A São Martinho espera uma recuperação nos resultados operacionais da safra 2023/24, iniciada em abril, após encerrar a temporada anterior com quedas no lucro, na moagem de cana e nas produções de açúcar e etanol, em decorrência dos últimos impactos climáticos vindos de seca e geadas sobre seus canaviais.
Se no ciclo passado o clima pesou, desta vez as chuvas de verão contribuíram com as lavouras na entressafra e o novo ciclo “começou definitivamente diferente do que houve nas safras anteriores”, disse o CEO da companhia, Fabio Venturelli, à Globo Rural.
O ponto negativo das chuvas, que devem perdurar durante o ano em função do El Niño, é o atraso na colheita e um possível alongamento no processo de moagem nas usinas.
Venturelli calcula que o Centro-Sul, como um todo, deve ter perdido cerca de 10 dias de moagem em função das chuvas, o que deverá ser recuperado no fim do ciclo. “Essa safra por ter mais cana e estar sendo chuvosa, devemos estender até novembro pelo menos”, acrescentou o diretor financeiro e de relações com investidores da empresa, Felipe Vicchiato.
Seguir até novembro não é uma surpresa para a São Martinho, mas manter usinas processando até dezembro – como já aconteceu em anos de El Niño mais intenso – é algo raro, ressaltou o CEO, apesar de ainda considerar cedo para estimar até quando vai a operação.
A companhia de açúcar e etanol pretende processar 21,5 milhões de toneladas de cana na safra 2023/24, iniciada em abril, alta de 7,4% em relação à temporada anterior, em um movimento de recuperação nos canaviais que foram beneficiados pelas chuvas no verão.

De acordo com projeção divulgada nesta segunda-feira, 19, além do clima mais favorável, a expectativa de maior disponibilidade de matéria-prima é esperada após investimentos em tratos culturais realizados ao longo das safras 2021/22 e 2022/23, e manejo agrícola diferenciado combinado ao uso de variedades genéticas com melhor produtividade.
Para esta temporada, a São Martinho planeja investir R$ 2,47 bilhões, queda de 1,9% no comparativo anual.

A produção de açúcar deve crescer 14,4%, para 1,379 milhão de toneladas, e a de etanol aumentará em 23%, para 1,105 milhão de metros cúbicos, sendo 944,9 mil vindos da cana e 160,4 mil de milho.
Para o primeiro ano de operação da unidade que produz etanol a partir do cereal, estima-se um processamento de 420 mil toneladas de milho.
A São Martinho vai destinar 43% de sua matéria-prima para a fabricação de açúcar, contra 45% na safra anterior. Se descartar o volume de etanol de milho, o mix de produção para o adoçante seria de 47%, em reflexo a uma maior rentabilidade no mercado de açúcar.
Em 31 de março, as fixações de preço de açúcar feitas pela empresa para a safra 23/24 totalizavam cerca de 713 mil toneladas de açúcar (65% da cana própria), a um preço em torno de R$ 2.314/tonelada e a expectativa é que os 35% consigam valores ainda melhores.
“Foi uma aposta certa ter segurado a precificação. Temos condição de precificar o restante da safra em um patamar melhor”, relata Vicchiato.
Vale lembrar que, no mercado internacional, o fenômeno climático El Niño deve trazer condições mais adversas aos concorrentes do Brasil na exportação de açúcar, como Índia e Tailândia, reduzindo a oferta global e aumentando os preços.
Sobre a estratégia para o etanol, o diretor de RI disse que o cenário já não é mais tão promissor para exportação como quando o petróleo atingiu US$ 120 por barril, em função da guerra na Ucrânia, mas ainda é interessante para a companhia exportar entre 10% e 15% de sua produção, mas a mercados de margens melhores, como Japão e Europa.
“Hoje, a grande demanda que temos está no mercado de anidro”, afirmou o executivo sobre o tipo de etanol que é misturado à gasolina. O consumo do hidratado, que compete com a gasolina nas bombas, vem se recuperando, porém, mais lentamente.
Nayara Figueiredo