Agência fez uma comparação do perfil de risco financeiro e de negócio da São Martinho com Raízen e Tereos
Enquanto o setor de açúcar e etanol brasileiro passa por um período de “risco sistêmico”, com cinco grupos colocados sob "observação negativa" pela Fitch, a São Martinho parece navegar ilesa em meio à tempestade.
Mesmo assim a nota atribuída a empresa poderia ser melhor.
Veja as seguir:
- A comparação com Raízen e Tereos
- Os fatores que fizeram a empresa ser avaliada positivamente
- A ocupação esperada da moagem do grupo
- Números projetados para a safra 2014/15 e perspectivas
- Alavancagem da empresa para 2015 e 2016
- A liquidez do grupo
Enquanto o setor de açúcar e etanol brasileiro passa por um período de “risco sistêmico”, com cinco grupos colocados sob "observação negativa" pela Fitch, a São Martinho parece navegar ilesa em meio à tempestade.
A agência de classificação de risco Standard & Poor’s reafirmou ontem (19) as notas de crédito corporativo do grupo com quatro usinas e sede em Pradópolis (SP). A São Martinho manteve o rating de longo prazo “BB+” na escala global e “brAA+” na escala nacional, com perspectiva estável em ambas as escalas.
A S&P entende que a companhia deve continuar gerando fluxo de caixa livre positivo apesar das fracas condições da indústria sucroalcooleira e da recente aquisição da usina Santa Cruz por R$ 680 milhões, resultado da compra de participação adicional de 56,05% e dívidas assumidas. Agora os ativos estão sendo combinados em uma única pessoa jurídica com a incorporação da Santa Cruz à São Martinho.
“A perspectiva estável reflete nossa visão de que a empresa refinanciará gradualmente sua dívida recém-adquirida e fortalecerá sua liquidez à medida que libera estoque, enquanto continua gerando fluxo de caixa operacional livre positivo e mantém baixos níveis de endividamento”, analisou a S&P em relatório. Nenhuma dívida da empresa foi avaliada.
A capacidade de caixa e de crédito da companhia se reflete no desempenho das operações. Mesmo tendo sofrido reflexos da quebra de safra em função da seca, com uma perda de produtividade de 15%, o grupo já anunciou uma moagem recorde em sua principal usina e ainda conseguiu manter seus canaviais mais férteis do que a média.
“Os contínuos investimentos adequados da empresa nas plantações de cana-de-açúcar devem mitigar o estrago da seca no Estado de São Paulo. A seca reduziu a quantidade de cana-de-açúcar disponível e sua produção no estado paulista, mas ainda esperamos que a São Martinho opere com mais de 93% de sua capacidade”, considerou a agência.
A usina sede, a maior unidade de processamento de cana no mundo com 10,5 milhões de toneladas de capacidade de moagem, deve processar 9,3 milhões de toneladas nesta safra, 3% mais do que o registrado no ciclo passado.
Risco financeiro e de negócios
A S&P explica que “a rentabilidade da empresa é superior à de seus pares” por isso a avaliação do perfil de risco de negócios da São Martinho foi alterada de “regular” para “satisfatório”.
Entre os diferenciais, a agência aponta em favor da companhia que “a capacidade de cogerar energia e vender o excedente e certa diversificação de produtos lhe possibilitam gerar fluxos de caixa relativamente estáveis, mesmo em um período no qual a indústria está sofrendo com os preços baixos do açúcar no mercado global”.
Já o perfil de risco financeiro foi avaliado como “significativo”. A agencia explica que a empresa tem mantido seus índices de alavancagem (dívida sobre EBITDA) e de geração interna de caixa (FFO, em inglês) sobre dívida em linha com um perfil de risco financeiro “intermediário”, ou seja, abaixo de 3x e acima de 30%, respectivamente. No entanto, justificou a S&P, o fluxo de caixa operacional livre (FOCF, em inglês) sobre dívida é mais fraco para essa categoria.
Com baixa carga de juros, baixos níveis de capacidade ociosa e preços de energia mais altos, a agência acredita que a empresa é uma das poucas produtoras brasileiras de cana-de-açúcar que gerará fluxos de caixa livre positivos nas próximas safras.
“A reafirmação dos ratings reflete a capacidade da São Martinho de enfrentar as atuais condições difíceis da indústria fazendo uso limitado de dívida adicional, enquanto continua se expandindo”, diz a análise.
No exercício atual o FOCF projetado é de aproximadamente R$ 100 milhões, conforme a agência, e acima de R$ 300 milhões no exercício fiscal de 2016.
A combinação do perfil de risco de negócios satisfatório com um perfil de risco financeiro significativo permitiria a A&P escolher entre uma âncora ‘bb+’ ou, uma nota melhor, ‘bbb-’. A agência justificou a escolha pelo rating inferior ‘bb+’ porque “o perfil de risco de negócios satisfatório da empresa compara-se desfavoravelmente ao de alguns de seus pares avaliados, tais como Raízen e Tereos”.
Números de safra e perspectivas
A S&P assume um volume de moagem de 18,8 milhões de toneladas para a safra 2014/15 e de 19,5 milhões para a próxima, 2015/16. No ciclo atual é esperado um crescimento da receita de 17% na em função do maior volume de moagem e da total consolidação da usina Santa Cruz.
Nesta safra o capex estimado pela S&P para a São Martinho é de R$ 730 milhões, dos quais R$ 560 milhões são para manutenção. Nos próximos ciclos a expectativa é que o capex diminua para cerca de R$ 600 milhões. Também é projetado o pagamento de dividendos totalizando 30% do lucro líquido do exercício anterior.
Para as métricas de crédito a agência aposta em margens Ebitda entre 45% e 47% nas próximas safras, “aumentando marginalmente todo ano e acompanhando os preços do açúcar”.
A análise também vê a alavancagem, medida pela dívida sobre Ebitda, subindo para 2,9x em 2015 por causa da aquisição da usina Santa Cruz, mas declinando para cerca de 2x já em 2016.
“Acreditamos que a empresa refinanciará gradualmente essa dívida. A maior parte da dívida de curto prazo consiste de linhas de crédito de financiamento à exportação, as quais são quase que automaticamente renovadas assim que exporta seus produtos”, detalhou a S&P.
As projeções de FOCF sobre dívida focam em torno de 4% em 2015, 12% em 2016 e superior a 15% na safra de 2016/17.
Liquidez
Na visão da S&P a liquidez da companhia é “adequada” e as fontes de caixa excedem os usos em 1,2x continuamente. A avaliação reflete a estratégia da empresa de reter estoque até a entressafra canavieira. “Essa ação inflacionou o estoque da São Martinho, que atingiu um pico histórico de R$ 740 milhões em 30 de setembro de 2014, valor que a empresa financiou com dívida de curto prazo” (Leia mais sobre o resultado do último trimestre).
Conforme o relatório, os estoques de etanol não são considerados como uma fonte de caixa, o que melhoraria de a relação entre fontes e usos de liquidez da empresa, além disso, a dívida da Santa Cruz contribui para os passivos de curto prazo do grupo.
Amanda SchArr - NovaCana