Unidos tendem a continuar ocorrendo dentro da cota existente, embora com margens menores, enquanto parte da estratégia poderá migrar para o aproveitamento das oportunidades abertas no mercado europeu.

Do ponto de vista do mercado brasileiro e do comércio mundial de açúcar, o efeito das medidas é considerado limitado, em razão do pequeno volume da cota norte-americana destinada ao Brasil. O impacto é relevante principalmente para as usinas de Pernambuco, Alagoas e demais estados do Norte e Nordeste, mas pouco representativo para o setor sucroenergético brasileiro como um todo.

* Carlos Murilo Barros de Mello é economista e, atualmente, é chefe de açúcar para as Américas na Hedgepoint Global Markets


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