A StoneX projeta um recorde histórico na produção de etanol na safra 2026/27 (abril a março) no Centro-Sul do Brasil, estimada em cerca de 38 bilhões de litros, marcando um crescimento de 12,7% em comparação com a safra anterior.
Segundo a consultoria, o avanço ocorre em um contexto de maior moagem de cana, expansão do etanol de milho e mudanças estruturais na demanda.
A consultoria revisou para cima sua estimativa de moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul para 632,2 milhões de toneladas, alta de 3,5% frente à safra 2025/26, que foi encerrada em 611,2 milhões de toneladas, já com recorde de área colhida. O ajuste reflete sobretudo condições climáticas mais favoráveis ao desenvolvimento dos canaviais.

Entre dezembro de 2025 e março de 2026, o acumulado de chuvas no Centro-Sul chegou a 580 mm, volume 25% acima do registrado no mesmo período do ciclo anterior, com destaque para as principais regiões produtoras de São Paulo e Triângulo Mineiro.
“Mesmo com a entressafra tendo volumes totais abaixo da média histórica, a melhor distribuição das chuvas trouxe ganhos claros de produtividade e sustentou uma perspectiva bastante positiva para a safra 2026/27”, afirma o analista de inteligência de mercado da StoneX, Marcelo Di Bonifácio Filho.
Diante desse cenário, a StoneX revisou para cima a produtividade, estimada em 76,7 toneladas por hectare, avanço de 3,1% frente à safra anterior. A área colhida deve alcançar 8,24 milhões de hectares, mantendo patamar próximo ao recorde histórico observado em 2025/26.
No mercado, a safra se inicia em meio a uma relação mais sensível entre açúcar e etanol. Após queda no início de abril, o açúcar bruto negociado em Nova York (NY#11) registrou recuperação na segunda quinzena do mês. Ainda assim, os preços permanecem próximos dos custos operacionais das usinas do Centro-Sul.
“No atual patamar de câmbio e preços, o açúcar não remunera de forma consistente os custos totais das usinas, o que mantém as fixações em ritmo lento e o volume ‘hedgeado’ em níveis baixos”, explica Di Bonifácio Filho.
Esse ambiente reforça uma estratégia mais voltada ao etanol. O mix açucareiro foi revisado para 47,9%, ante 48,7% na projeção anterior, enquanto a produção de açúcar foi mantida em 40 milhões de toneladas, sustentada pela maior moagem. O início da safra já confirma a tendência, com mix etanoleiro de 67% na primeira quinzena de abril.
A StoneX destaca que a oferta de etanol de cana deve crescer 9,6%, somando 26,9 bilhões de litros, enquanto o avanço do etanol de milho seguirá relevante no balanço nacional. A expectativa é de repasse gradual dos preços mais baixos do biocombustível ao consumidor final, com a paridade podendo recuar para níveis próximos de 60% em São Paulo.
“A safra começa claramente posicionada ao etanol. Ainda que a recente queda dos preços do hidratado tenha reduzido sua vantagem relativa, o volume disponível e a perspectiva de demanda sustentam um cenário estruturalmente favorável ao biocombustível”, avalia o analista.
Outro fator-chave será a possível adoção da mistura de 32% de anidro à gasolina (E32), que pode elevar a demanda por etanol anidro no Centro-Sul em cerca de 500 mil m³, além de estimular transferências adicionais para o Norte e Nordeste.
“Mesmo com o aumento da mistura, a oferta é suficiente para atender esse crescimento sem estresse, considerando a robustez da safra de cana e a expansão contínua do etanol de milho”, destaca Di Bonifácio Filho.
O mercado aguarda decisão final sobre o E32, que teve sua reunião de aprovação cancelada pelo CNPE na primeira semana de maio.
No Norte e Nordeste, a safra 2025/26 está praticamente encerrada, com moagem próxima de 56 milhões de toneladas, após um ciclo marcado por chuvas irregulares e queda do mix açucareiro para 46,1%, o que reduziu a produção de açúcar para 3,1 milhões de toneladas, o menor volume desde 2021/22.
Para a safra 2026/27 (setembro a agosto), a StoneX projeta recuperação gradual da moagem, estimada preliminarmente em 57,8 milhões de toneladas, com a produtividade retornando à média de cinco anos. O mix açucareiro deve subir para 47,1%, elevando a produção de açúcar para 3,4 milhões de toneladas.
O destaque regional, no entanto, segue sendo o etanol. A produção total no Norte-Nordeste deve alcançar 4,3 bilhões de litros em 2026/27, alta anual de 23%, impulsionada também pela expectativa de entrada de três novas unidades de etanol de milho.
“O crescimento do etanol no Norte e Nordeste adiciona flexibilidade ao abastecimento nacional e ajuda a acomodar o aumento estrutural da demanda esperado com o E32”, conclui o analista.