
Quando o General Ernesto Geisel solicitou ao então futuro ministro das Minas e Energias, Shigeaki Ueki que consultasse o setor privado sobre a viabilidade de um programa de fontes alternativas de energia, ele imediatamente iniciou os diálogos com engenheiros, acadêmicos, empresários, todos reunidos na Associação das Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Associgás) que acabou se transformando em um grande fórum.
Ao ser consultado, estimulado e inspirado, um grupo de visionários e apaixonados pelo que faziam, desenvolveram a estratégia, o plano de ação, arregaçaram as mangas e lideraram um dos maiores programas de energias renováveis do mundo. Faziam parte deste grupo, Lamartine Navarro Júnior, Cícero Junqueira Franco, Maurilio Biagi, José Walter Bautista Vidal, Urbano Stumpf e, cada um com sua atribuição e competência, assumiram para si a responsabilidade de fazerem as coisas acontecerem. Enxergaram mais possibilidades do que adversidades.
Deste grande Fórum e desta sinergia fantástica se originou o famoso documento "Fotossíntese como fonte de energia", que foi apresentado ao Conselho Nacional de Petróleo em março de 1974. Este documento, podemos assim dizer, foi a primeira "muda" de cana que deu origem ao Proálcool (Programa Nacional do Álcool).
Na época, a grande motivação que levou o governo militar a buscar alternativas e apoiar um dos programas de energia renováveis de maior sucesso no mundo, foi que o Brasil viu os seus valores com a importação de petróleo saltarem de US$ 600 milhões em 1973 para US$ 2,5 bilhões em 1974. Provocando um grande déficit na balança comercial de US$ 4,7 bilhões.
Diante do desafio, o que fizeram nossos líderes? Planejaram, articularam, dialogaram, somaram forças, uniram conhecimentos e experiências, deixaram os egos do lado de fora da sala e só permitiram que entrassem seus talentos e competências visando à construção de algo significativo e importante para todos.
E qual foi o resultado? Em menos de 10 anos o Brasil demonstrou ao mundo ser capaz de construir um amplo e consistente programa de combustível alternativo.
Para se ter uma ideia, em apenas 3 safras, saímos de 600 milhões para 3 bilhões de litros. E, em 1985, 96% dos veículos vendidos eram movidos a álcool.
Este ritmo acelerado de crescimento durou até 1989 quando começou a faltar o produto nos postos de combustíveis, devido uma grave falta de planejamento do governo.
Esta falta de álcool levou a uma grave crise de imagem ao setor e com isso as vendas de carros a álcool desabaram, provocando uma crise que teve consequências por uma década. Depois desta crise o setor nunca recuperou totalmente a confiança do consumidor.
E vale ressaltar que a crise somente não foi pior, devido a empresários visionários do setor que importaram etanol e que foi destinado diretamente para suprir os pontos de abastecimentos mais críticos.
Apesar de toda a dificuldade deste período o setor se levantou e começou a lutar novamente pelo seu espaço na matriz energética brasileira e para se consolidar com um dos combustíveis mais sustentáveis e competitivos do mundo.
O setor sucroenergético possui todas as condições para se consolidar na era da bioeconomia.
Temos a nosso favor, o sol e um clima adequado, que favorece a fotossíntese, onde a planta captura energia do sol e a transforma em energia química.
Contamos com uma grande área de terras que podem ser utilizadas, sem afetar ou comprometer a área destinada à alimentação.
Possuímos tecnologia de ponta e o estado da arte em produção de biocombustível a partir da cana-de-açúcar.
E, claro, temos o fator que transforma tudo isto em resultados e produz o combustível "completão.": O Ser humano.
O setor conta com profissionais qualificados, capacitados e apaixonados pelo que fazem.
Além disto, possui know-how em um dos fatores fundamentais na era do conhecimento: Formar pessoas. Esta é uma vocação e uma paixão do setor, ser uma "universidade" de padrão classe mundial na formação de profissionais.
O setor sempre formou muitos profissionais. E, com planejamento e horizonte estratégico o setor jamais enfrentará apagão de mão-de-obra.
Tanto é verdade que o setor é um dos agentes responsáveis pela grande mobilidade social das últimas décadas. Fomos o setor que mais gerou emprego a um custo de pouco mais de US$ 20.000 por emprego gerado. Basta analisar o IDH do setor para verificar o grande salto de evolução social de toda a cadeia produtiva.
