O mercado global de açúcar deve seguir superavitário na safra 2025/26, com excedente estimado em 2,9 milhões de toneladas, de acordo com o relatório de saldo global de açúcar da StoneX, empresa global de serviços financeiros.
De acordo com o analista de mercado Marcelo Di Bonifacio Filho, o volume, embora confortável, representa redução de quase 800 mil toneladas em relação à projeção de novembro.
Segundo ele, esse ajuste foi provocado sobretudo pelo corte superior a 1 milhão de toneladas na produção do Brasil, considerando as regiões Centro-Sul e Norte-Nordeste. Ainda assim, Di Bonifacio afirma que o recuo não altera o cenário de oferta no mercado internacional.
Para a StoneX, os estoques globais devem crescer 4%, chegando a 76,7 milhões de toneladas (valor bruto), elevando a relação estoque-uso a 39,6%. O valor, assim, ficaria acima da média quinquenal de 39% e estaria coerente com o comportamento das bolsas.
“No ciclo 2025/26, o desempenho global foi misto. Tailândia e China enfrentaram atrasos expressivos, enquanto a Europa registrou produção acima do previsto, especialmente na União Europeia e na Ucrânia. Na Índia, a safra avança conforme o esperado, impulsionada pelo ritmo acelerado de colheita em Maharashtra”, explicou o analista.

Já no Brasil, o Centro-Sul superou 600 milhões de toneladas de cana processadas na atual safra, mantendo produção de açúcar superior à da temporada anterior. No Norte-Nordeste, o movimento firme em direção ao etanol intensificou a redução do mix açucareiro.
Com sinais altistas e baixistas se equilibrando, o analista explica que o superávit global permanece próximo a 3 milhões de toneladas, nível suficiente para sustentar as cotações atuais, mas sem fundamentos para altas expressivas.
“Até março, o regime de chuvas no Centro-Sul do Brasil será decisivo para a oferta de cana. Precipitações abaixo da média podem limitar a produção. Atualizações de safra de Tailândia, China e Índia, previstas para janeiro, também serão relevantes para consolidar o panorama da temporada”, afirmou.
A produção de açúcar nas Américas deve cair 1,3% em 2025/26, influenciada principalmente pela revisão negativa no Brasil, conforme explica Di Bonifacio. No Nordeste, o mix de produção açucareiro recuou para 45%, pressionado pela melhor remuneração do etanol, levando a produção a 3 milhões de toneladas.
Já no Centro-Sul, o etanol hidratado passou a remunerar mais do que o açúcar desde agosto em alguns estados, revertendo rapidamente o mix. Assim, a estimativa de produção da StoneX foi reduzida para 40,7 milhões de toneladas.
“No México, chuvas atrasaram a safra em Veracruz, mas a produtividade permitiu manter a previsão de 5,1 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, a queda na beterraba foi compensada por recorde no açúcar de cana, mantendo a produção estável”, detalhou Di Bonifacio.
Em relação à Índia, o analista observa que, até a primeira quinzena de janeiro, o país processou 176 milhões de toneladas de cana, alta de 19% ante o ciclo anterior.
“A produção soma 15,9 milhões de toneladas, avanço de 22% favorecido pelo clima e pela expansão de área. Desta forma, o país deve encerrar a temporada com 32,3 milhões de toneladas, mesmo destinando 3,5 milhões de toneladas de cana ao etanol”, disse.
Já o consumo doméstico deve crescer 3,3%, para 28,5 milhões de toneladas, projeta ele. As exportações seguem lentas, segundo acompanhamento da consultoria, com apenas 200 mil toneladas embarcadas da cota autorizada de 1,5 milhão.
A safra tailandesa, conforme o analista, enfrenta atrasos relevantes por conta do excesso de chuvas no início da colheita e das restrições à moagem de cana queimada. Até 26 de janeiro, foram processadas 40 milhões de toneladas, queda de 12% na comparação anual.
A StoneX projeta 96 milhões de toneladas de cana, ainda superiores ao ciclo 2024/25. A produção de açúcar, por sua vez, foi revisada de 11,4 para 10,5 milhões de toneladas diante do risco de menor recuperação de sacarose.
A segunda revisão da StoneX para a safra 2026/27 do Centro-Sul indica mudança no direcionamento industrial, com usinas priorizando o etanol diante da queda nos preços do açúcar em 2025 e valorização do biocombustível.
O analista de mercado Rafael Borges destaca que, para 2026/27, a projeção é de maior disponibilidade de cana no Centro-Sul, permitindo expansão moderada da produção mesmo com maior direcionamento ao biocombustível.
“Ainda que a estimativa seja de que os preços do açúcar devam voltar a remunerar melhor o produtor em São Paulo principalmente a partir de maio ou junho de 2026, com a queda dos preços do biocombustível no pico de safra, o contexto atual já deverá ser responsável por uma redução considerável no mix açucareiro”, afirma Borges.
A estimativa para 2026/27 é que o mix açucareiro recue para 49,6%, redução que deve cortar cerca de 800 mil toneladas da produção estimada anteriormente. Já a área colhida deve alcançar 8,17 milhões de hectares, porém, a moagem prevista se mantém em 620,5 milhões de toneladas, avanço de 2,1%, resultado de uma produtividade revisada de 77,5 t/ha para 75,9 t/ha.

Em 2025/26, a StoneX acredita que o setor teve desempenho melhor que o estimado, com moagem revisada para 608,2 milhões de toneladas e maior produção de etanol de cana. O etanol de milho deve atingir 9,4 bilhões de litros, alta de quase 15%.
No Nordeste, a produção de açúcar deve cair 18,1%, impactada pelo menor teor de açúcar total recuperável (ATR) e mix de 45,8%. Projetos de etanol de milho na região do Matopiba podem elevar a produção regional a mais de 1,2 bilhão de litros em 2025/26, aposta o analista.
