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Setor de etanol corre risco com falta de investimento e fechamento de usinas

crise-tanque-etanol-inflamavelQual é o impacto da crise no setor sucroalcooleiro para os próximos anos?
NovaCana 7 min de leitura
Não é novidade para os agentes do mercado que os investimentos do setor sucroalcooleiro encolheram significativamente nos últimos anos. Junto com a crise financeira mundial em 2008, a indústria da cana-de-açúcar viu o fim do surgimento de novas usinas. A situação foi em seguida agravada por um período de adversidades climáticas e políticas desfavoráveis ao setor.

Os números comprovam o cenário de retração e o exemplo mais evidente do retrocesso está na evolução da moagem de cana-de-açúcar no Brasil. Na região Centro-Sul, entre 2001 e 2009, o crescimento médio chegou a 10% ao ano. Nos dois anos subsequentes houve uma discreta evolução seguida de um recrudescimento dos índices, que persiste até o momento.

A estagnação da produção foi sentida fortemente pelo setor industrial. Com dezenas de usinas deixando de funcionar, o quadro só não foi pior porque algumas empresas continuaram os projetos de novas usinas iniciados antes da crise.

O portal NovaCana foi atrás para tentar entender o impacto e a gravidade desta situação no longo prazo para o Brasil. Confira abaixo:

- Pode haver um choque de oferta em alguns anos?
- O risco no longo prazo para o setor
- O impacto da alavancagem na saúde financeira das usinas
- A evolução das usinas inauguradas e as que fecharam as portas

Não é novidade para os agentes do mercado que os investimentos do setor sucroalcooleiro encolheram significativamente nos últimos anos. Junto com a crise financeira mundial, em 2008, a indústria da cana-de-açúcar viu o fim do surgimento de novas usinas. A situação foi em seguida agravada por um período de adversidades climáticas e políticas desfavoráveis ao setor.

Os números comprovam o cenário desfavorável e o exemplo mais evidente deste retrocesso está na evolução da moagem de cana-de-açúcar no Brasil. Na região Centro-Sul, entre 2001 e 2009, o crescimento médio chegou a 10% ao ano. Nos dois anos subsequentes houve uma discreta evolução seguida de um recrudescimento dos índices, que persiste até o momento.

Os dados sobre a desaceleração do crescimento nos últimos quatro anos constam em vários documentos apresentados pelo setor em diversas ocasiões e evidenciam a estagnação das novas plantas industriais. O quadro do desenvolvimento industrial só não é pior porque algumas empresas não cancelaram os projetos iniciados antes da crise.  A linha ascendente de inauguração de novas unidades até a safra 2008/2009, deu lugar para a  desaceleração industrial.

De acordo com os dados da Unica, nas últimas duas safras 30 usinas pararam de funcionar e até 2015 apenas quatro novos projetos devem entrar em operação, sendo que não existem pedidos de novas unidades industriais para os anos seguintes.

Em consequência deste quadro, especialistas tem alertado sobre o esgotamento da capacidade ociosa. Embora tenha cogitado o risco de demanda superior à oferta a partir da safra de 2014/2015, neste momento o diretor do Itaú BBA para o setor sucroenergético, Alexandre Figliolino, descarta a possibilidade de choque de oferta para o etanol. Porém a proporcionalidade não é tão resultante da autonomia da indústria, quanto do comportamento do mercado consumidor. "Com certeza o setor não deixará de produzir etanol anidro necessário a atender a demanda oriunda de 25% de mistura na gasolina e vários investimentos estão sendo feitos para isto. Quanto ao hidratado, a demanda se ajusta ao preço do combustível na bomba", afirma. Mesmo assim, Figliolino sinaliza que o limite está próximo. "Temos um espaço muito pequeno para crescer a produção de etanol e a necessidade de novos investimentos é cada vez mais premente".