Os números falam alto; Geramos mais de 1,5 milhão de empregos diretos. E como para cada emprego direto gerado, geramos mais 2 de forma indireta, com isso ultrapassamos os 4,3 milhões de empregos em toda a sua cadeia produtiva.
Isso também nos leva a outra leitura, se em média cada profissional é responsável economicamente por mais duas pessoas em sua família, teremos 8,6 milhões de pessoas que dependem do sucesso do setor.
A quantidade de dinheiro que estes profissionais colocam todos os meses no comercio local fazendo girar a sua economia e o pleno desenvolvimento da comunidade é outro fator que se destaca.
Felizmente, nos últimos anos o setor tem aumentado o investimento no capital humano e na melhoria das condições de trabalho, com ênfase na saúde, segurança do trabalho e na formação de seus profissionais.
O desenvolvimento humano gerado pelo setor é um exemplo de capacitação, melhoria da qualidade de vida no trabalho e da inclusão social.
Principalmente no campo, onde acabou há muitos anos o jargão "Boia fria". Hoje os colaboradores trabalham com equipamento de segurança (EPIs) completo, as refeições são quentes, contam com banheiros e descanso remunerado e oportunidades de fazerem carreira na empresa.
Os que migraram do campo tiveram a oportunidade de serem qualificados através de treinamentos, muitos como operadores de maquinas de altíssima tecnologia e outros preparados para se tornarem profissionais nas mais diversas atividades dentro de uma usina.
O Futuro já chegou e estamos vendo que sem o Homem, sem a motivação humana e a qualidade de vida desse colaborador dentro da empresa não iremos a lugar algum. A tecnologia é fundamental, mas o homem continua imprescindível.
Agora para que o futuro do setor seja brilhante, será necessário que resgatemos o espírito de coragem, ousadia e liderança dos pioneiros. E que possamos dar as mãos para juntos desenharmos o futuro que desejamos para o setor. Um futuro onde todos ganhem, progridam e sejam felizes.
É inadmissível que o setor continue realizando voos de galinha - sobe e desce - nas últimas décadas ao invés de voos de águia que são sempre voos constantes e vigorosos rumo aos objetivos.
Das mais de 400 usinas no país, apenas 104 estão em condições plenas e preparadas para crescer e avançar.
Estamos assistindo ao fechamento de um grande número de usinas, vários pedidos de recuperação judicial e falências sendo decretadas;
É hora de dar um basta nesta situação de sobrevivência. É hora de assumirmos o leme e não ficarmos a deriva ao bel prazer da falta de visão do governo federal.
O governo não sabe o que quer com o etanol e por outro lado as lideranças do setor não conseguem convencê-lo a fazer o que deveria fazer, que é criar um marco regulatório, com todas as regras bem definidas e um planejamento estratégico de longo prazo e com o apoio necessário para transformar o setor em prioridade estratégica para a política energética do país.
Saímos da euforia do governo Lula com o setor ao descaso, a insensibilidade e a indiferença do governo Dilma.
O governo além de não apoiar o setor com o entusiasmo e a eficiência necessária insiste em medidas absurdas, como o de segurar artificialmente o preço da gasolina há quase 8 anos. O que inviabiliza completamente a competitividade do etanol.
Cabe ressaltar que neste mesmo período os custos de produção do setor praticamente dobraram.
Mas para que todo o ciclo sustentável de crescimento, progresso e ganhos efetivos para todas as partes envolvidas aconteça, é necessário que o setor desenvolva novas lideranças. Lideranças essas comprometidas e engajadas com o futuro de todos.
Temos carência de uma liderança ativa e comprometida com o futuro do setor e em prol do país.
Além disto, com a entrada dos novos grupos no setor estamos caminhando a passos largos para um oligopólio. O que obrigará o setor a ser ágil na adaptação de uma nova realidade.
Uma nova liderança, um novo caminho, uma nova estratégia, uma nova realidade, tudo isto para a construção de uma nova energia.
Acreditamos no futuro do país, trabalhamos para o futuro do setor!
Nelson Cury Filho,
Diretor do Grupo Diné e
Aparecido Mostaço, Administrador, Diretor de Gente e Gestão, Sócio-Diretor Energia Humana Consultoria
Foto: Divulgação Volkswagen