Fechamento de usinas

Nas últimas cinco safras, 41 unidades produtoras encerraram suas operações na região Centro-Sul. Além disso, o nível de endividamento do setor é alto. A Unica estima que 1/6 das unidades em operação possuem dívida superior a R$ 100,00 por tonelada de cana-de-açúcar processada, o que significa que nessas empresas a dívida é equivalente ao faturamento bruto. "Se esse cenário não for revertido, poderemos ter uma perda adicional de capacidade produtiva equivalente a 100 milhões de toneladas de cana-de-açúcar nos próximos anos", alertou a Unica.

O aumento dos custos de produção empurrados pela queda de produtividade por hectare, reflexo das condições climáticas das últimas safras, ainda pode empurrar outros empreendedores para a derrocada. "O setor hoje, dado o ambiente de negócios, é como aquela escola onde a nota pra passar é muito alta, acima de oito. Tem que ser muito eficiente ou precisa ser filho de pai rico, que são aquelas empresas com farto acesso a crédito e a capitais, para passar de ano – essas, não temos dúvida, aguentam um período razoavelmente longo de preços não remuneradores", afirma Figliolino. Mas essas são minoria. "Existe uma gama enorme de produtores que estão fazendo a lição de casa, aumentando eficiência, reduzindo custos, mas em função dos problemas ocorridos num passado próximo, que levou a uma alta alavancagem, nas atuais condições de mercado não conseguirão sobreviver", prevê o diretor do Itaú BBA.

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A capacidade de produção impactada "pode contribuir para enxugar a oferta" e ainda prejudicar de modo importante economias locais. "Se as condições extremamente adversas persistirem, muita gente boa vai sair do mercado num enorme desperdício de recursos e que podem reduzir renda e emprego num número enorme de localidades altamente dependentes desta atividade agroindustrial", reforça o executivo.

Demanda X produção

O diretor do Itaú BBA considera que a capacidade de processamento no Centro-Sul será de 600 milhões de toneladas para a safra que inicia. A afirmação já considera usinas atualmente paralisadas, greenfields inaugurados e as pequenas expansões de algumas unidades.  "Pode chegar a um valor um pouco maior na safra 2014/15 contando com a recuperação dos yields agrícolas e a continuidade de alguns tímidos investimentos", pondera. A margem é apertada se comparada aos números da safra atual. Conforme dados da Unica, a região atingiu até o início de março, 532,5 milhões de toneladas.

A taxa de crescimento da demanda potencial para os veículos leves deve crescer a taxas médias de 5% ao ano, mas a indústria precisa ter a segurança da demanda final por etanol, "que depende substancialmente da relação de preços entre os combustíveis". A competitividade do preço do etanol hidratado em relação à gasolina garantirá condições sustentáveis do ponto de vista financeiro para a produção. "Ou seja, a conta tem que fechar", resume Figliolino.

Alternativas e o risco no longo prazo

Além do fim da atual política de preços para a gasolina, o diretor do Itaú BBA faz coro com os demais agentes de mercado ao ressaltar a necessidade do governo estabelecer "políticas robustas e confiáveis de longo prazo, com regras estáveis". Como o governo não parece inclinado a aderir os preços da gasolina aos praticados no mercado internacional, novos pequenos aumentos seriam uma alternativa, se aliados à desoneração da cadeia do etanol, avalia Figliolino.  "Muito benvinda para o setor e para o país seria termos desoneração também nos investimentos em cogeração de biomassa combinado com tarifas diferenciadas de transmissão e leilões separados por geografia e fonte, além de facilitar a conexão", completa.

Para ele, somente estas medidas vão viabilizar a completa retomada dos investimentos, chegando à construção de greenfields. "Senão assistiremos a morte lenta do etanol hidratado e a redução paulatina de sua utilização na crescente frota flex. Evidentemente saltos tecnológicos futuros, que aumentem substancialmente os rendimentos, podem mudar o atual ponto de equilíbrio desta equação. Mas não podemos esperar por isto de braços cruzados e medidas urgentes precisam ser implementadas", finalizou o executivo do Itaú BBA, Alexandre Figliolino.

Amanda SchArr – NovaCana
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